COLÔNIA ANTONIO ALEIXO, MANAUS

Do Blog da Elaíze Farias:

Pedral da Ponta das Lajes, na Colônia Antônio Aleixo, em época da vazante do rio (Valter Calheiros )

Pedral da Ponta das Lajes, na Colônia Antônio Aleixo, em época da vazante do rio (Valter Calheiros )

Durante muitos anos, décadas até, o bairro Colônia Antônio Aleixo, na zona Leste de Manaus, foi vítima de toda sorte de preconceito, mal entendidos, narizes e olhares tortos. Localizado à beira do rio Negro, já na biqueira do Solimões, a Colônia (como é conhecido o bairro) esteve durante muito tempo associado ao estigma de ser a “casa” dos portadores de hanseníase.

Acho que foi a partir dos anos 40 (não tenho certeza, alguém pode me corrigir) que começou toda essa história. Médicos “modernos” instalaram um leprosário na então comunidade (muuuito distante do que era centro de Manaus) para receber os doentes.

Para lá eram enviados os portadores. Nenhum chegava via terrestre.  Às escondidas da população de Manaus, os doentes eram transportados pelo rio. Eles recebiam algum tipo de tratamento e iam vivendo dentro do possível, mesmo sem dignidade alguma (esses episódios passaram a ser recorrentes na minha memória depois que li “O Visconde Partido ao Meio”, do Italo Calvino, mas em outro momento explico).

Mesmo depois de todo esse tempo, dos avanços da medicina e do tratamento, da descoberta da cura e das campanhas de conscientização junto à população, a Colônia não escapou do estereótipo, embora a relação com a doença há muito tenha sido deixado para trás.

Quando me mudei para Manaus, nos meus 17 anos, o primeiro bairro em que morei foi a Cachoeirinha. Lembro que vez ou outra recebia o aviso de que evitasse pegar os ônibus que ia para a Colônia (Cachoeirinha é rota de vários coletivos que vão para a Zona Leste). Depois de um tempo, me mudei para outros tantos bairros e a Colônia saiu da minha rotina e dos meus interesses.

Na verdade, eu pouco conhecia a Colônia. Ia muito raramente. No meu subconsciente, o bairro tinha uma conexão com aqueles casos de “corpos desovados” em varadouros, em notícias de polícia publicada nos jornais. Eu não dava muita bola.

A grande afeição que eu adquiri pela Colônia ocorreu uns quatro anos atrás, quando passei a ir com freqüência ao bairro, por ocasião de algumas matérias que produzi sobre os impactos nas áreas de preservação ambiental, o desmatamento e o acúmulo de lixos.

Na mesma época, eu também comecei a procurar saber o que pensavam as pessoas diante da possibilidade de se construir um grande porto de cargas bem próximo do Encontro das Águas (sim, o Encontro das Águas pode ser visto da Colônia, inclusive pela parte terrestre). Conheci muita gente boa, de coração inconformista: Isaque Dantas, Pe. Orlando, dona Marisa, Leandra (moradores do bairro).

De tanto eu ir na Colônia, de conhecer pessoas bacanas, inteligentes, espirituosas; de ver tanta gente simples e engajada, me apaixonei pelo bairro. Claro, a beleza natural da Colônia, o riozão que passa próximo, as árvores nos quintais tiveram um peso e tanto nessa minha nova percepção do local.

Beleza

A Colônia sofre muito, muito mesmo com o preconceito. Mas sofre mais ainda com o descaso do poder público, da sociedade que não conhece o lugar, que não tem ideia da importância daquela localidade para o meio ambiente e para a qualidade de vida de toda a cidade.

Vou citar só alguns exemplos que deixariam qualquer outro bairro no chinelo. A Colônia possui uma linda área conhecida como Ponta das Lajes, um local que reúne um pedral arenítico de grande riqueza geológica e arqueológica. Foi lá que, em 2010, os moradores do bairro descobriram, com aquela seca severa, gravuras rupestres provavelmente de uns 7 mil anos atrás. Essas “carinhas” de meninos aparecem apenas quando o rio Negro desce demais.

A partir de então, sempre em setembro, quando o rio Negro está cada vez mais baixo, eu decidi ir ao pedral, passear e procurar as gravuras. Ano passado o rio não desceu tanto e não vi, mas fiquei bem assustada com o pitiú da cobra-grande que, dizem, fica escondida debaixo das pedras.

É na Colônia onde está o maior sítio arqueológico de Manaus. Ok, muitas coisas ali já se perderam. Impactos causados por grandes empreendimentos (como o Proama) estão acabando com o que resta, mas ainda dá tempo de se salvar muita coisa naquele sítio. Uns anos atrás, duas lindas e enormes urnas funerárias pré-colombianas foram resgatadas antes que fossem soterradas.

A Colônia tem uma praia muito bonita (que surge na época da vazante, lógico) que pode ser freqüentada sem qualquer restrição. É um ótimo local para desestressar e pescar.

Lamentável é que a Colônia sofre muito com o lixo. Lixo residencial, lixo industrial. Resto de barro (e não é pouco) retirado de alguma obra grande feita em outro bairro de Manaus é despejado em algum buraco da Colônia. O bairro virou lixo da cidade. Tudo se joga ali. Os moradores sempre denunciam, mas suas vozes não são ouvidas. Ou são ouvidas, mas ninguém dá confiança.

Sua margem está ocupada por vários portos de carga. Muitos dos quais dificultando o acesso aos lagos onde os moradores pescam para a subsistência. Matas ciliares já desapareceram por conta dessa ocupação sem controle. As áreas de proteção ambiental estão desprotegidas.

Paisagem

Mas o que eu acho mais admirável é que a população da Colônia não se resigna. Está sempre expondo o descaso e a negligência das autoridades públicas. Mostrando a cara e denunciando.

Quem não conhece a Colônia Antônio Aleixo não sabe o que está perdendo. Ocasionalmente dou sugestão para os colegas conhecerem a margem do rio Negro “pelos lados da Colônia”. Peço que variem um pouco da paisagem vista pela Ponta Negra.

Sempre comento com meus amigos que, quando eu puder, tiver dinheiro suficiente e um carro bom (quando aprender a dirigir), vou fincar residência na Colônia. Certamente terei vizinhos afáveis e solidários. E muito divertidos. É um bairro que lembra muito o interior da minha infância e adolescência, um resgate do passado de quando eu passeava de bicicleta até a lombrigueira (que nem existe mais) na Santa Clara, em Parintins.

 

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2 Respostas para “COLÔNIA ANTONIO ALEIXO, MANAUS

  1. otima materia , conheço o puraquequara mas a colonia não, irei em breve desfrutar desta natureza, parabens pela materia.

  2. Eu moro na Colônia, e sem dúvidas é um ótimo bairro, apesar do preconceito excessivo!
    Ótima matéria!

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