AS MASSAS E DEUS

“Massa  sem  palavra  que  existe  para  todos  os  porta-vozes  sem  história. Admirável conjunção dos que nada têm a dizer e das massas que não falam. Nada que contém todos os discursos. Nada de histeria nem de fascismo potencial, mas simulação  por  precipitação  de  todos  os  referenciais  perdidos.  Caixa  preta  de todos  os  referenciais,  de  todos  os  sentidos  que  não  admitiu,  da  história impossível, dos  sistemas de  representação  inencontráveis, a massa é o que  resta quando se esqueceu tudo do social.
Quanto  à  impossibilidade  de  nela  se  fazer  circular  o  sentido,  o melhor exemplo é o de Deus. As massas conservaram dele somente a  imagem, nunca a Idéia.  Elas  jamais  foram  atingidas  pela  Idéia  de  Deus,  que  permaneceu  um assunto de padres, nem pelas angústias do pecado e da salvação pessoal. O que elas conservaram foi o fascínio dos mártires e dos santos, do juízo final, da dança dos mortos, foi o sortilégio, foi o espetáculo e o cerimonial da Igreja, a imanência do ritual – contra a transcendência da Idéia. Foram pagãs e permaneceram pagãs à sua  maneira,  jamais  freqüentadas  pela  Instância  Suprema,  mas  vivendo  das miudezas das imagens, da superstição e do diabo. Práticas degradadas em relação ao  compromisso  espiritual  da  fé?  Pode  ser.  Esta  é  a  sua  maneira,  através  da banalidade  dos  rituais  e  dos  simulacros  profanos,  de  minar  o  imperativo categórico da moral e da fé, o imperativo sublime do sentido, que elas repeliram. Não  porque  não  pudessem  alcançar  as  luzes  sublimes  da  religião:  elas  as ignoraram. Não recusam morrer por uma fé, por uma causa, por um ídolo. O que elas  recusam  é  a  transcendência,  é  a  interdição,  a diferença,  a  espera,  a  ascese, que  produzem  o  sublime  triunfo  da  religião.  Para  as massas,  o Reino  de Deus sempre esteve sobre a terra, na imanência pagã das imagens, no espetáculo que a Igreja  lhes  oferecia.  Desvio  fantástico  do  princípio  religioso.  As  massas absorveram a religião na prática sortílega e espetacular que adotaram.”

(Jean Baudrillard, À Sombra das Massas Silenciosas)

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