Psiquiatras italianos refletem sobre legado de Reich e aprofundam suas teses

Surrupiado do Blog do Favre:

21 de janeiro de 2012

Regina Schöpke – O Estado de S.Paulo

Se a vida é mesmo um “crivo no caos”, como afirma o filósofo Gilles Deleuze, pode-se dizer então que ela é uma espécie de luz persistente e pulsante que ora se acende, ora se apaga, ininterruptamente, na escuridão de um universo que tende sempre à dissolução. A vida, neste sentido, é resistência, é potência, é “pura zona de indeterminação”, como dizia outro filósofo, Henri Bergson, que tanto inspirou o médico e psiquiatra Wilhelm Reich (1897-1957) em sua busca pela compreensão dos processos vitais.

É verdade que Reich sentiu-se primeiramente atraído pela psicanálise, mas não demorou muito tempo para que as divergências entre ele e Freud se fizessem sentir. É assim que ocorre com todo pensador genial: ele sempre é devedor de algum outro grande pensador, mas dificilmente se submeterá a um sistema que não tenha nascido de suas próprias investigações e reflexões. Em outras palavras, Reich rompeu com o seu mestre, mas nem por isso deixou de reconhecer o seu mérito, sobretudo no que diz respeito à descoberta da energia sexual – noção que, posteriormente, Reich ampliará, mostrando como ela se insere num circuito maior, o da bioenergia ou energia da vida. Isto, de certa forma, inverte a questão freudiana. Não se trata de buscar a origem das doenças nos distúrbios da sexualidade, mas a própria sexualidade adoecida do homem é produto dos transtornos dessa energia vital.

De fato, Reich concorda com Nietzsche quando este afirma que “o homem é um animal adoecido”. Mas isso não pode ser entendido como uma defesa ingênua da “teoria do bom selvagem” de Rousseau. Trata-se, simplesmente, de uma constatação: a de que o homem tem sido violentamente impedido de pulsar, de sentir, de viver de um modo saudável suas emoções, seus sentimentos, sua sexualidade, sua natureza de um modo geral. A simples ideia de que isto é incompatível com os interesses da cultura e da sociedade mostra quanto a humanidade está entregue às ilusões que criou e aos tabus que a impedem de problematizar de modo maduro essas questões.

Reich, como era de se esperar, não foi plenamente compreendido em sua época e mesmo hoje ainda causa desconforto e desconfiança – o que se explica pela má interpretação de suas ideias, frequente até mesmo entre os que apreciam a sua obra. Afinal, não é incomum vermos a ideia reichiana de energia ser associada a todo tipo de misticismo ou mesmo ver a sua luta pela plenitude da vida humana ser confundida com uma apologia das perversões sexuais. Nada é mais impreciso do que supor um Reich devasso, até porque, de certo modo, ele sempre ligou a sexualidade plena e feliz muito mais ao amor do que à busca do puro prazer. Afinal, para ele, não se trata de uma busca desenfreada do prazer, mas de se chegar à plenitude real do prazer. Também aqui parece que Reich está em sintonia com Nietzsche quando este último afirma que “a orgia não é alegria, mas a ausência dela”.

Pois bem, é por esta e por outras razões que o livro Psicopatologia e Caráter, dos psiquiatras italianos Genovino Ferri e Giuseppe Cimini, parece-nos hoje tão essencial. Afinal, além de nos ajudar a esclarecer certos pontos cruciais da teoria reichiana, ele apresenta novas perspectivas de análise, tanto no que tange à formação do caráter dos indivíduos quanto à própria terapêutica reichiana. Sim, os neorreichianos Ferri e Cimini estão inclinados a levar ainda mais longe as reflexões reichianas, não descartando, por exemplo, a necessidade dos fármacos em certos casos. Que o corpo (ou a corporeidade) já tenha, desde Reich, entrado em cena no Setting Analítico, isto jamais significou uma preponderância do fisiológico sobre o psíquico, mas, sim, que existe uma inexorável unidade biopsíquica (o que, em filosofia, é chamado de “paralelismo psicofísico”). Isto quer dizer que o que é marca na psique é marca no corpo e vice-versa.

É seguindo essa perspectiva que Ferri e Cimini vão pensar a vida em uma visão “neguentrópica-sistêmica” (o que significa, como dissemos antes, que a vida resiste ao caos, que ela está em constante evolução e mudança, sempre se organizando e se reorganizando na busca de se perpetuar; é assim que ela traz um tempo diverso do tempo do mundo). Por conta disso, os eventos que marcam a vida de um indivíduo se iniciam já na fecundação, que representa, antes de qualquer outra coisa, o nascimento de um novo núcleo energético que eles chamam de “Si”.

É a partir deste primeiro florescimento que o “Si” começa a estabelecer relações e encontros sucessivos que determinarão seu coeficiente de energia, seu “quantum” de força (o seu “conatus” ou ímpeto de vida ou existência, para usar uma expressão de Espinosa – filósofo que compreendeu, como nenhum outro, a importância dos afetos e das relações como forma de potencialização ou despotencialização de um ser). É a partir daí que se originam os caracteres, que vão desde o escorregadio e assustado intrauterino até o confiante e alegre caráter genital (caracteres que não são fixos e imutáveis, apesar de serem persistentes). Em poucas palavras, como nos mostram os autores, as diferentes cargas energéticas do “Si” atuam como um fator essencial na produção dos modos de ser deste “Si” – que não pode ser pensado fora da relação com o “Outro de si”. Este “outro” ou “outros” são os nossos afetos, mas também o mundo que nos circunda e ao qual estamos intrinsecamente ligados. Sim, a vida é um sistema aberto (por isto mesmo precisa de trocas contínuas com o meio). “Tudo está em relação”, já dizia Espinosa.

De fato, Ferri e Cimini sabem bem o significado do conceito de relação. Daí porque eles entenderão a própria terapêutica a partir de um jogo no qual o caráter do terapeuta também se manifestará. Nisso eles rompem com a ideia clássica do observador-observado, como se estivéssemos diante de uma relação passiva. Resumindo: estamos falando de uma ciência da vida e não de uma lógica matemática e determinista. Não se trata mais de atingir a doença pelos seus efeitos, mas de entender que ela própria é resultado da maneira como cada um de nós sente e experimenta a própria existência.

REGINA SCHÖPKE É FILÓSOFA, MEDIEVALISTA, E AUTORA DE MATÉRIA EM MOVIMENTO, DICIONÁRIO FILOSÓFICO (MARTINS FONTES)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s