O RESSENTIMENTO DO FRACASSADO DIANTE DA ARTE CRIADORA

Como se constrói uma consciência embotada e resentida.

“Esse pessoal quer ganhar dinheiro fácil. Eles devem sair e procurar um emprego sério”.

A frase é de uma aposentada de 64 anos, para um jornal local, numa reportagem (que pode ser lida aqui) sobre a atuação dos artistas de rua e malabares, que usam fogo e facões em suas apresentações nos sinais de Manaus.

A força de trabalho alienada de seu produtor – o trabalhador – é, em si, uma violência. Acrescente-se a isso um modo de produção onde o valor do produto não está em sua função social, mas em sua volatibilidade, a velocidade na qual ele cumpre seu papel de objeto de consumo. O consumo existe não para satisfazer uma necessidade de posse ou uso, mas de perenização do ciclo de consumo e concentração do capital.

Desta maneira, o trabalhador fica preso de duas formas: precisa vender sua força de trabalho para ganhar seu sustento, ao mesmo tempo que se sente compelido a entrar na roda da mais-valia, consumindo e devolvendo ao patrão aquilo que ganhara construindo aquilo que agora tem de comprar. Sempre, claro, em absoluta desvantagem.

Assim, constrói-se o entendimento de que o trabalho é sofrimento, que não se “sobe na vida” sem sofrer. No pain, no gain, dizem os americanos.

Por isso, esta senhora, aposentada (outro clichê adesivante que se cola às pessoas, fazendo-se crer que aposentadoria significa improdutividade e que esta só se remenda às custas do consumo desenfreado, travestido na propaganda televisiva do “curtir a vida adoidado” no embuste da chamada melhor idade – melhor idade é aquela que a gente está, que a gente faz), sente-se ultrajada ao ver um grupo de jovens artistas. Como conceber a felicidade fora da rota pré-estabelecida pela sociedade do consumo? Como descobrir, ao final da carreira, que outro mundo, outro caminho era possível?

Aprende-se na escola do proletarismo domesticado que o sorriso e o trabalho não combinam. Ou melhor, são inseparáveis, desde que esse sorriso possa ser contabilizado no balanço de ganhos da corporação. Em empresas pós-modernas, como o Google, até os teus sonhos e ideias são concebidos dentro dos parâmetros da produção para o consumo de massas. A flexibilidade de horários, neste caso, não é para que tenhas mais tempo para ti, mas para que todo o teu tempo seja para a empresa.

Assim, não espanta o tamanho do ressentimento da madame diante do esfumaçado jovem, barbudo, desafiando a gravidade e o perigo na faixa de pedestres. Dar o seu suado dinheirinho a ele seria admitir o fracasso de não ter visto outra alternativa na vida. Que é possível ser feliz sem se vender ao extremo. Toda insegurança é produto desta ordem social nociva, e ela gera a violência social.

Assim, quando você, que não caiu neste embuste, estiver no sinal, e for agraciado com este espetáculo artístico, mesmo que não possa dar um trocado – e se puder, dê – ofereça ao menos o seu sorriso. Na mais-valia do prazer e da alegria, ele vale mais que a moedinha.

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