AS CONTRADIÇÕES DO HOMEM DE DIREITA

O genial e competitivo homem de direita.

O genial e competitivo homem de direita.

O que vai caracterizar a segunda globalização, a que só alcança sua plena força na segunda metade do século XX, com o nascimento dos mercados financeiros, que se tornaram instantâneos graças à invenção da internet, é uma “queda”, no sentido bíblico ou platônico, do termo. Dito de modo mais simples, a grande revolução das luzes (iniciada na França do século XVIII) vai despencar, vai cair numa infraestrutura, a do capitalismo, dentro de uma economia alucinadamente competitiva, na qual ela vai mudar radicalmente de significado. E quando digo “alucinadamente”, a expressão deve ser tomada no sentido literal. […]

 Tomemos um exemplo para tornar essa ruptura ainda mais palpável.

O diretor de empresa que hoje fabrica telefones celulares, ou computadores, ou qualquer outro objeto sobre o qual pesa fortemente a concorrência mundial, sabe com certeza uma coisa, uma coisa apenas: se o produto que ele põe no mercado daqui a três meses não for mais performático que aquele que temos no bolso ou na mesa, se a tela não for sensível ao toque, a conexão de internet mais rápida, o MP3 mais potente, o número de pixels mais elevado, etc., ele estará morto. Não é uma questão de projeto, de visão de mundo, de ideal ou de “política civilizadora”, mas de sobrevivência. […]

 Experimentem, a partir dessa ideia, imaginar o tipo ideal de homem de direita dos anos 2000.Vamos imaginá-lo como diretor de empresa já idoso, a fim de que ele tenha conhecido a França antes da grande desconstrução. Ele é diretor de empresa, logo, de direita. Às vezes me dizem que existem diretores de empresa de esquerda, mas como diz Gabin num filme cujos diálogos eram, sem dúvida, escritos por Audiard: “Também existem peixes voadores, mas não é a maioria da espécie!” Quando se é diretor de empresa – em todo caso, é assim que meu personagem pensa, é preciso assumir: está ali pelo lucro, pelo mercado, por alguma hierarquia de valores, salários, funções, e se isso não se chama de direita, mesmo a mais republicana e liberal, eu não sei nada. Em 2002, ele votou em Chirac, mas ainda se arrepende. Seu presidente, campeão na conquista do poder, foi dramaticamente numo no exercício da função: as 35 horas ainda estão aí, o ISF (Imposto de Solidariedade sobre a Fortuna), também, os impostos das empresas só aumentaram, bem como a dívida e o déficit público. Obrigado, direita! Todas as vezes que três estudantes saíram à rua aos gritos, primeiro levaram uma parte, e depois de insistirem um pouco, tudo. É muito simples: se tivesse havido um campeonato mundial de marcha ré, essa direita teria vencido com os pés nas costas…

Logo, nosso diretor pensa o pior dos políticos. Que um jovem presidente dinâmico tenha assumido a sucessão o tranquiliza um pouco. Ele espera apenas que ele “resista” e , como gato escaldado tem medo de água fria, continua vigilante mesmo assim.

Além do mais, em sua vida privada, nem tudo são flores. Por exemplo, quando ele recebe os netos e os colegas de escola em seu bonito apartamento para um lanche de aniversário que sua filha, lamentavelmente, teve a má ideia de organizar na casa dele, ele fica apavorado. Aqueles jovens mal-ajambrados, que não se parecem com nada, são incapazes de lhe dizer “bom dia, senhor” corretamente. Porque ele faz questão do “senhor” depois do “bom dia”. De qualquer modo, até o simples “bom dia” desapareceu. Quanto ao “até logo”, com ou sem “senhor”, pode esperar sentado” Meu novo misantropo está quase certo de que, na saída nenhum daqueles garotos lhe fará a gentileza de uma despedida. Quanto a esperar um “obrigado”, mesmo as utopias mais delirantes de 68 eram mais realistas! Você já teve a infelicidade de falar com eles de literatura, música, história da arte ou apenas de cinema? É um desespero! Se por acaso eles lhe escrevessem uma carta – mas felizmente você não corre esse perigo-, ela estaria com certeza cheia de erros de ortografia. Aliás, é normal, a escola faliu, os ministros da Educação são uns paspalhões e o Mamute¹ irreformável. Mais tarde, já se sabe, essas crianças vão procurar um emprego, certamente não um trabalho! Não é de se espantar que o comércio esteja melhor em Londres, Bruxelas, Madri do que em Paris. Em resumo, nosso diretor de empresa acha que “está tudo uma droga”., que o declínio ameaça, não, já está aí (ele leu bons autores “declinólogos” com deliciosa tristeza), e que não são os políticos, considerando-se sua covardia congênita, que vão segurar a barra…

Não estou exagerando, até porque o diagnóstico feito por nosso amigo não está completamente errado, longe disso. É verdade que ele é um pouco rude, como sempre, mas tem muito bom-senso. O único porém – e digo isso fraternalmente, com toda a amizade, eu que pertenço à direita republicana (aliás votamos igual) – é que ele é o único e exclusivo responsável por essa situação. Ele é o responsável por seu próprio desastre e ninguém mais. Dessa vez não é a esquerda que deve ser incriminada, em toso caso não essencialmente, mas ele e seus semelhantes, que fazem avançar a todo vapor, há decênios, a lógica desconstrutora da globalização, sem querer perceber, nem compreender as consequências que ela provoca.

Que ele venda celulares, programas de televisão, hambúrgueres ou jogos de videogame, meu diretor de empresa só tem, de fato, e desde sempre, um único objetivo em mente: que nossas crianças se tornem apaixonados consumidores, viciados em Shopping. Não se pode censurá-los, é seu trabalho: se nossos concidadãos não consumirem cada vez mais, seus negócios estariam ameaçados. Mas o essencial é o seguinte: se dispuséssemos de microscópios que, em vez de nos revelar os segredos das moléculas ou das bactérias, nos permitissem analisar de perto os conceitos e as ideias, comprovaríamos em laboratório, em estado puramente químico, que o consumo se parece exatamente com o vício. Eles tem fundamentalmente o mesmo DNA. A definição do drogado? Um ser que não consegue deixar de aumentas as doses e a frequência, até a morte se necessário. Como não ver que essa é a definição do cliente ideal, do freguês que faria compras com frequência, comprando sempre mais.

 ¹Claude Allègre, ministro da Educação, assim se referiu ao sistema educacional na França (1997).

 Trecho extraído do livro A Revolução do Amor, do filósofo francês Luc Ferry – ed Objetiva, com tradução de Véra Lúcia dos Reis

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Uma resposta para “AS CONTRADIÇÕES DO HOMEM DE DIREITA

  1. S.T.F te digo mexeu com LULA mexeu comigo

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