“PT age como um patrão das antigas”, diz servidor exonerado

Observação nossa: desconfie do governo onde os revolucionários se sentem desconfortáveis.

Coordenador de Inovação Tecnológica do Ministério do Planejamento no governo Dilma Roussef desde setembro de 2011, o empresário Cesar Augusto de Azambuja Brod, 48 anos, entregou o cargo no último dia 2. Sua atitude não teria passado de mais uma exoneração de servidor público descontente não tivesse sido motivada pela ordem de cortar o ponto dos 12 servidores federais em greve sob sua coordenação. Além de contrariar a ordem superior, divulgou uma carta em que acusa o Partido dos Trabalhadores (PT) de assumir postura patronal na negociação com os sindicatos.

Em entrevista exclusiva ao Terra por telefone de Brasília, o gaúcho afirmou que a decisão de se desligar respeitou a educação que a mãe professora lhe deu e que gostaria que esta atitude fosse entendida como uma mensagem de apoio aos docentes, em greve há 3 meses. “Aprendi com ela que a gente vem ao mundo sempre para aprender”, disse. Ele reafirmou o repúdio à política de endurecer na negociação com as categorias em greve. “O PT está funcionando como um patrão das antigas.”

Iniciados em julho, os protestos e as paralisações de servidores federais aumentaram em agosto. Ao menos 25 categorias estão em greve. De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), o movimento atinge 28 órgãos, com 370 mil trabalhadores parados. O número é contestado pelo governo.

O Ministério do Planejamento declarou que está analisando qual o “espaço orçamentário” para negociar com as categorias. O governo tem até o dia 31 de agosto para enviar o projeto de lei orçamentária ao Congresso Nacional com os gastos para 2013.

Confira abaixo a entrevista que Brod concedeu ao Terra.

Terra – Como foi a exoneração?
Cesar Augusto de Azambuja Brod –
As coordenações receberam a ordem de cortar o ponto dos seus funcionários em greve. Foi algo que veio direto de cima, sem discussão interna. Como sou de um cargo de confiança do governo, fiquei em uma posição muito delicada. Receber uma determinação que vai contra os meus princípios não me deixou confortável. Pensei que se eu aceitasse a decisão de cortar o ponto agora, o que teria de aceitar depois? Não me imaginei naquele momento seguindo no cargo. Esperava uma negociação mais evoluída do governo com os sindicatos.

Terra – E como está sendo a negociação?
Brod –
Querem vencer os grevistas no cansaço, sem ver o funcionalismo federal como instrumento da mudança social que querem implementar. O PT, nesta posição que se coloca em relação aos grevistas, parece que aprendeu muito mais o que os patrões faziam quando estavam em greve do que em trazer o social para o governo. Me parece que esqueceu uma questão, a do papel do funcionalismo como uma forma de preservação de políticas de Estado. O PT está funcionando como um patrão das antigas, preocupado em dizer “o País é meu, dominei o jogo e o funcionalismo é só um acessório”.

Terra – O senhor recebeu mais apoio ou críticas?
Brod –
Muito mais apoio do que críticas. Tinha um conhecimento muito bom da equipe com a qual eu trabalhava. Quando vi que meu nome apareceu no Terra e em outros meios fiquei surpreso, não imaginava que a decisão teria de tanto impacto. Recebi muitos e-mails, não só do Rio Grande do Sul como do País inteiro. Só meu diretor disse que deveria ter conversado com ele antes (de pedir a exoneração). Eu sabia que era uma decisão radical e pesada, mas que eu tinha que tomar daquele jeito se quisesse causar algum impacto positivo.

Terra – O senhor é filiado ao PT?
Brod –
Nunca fui filiado, mas sempre fui simpatizante. Minha nomeação, apesar de ser um cargo de confiança, foi técnica. Sou militante de esquerda, mas não necessariamente ligado ao partido.

Terra – O que o senhor vai fazer agora?
Brod –
Eu estava em um emprego dos sonhos. Trabalhava em software livre, com políticas públicas. Mas nunca trabalharia com o que vai contra meus princípios. Vou voltar para minha casa em Lajeado para descansar a cabeça no travesseiro e ficar com a família. Talvez retomar minha empresa de consultoria, atrás de algum projeto, mas preciso retomar a vida profissional porque não fiz um pé de meia.

Terra – Qual é a sensação que fica da experiência no governo?
Brod –
Saio do governo um pouco decepcionado. O governo de um partido que surgiu das bases, da ação social, se distancia disso na relação com seus próprios funcionários.

Terra – O senhor tem alguma simpatia por alguma categoria em greve específica?
Brod –
Olha, depois que eu saí pensei no que aconteceu e se eu tiver que apoiar uma categoria sempre vai ser a dos professores. Minha mãe foi professora em Guarulhos, funcionária pública e aprendi com ela que a gente vem ao mundo para aprender.

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