FLIP-FLOP: 10 ANOS

Por @Sobrecomum*

As Raves, festas de música eletrônica que duram de 24 horas a uma semana dependendo do fôlego dos patrocinadores, inclusive os ilícitos, elegeram a bota pata de bode como seu calçado oficial. Geralmente feitas de camurça, com solas plataforma de madeira ou de borracha, praticamente sem salto, deixavam os pés a salvo das poças de lama, aliás na grama ou na areia dependendo da proposta do festival lá estavam elas.

Já a Festa Literária Internacional de Paraty, FLIP, aqui também chamada de rave por se estender durante quatro dias consecutivos, elencou a sandália de dedo, também conhecida como flip flop como o calçado mais apropriado para as ruas com calçamento “pé-de-moleque” de seu centro histórico.

A aventura começou logo na partida, um ônibus me levou de Volta Redonda até Mambucaba, no município de Angra dos Reis e de lá um outro ônibus, esse sem o ar condicionado e sem estofamento nas cadeiras completa o trajeto até Paraty. Ônibus direto só de segunda a sexta às cinco e meia da tarde. Precário é pouco pra falar do transporte.

Outro grande evento, Rock in Rio, tinha ônibus próprio espalhado por diversos pontos na cidade do Rio e municípios próximos. Os organizadores não disfarçavam seu interesse comercial e o festival nunca se percebeu como um atrativo turístico para a cidade. Por isso mesmo viajou para Lisboa. E quando voltou foi muito bem recebido.

Já a Flip Flop, está ancorada nessa cidade que é uma vila de pescadores. Muito mal administrada pela prefeitura, com um centro histórico que é uma verdadeira cidade cenográfica e sem um diálogo entre o salão de festa e a cozinha.

Quando chamo a cidade de vila de pescadores, é porque a maior parte dela é banhada pelo mar, inclusive o centro histórico é inundado quando a maré sobe. Portanto a pesca é a fonte de renda principal da população. Mas os quiosques da praia que estão em péssimo estado, poderiam já ter sido reformados pela prefeitura atraindo os turistas e seu dinheiro extra para o lugar mais adequado.

Cheguei de ônibus e encontrei uma rodoviária de cidade do interior, com banheiros imundos e guichês fechados. Nenhuma placa indicava que havia um festival ou que aquela cidade durante quatro dias estava internacionalizada. Do outro lado da rua, um shopping, com banheiro, pensei. Interditado. Provavelmente acharam melhor que dizer que era “exclusivo para clientes”. Até onde eu sei, os estabelecimentos comerciais devem ter banheiros que funcionem para manter as portas abertas e dependendo do caso, dois banheiros, um para cada gênero de pessoa. Algumas escolas de samba fizeram inclusive o terceiro, para as transsexuais. Mais tarde, quando fui almoçar, descobri que faltava água em Paraty.

Voltando ao início da viagem, caminhei pelas ruas em busca de um guia, alguém com uma camiseta e um crachá distribuindo mapas evento. Nada. Achei foi umas lojas de artesanato e moda de ambos os lados da rua estrategicamente colocadas para depenar os turistas. Logo a frente estariam as placas com as bandeiras de cartões de crédito para terminar o açoite. Essas lojas vendiam mesmo tipo de peças rústica, de madeira, palha ou as vezes de tecido encontradas em qualquer outro lugar, vendido como artesanal mas produzido em ritmo industrial.

Um pouco a frente perguntei onde ficava o centro histórico. Depois da corrente, responderam. Ali, no sítio arqueológico não entra carro, moto ou bicicleta. Os pedestres andas com cuidado pisando em pedras enormes e desniveladas. E os cadeirantes, os idosos, os homens e mulheres com deficiência de locomoção? Poderiam fazer como nas cavernas abertas a visitação, construir uma passarela provisória que desmontasse ao final do evento, com rampa de acesso e corrimão de segurança. Não tiraria o charme do tombamento e nem prejudicariam a harmonia arquitetônica a que se refere a UNESCO quando fala sobre o local. Uma rua apenas, com acessibilidade já seria o suficiente. As outras ficariam como estão.

Depois de chegar ao evento, pude perceber que ali se celebrava a cultura oficial, o patrocínio dos bancos foi a pista que segui. O BNDES e o Banco Itaú são patrocinadores da cultura de modo geral e por isso determinam que cara e o conteúdo que ela vai ter.

Cultura popular mesmo, só os índios Caiçaras (eu acho) que se espalhavam em ruas próximas do centro cenográfico vendendo seu artesanato: flautas, anéis e cestos. Os anéis aliás eram de casca de coco e ossos de animais, coisa que só uma máquina consegue fazer. Enquanto eles fingem que são indígenas e nós fingimos que somos turistas.

Índio sim, pelo corpo avermelhado, cabelo preto e liso, mas indígena não. Poderiam ter dançado e cantado incorporados ao festival para alavancar e promover a venda de livros com essa temática, mas nenhum livro vendido lá falava da história desses povos que estavam aqui antes de nós e seus costumes. Aliás, nem eles devem saber sua história e há muito adquiriram outros costumes.

E para quem não sabe, a cidade é cenográfica porque a fachada das casas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN foi pintada em Maio pelos voluntários patrocinados pelas tintas Coral que puderam dar mais cor para a cidade. E depois foram todos assistir o show da cantora Ana Carolina. E não por iniciativa da Prefeitura, que fique sublinhado.

Até os barcos foram recauchutados, ficaram todos laranja, cor escolhida pelo patrocinador maior da festa, o Banco Itaú. Também conhecido como o mais selvagem na cobrança de taxas dos seus correntistas. Esses caso se cadastrassem no site poderiam passear de bicicleta gratuitamente por uma hora, caso o passeio ultrapassasse esse período, era descontado cinco reais a cada hora, direto na conta.

Os escritores, pelo contrário, não recebem cachés para se sentarem às mesas de debates, falam pelo que pude acompanhar apenas dos próprios livros recém-lançados. O festival ainda cobra R$ 40,00 para quem quiser assistir dentro de um teatro com ar refrigerado e cadeiras estofadas e R$ 10,00 para quem preferir assistir o telão com temperatura ambientemas com cadeiras estofadas.

O patrocinador distribuiu bancos feitos de papelão projetados para suportar até 100kg. E os participantes da festa aproveitaram para ocupar as laterais da sala aberta e espiar a conversa dos escritores. Alguns ate tomaram notas.

Havia uma livraria que era pequena, confusa, e com pouca variedade de títulos e editoras. Algumas até alugaram casas tombadas e fizeram um comércio próprio. Bem mais interessante.

Me chamou muito a atenção os meninos que distribuíam livros budistas e diziam que a contribuição para adquiri-los era livre. Olhei bem pros pés deles e não vi nenhuma flip flop, apenas tênis iate das mais caras grifes. Um deles até usava um brinco, coisa que é proibida na religião. Nao por ser atributo feminino, mas por despertar a vaidade.

Haviam árvores com livros pendurados, mas só para as crianças. E mesmo elas não se interessaram muito. Preferiam os bonecos com quem podiam interagir. Por falar nisso, senti falta dos e-books, de ter uma lan house onde se acessasse a internet ou o primeiro capítulo das obras ali vendidas. Não, nada era digita a festa como um todo. O livro era de papel, o banco era de papel, os folhetos, os livretos, os panfletos, jornais e até a sacola da livraria eram deste material. Nada era de pano, reaproveitável, sustentável ou organico.

Senti falta de uma caixa de coleta para doação de livros velhos ou uma roda, onde pudéssemos trocar livros com outros leitores, se bem que não haviam leitores lá. Haviam compradores de livros. Ler mesmo eu não vi ninguém lendo.

Na hora de partir, outra surpresa, ônibus direto só as seis da manhã do outro dia. Restava a baldeação ou as pousadas lotadas. Se fosse mesmo uma rave, haveria música, botas pata de bode e algumas barracas de acampamento espalhadas na praia. Mas era a flip flop, um chinelinho de pedreiro que ganhou umas cores vibrantes e agora paga de madame.

Sem alternativa, voltei pra Mambucaba, peguei o último ônibus para Volta Redonda, que saía as sete da noite e sentei para escrever esta crônica falando de como fui mal tratado na festa que entrei de penetra.

* @Sobrecomum é um olhar na diversidade sobre o mesmidade do Real.

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