AMÉLIAS E MEDÉIAS (ou) AS VÁRIAS MANEIRAS DE ESQUARTEJAR UMA PESSOA

É plenamente possível que um homem mate, estupre, esquarteje, torture, espanque, aniquile uma mulher, apenas pelas exigências morais e sociais de ser homem. Isso efetivamente acontece, pelo menos cinco vezes por dia, a cada cinco minutos, no Brasil. Ele não será alvo do escrutínio implacável da imprensa. No máximo, uma nota de rodapé em um jornal popularesco, que provocará um riso de escárnio do leitor.

Mas basta uma mulher matar e esquartejar um homem. Que ouse inverter a força vetorial do soco, rompa o silêncio com um grito inumano (ou demasiado humano?), desafie a ordem patriarcal que exige o sofrimento resignado e permite o aniquilamento psíquico cotidiano, em pequenas doses, quase um esquartejamento espiritual.

Aí sim, virá a indignação seletiva travestida em ciência, chamando-a psicopata, desequilibrada, fria, inumana. O grito de horror, o verbo judicativo, a sentença fácil e imediata: culpada! Louca! Culpada por negar a sua humanidade, profanar o corpo, a família, o amor, e outros ídolos de barro da sociedade de consumo. Gritam, apontam, vociferam, exorcizam o próprio mal com a ajuda desse bode expiatório.

A odiosa rejeição ao horror episódico permite tolerar a tragédia cotidiana que ocorre sub-repticiamente, explodindo, vez por outra, em ressentimento, dor e sangue. Tudo em nome da manutenção da moral e dos bons costumes.

Fira, porém, o rasgo no débil tecido da moral social: muitas mulheres se contentam em ser Amélia; algumas, porém, ousam ser Medéia.

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3 Respostas para “AMÉLIAS E MEDÉIAS (ou) AS VÁRIAS MANEIRAS DE ESQUARTEJAR UMA PESSOA

  1. No acontecimento recente isso me chamou atenção lembro de quando ouvi a noticia pensei: ” essa merece o meu respeito”, sem julgamentos morais sobre vida humana, ou sobre motivos, dentro de uma sociedade que acha normal o homem bater em mulher, como coisa de casal, uma mulher ousou a dar o troco, com o perdão da palavra, agiu feito MACHO. Uma hora nós deixariamos de ser Amélia e que venham as proximas, ensinar aos homens quem é o sexo frágil.

  2. Não querendo defender a referida assassina (supondo que ela realmente o seja, não sei se ela já foi oficialmente condenada * ), mas compartilho de vossa indignação. Diariamente mulheres são brutalizadas por homens e a mídia trata esses casos como números nas estatísticas. Mas quando é a mulher quem mata o homem (ou ao menos, alega-se isso) cria-se logo uma fúnebre novela. Machismo não é um simples mal hábito: é uma abominação que tem trazido muita desgraça a nosso mundo.

    * A propósito, devemos cultivar o hábito de não nos deixar levar pelo julgamento a priori que programas policialescos nos impõe. A função de julgar cabe a juízes, não a repórteres, com o devido respeito à classe.

    Abraço!

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