DISCRIMINAÇÃO AFETA SAÚDE MENTAL DE ADOLESCENTES

Via Luis Nassif:

Discriminação afeta saúde mental de adolescentes

Por Lilian Milena, no Brasilianas.org
Da Agência Dinheiro Vivo

Discriminação e sentimento de vergonha fazem com que adolescentes homossexuais manifestem 20% mais transtornos psicológicos do que adolescentes heterossexuais, revela tese de doutorado defendida na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

A psicóloga e autora do trabalho, Daniela Barbetta Ghorayeb, constatou também que 35% dos jovens de orientação homossexual apresentaram transtorno depressivo maior em algum momento da vida, contra 15% do grupo de controle, formado por adolescentes heterossexuais, e cerca de 67% dos adolescentes admitiram alimentar o sentimento de vergonha pelo outro, por serem como são.

p>Apesar desses dados Daniela constatou, entre os jovens, um fenômeno importante, estudado pelo inglês Philip Hammack, chamado de geração pós-gay. Ao contrário dos mais velhos, eles não querem ser taxados de gays, lésbicas, bissexuais ou homossexuais. E isso não tem nada a ver com promiscuidade ou perda de capacidade da auto-avaliação, mas sim porque entendem que a sexualidade não pode estar no cerne de suas identidades.

A psicóloga entrevistou 80 jovens entre 16 e 22 anos, metade heterossexual e metade homossexual. O trabalho teve que ser baseado em estudos internacionais, pois no Brasil não existem pesquisas na área médica que comparem a questão da homossexualidade, saúde mental e preconceito.

Além do doutorado com adolescentes, a psicóloga possui tese de mestrado, com igual linha metodológica, ou seja, mesmas perguntas, instrumentos de análise de saúde mental e qualidade de vida, mas voltada para adultos. Também existe outro trabalho que reúne informações de idosos homossexuais, organizado por seu colega, Alex de Toledo Ceara, em 2009.

Acompanhe os principais trechos da entrevista:

Brasilianas.org – Existe alguma linha que ligue todas as três faixas etárias (adolescência, fase adulta e terceira idade) ou que revele problemas comuns sofridos em todos esses momentos da vida?

Daniela Barbetta Ghorayeb – Sim, nós encontramos pontos em comum, embora essas tenham vivido a descoberta da sua homossexualidade em contexto sócio-histórico e cultural diferentes. A questão do preconceito está presente em todas essas faixas etárias e nos três estudos constatamos maior prevalência de transtornos mentais para homossexuais do que para heterossexuais, relacionado a preconceitos.

Hoje o homossexual enfrenta menos preconceito na sociedade?

Hoje a homossexualidade tem uma visibilidade maior, digamos. Isso necessariamente diminui o preconceito e aí diminui o sofrimento? Não.

Pensar isso é algo um pouco perigoso. Porque ao mesmo tempo que a homossexualidade começou a aparecer, veio uma reação contra essa expressão da homossexualidade.

O que representa ser homossexual num contexto social hostil, em especial no período da adolescência?

A primeira coisa que identifiquei na pesquisa é que o adolescente tem muito receito da família. Quando você é adulto, já é mais independente, não está morando junto. Então os adolescentes temem frustrar as expectativas dos pais, temem perder o amor deles, deixar de ser considerado dentro da família.

No caso dessa faixa etária o apoio da família faz toda a diferença na maneira como o adolescente vai encarar o preconceito fora de casa.

O fato de adultos passarem a vida sem deixar isso muito claro para a família, vivendo no silêncio, prejudica mais a saúde mental?

Na pesquisa que fiz apenas 30% dos adultos se assumiram para a família. O resto se mantém no silêncio e as coisas ficam assim, embora já exista muita desconfiança dos pais e familiares quanto a orientação sexual do sujeito.

Não encontrei uma associação direta entre assumir ou não para a família e mais transtornos metais e sim uma associação entre o preconceito e o transtorno mental. Nada específico em relação à família, mas sim a preconceito de maneira geral.

Um dado importante detectado no seu estudo sobre adolescentes é a vergonha internalizada pelo sentimento do outro. Isso tende a perdurar muito na consciência do sujeito?

Pode perdurar e acompanhar o sujeito pela vida toda. Nesse sentido, o que observo na clínica, já no consultório, é que muitos homossexuais acabam fazendo escolhas de vida, de relacionamento e profissionais, por exemplo, aquém daquilo que poderiam escolher.

Como assim?

Aquém no sentido de, por exemplo, você tem um profissional muito bem qualificado mas que não se sente capaz. Ou uma pessoa com valores ótimos, muito interessante, com caráter muito preservado e que acaba sempre escolhendo relacionamentos com pessoas que vão transtornar a vida dela.

Em terapia, o que tenho acompanhado é quase que uma necessidade de reescrever a história de vida detectando que as escolhas de sujeito, quando foram feitas, estavam muito norteadas por essa homofobia internalizada.

Conseguem perceber a importância do movimento do orgulho gay para a vida dos homossexuais, ao longo das gerações?

Para os adultos, um grupo social político, nesse sentido, tem uma função muito positiva, principalmente se esse adulto não pode se revelar para família ou se ele se revelou e foi rejeitado.

Para os adolescentes, não, porque eles tem uma característica, na atualidade, de evitar qualquer rótulo. Entendem que o orgulho gay é tido como uma luta política de auto afirmação do homossexual muito benéfica para a auto estima, auto conceito, mas também olham por um outro lado, que é muito interessante, que é o quanto que o orgulho gay corre o risco de também ser um movimento que estigmatize o homossexual.

Eu acho isso brilhante por parte dos adolescentes, porque como eles não querem rótulos a ideia é de uma outra visão de mundo. Então, o orgulho gay é reconhecido como algo positivo, mas não com algo que eles se identifiquem.

Queria que explicasse melhor essa ideia da geração pós-gay.

Eles passam a olhar para o sujeito e para a identidade dele como algo múltiplo e não baseado na orientação sexual. A partir do final do século XIX e começo do século XX tivemos uma ênfase grande na sexualidade, pesquisas para a medicação. Aquilo que estava no poder da igreja foi para a ciência.

Então, acabava sendo algo muito marcante na identidade de uma pessoa se ela é hetero, homo, bi ou qualquer outra coisa. O que esses adolescentes parecem estar anunciando com uma geração pós-gay é que não priorizam a opção sexual como número um para identificar a identidade da pessoa. Eles olham para um amigo ou qualquer outra pessoa que conheçam, como portadora de uma identidade múltipla, não definida por uma característica majoritária.

Que intervenções na sociedade você entende que são necessárias para proteger o jovem homossexual?

Tem dois dispositivos que poderiam ser muito benéficos se fossem acionados e trabalhados no sentido de cuidar dessa população e prevenir ações homofóbicas. Primeiro, na parte da educação, trabalhar primeiramente a formação dos professores ou seja, a visão dos próprios educadores quanto a homossexualidade…

Não como naquele material do Ministério da Educação divulgado há cerca de um ano?

Sim, porque só o material não provoca questionamentos e, na verdade, a questão da diversidade sexual deve ser algo conversado, as pessoas tem preconceito porque vivemos numa sociedade majoritariamente heterossexual, seria natural mesmo que tivesse preconceito em relação às diferenças. Isso sempre vai existir. Mas daí teríamos que trabalhar com fatos muito bem estruturados e com profissionais competentes na educação.

O segundo dispositivo seria a formação de profissionais da saúde, trazer para dentro dos currículos dos cursos uma forma de prepará-los para atender de forma mais apurada pessoas com orientação homossexual.

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