A CONSCIÊNCIA NEGRA COMO ANTÍTESE DA ESCRAVIDÃO PELA MORAL

Que a moral de rebanho é uma moral  de classe, isso muita gente já sabe. Mas entender como ela está impregnada nas relações sociais, e como ela sustenta o preconceito como forma de manter o atual estado de coisas, é mais difícil de se perceber.

Em pleno dia da consciência negra, descobre-se (já não se sabia?) que a velha classe média despreza e odeia a nova classe média. Nenhuma novidade. A escravatura, como prática legal, acabou, mas suas engrenagens, seu modus operandi, continuam por aí.

Fernandinho é filho da patroa. Certo dia, a empregada doméstica, diarista, não tendo outra alternativa, leva seu filho para o trabalho. Da mesma idade de Fernandinho, o menino desperta a curiosidade. Fernandinho logo procura a mãe, e pergunta: “Mãe, quem é aquele garoto?”. A mãe responde: “Não é ninguém. É o filho da empregada”.

A consciência é para sujeito o seu modo de ser. O outro é também consciência, ora como objeto, ora como referência de ser. Construo meu próprio olhar a partir do olhar do outro. Dos outros, que me cercam. É a partir daí que minhas fronteiras, minhas forças, limitações, são construídas.

Se anulo o outro enquanto outro, deixo automaticamente de ser eu, também. Literalmente, um não vive sem o outro. Como posso ser figura, sem um fundo? Fernandinho é consciência em expansão. Encontra outro. Este outro invade a sua consciência como um acontecimento, desperta interesse, faz de Fernandinho um ser desejante do mundo que não conhece. A mãe, carregada pela moral de classe, destila o clichê da sociedade do consumo: “Não é ninguém”. Elimina qualquer possibilidade de contato, de troca simbólica, afetiva ou o que o valha. Sem saber, ela – violentada em algum momento do seu existir – agora comete dupla violência. Contra o filho da empregada (mas este pode resistir, se aproveitar outras possibilidades no seu existir), e contra o próprio filho. Este, dificilmente escapará da morte-em-vida que é uma consciência padecida da discriminação.

Essa é, aliás, a característica principal da consciência padecida. Ela é morta. Um zumbi claudicante, caminhando pelo mundo e fazendo novas vítimas. A analogia é proposital. Nossa sociedade espetacular adora os mortos-vivos, não por acaso.

Consciência padecida, posto que laminada, impossibilitada constantemente por uma força coercitiva, que a impede de se manifestar e se ampliar de forma livre, de acordo com a sua vontade de potência. Vencida, finalmente a consciência morre, deixando de produzir, abandonando o movimento expansivo para adotar a repetição autômata dos clichês e lugares-comuns da moral de rebanho.

Da morte, só se espera a morte. Mesmo morta, padecida, esta é a consciência predominante no sujeito; não há outra. Por isso, quando encontra-se com o outro, e principalmente quando este outro conseguiu, nos seus percursos vivenciais, driblar a morte da consciência, sendo ainda pulsante e expansivo, esta consciência morta sente-se ameaçada. Quem pouco ou nada tem, teme perder até mesmo esse pouco ou nada.

Aí vem a violência, a discriminação, a homofobia, formas reativas de tentar aniquilar no plano físico aquilo que, no plano da consciência, já o aniquilou. O reativo é um derrotado por antecipação, e jamais alcança a vitória, mesmo que mate – literalmente – o seu oponente.

Isso porque a consciência é sempre consciência-mundo. Não se reduz às débeis e frágeis fronteiras do Eu, como os zumbis o fizeram acreditar. A consciência é cultura, e a cultura é sempre uma forma de resistência.

A cultura negra, principalmente, é indissociável da cultura ocidental. Não existiria, por exemplo, o Iluminismo, sem a presença da cultura negra na Europa. No Brasil, é praticamente impossível encontrar uma pessoa que não carregue, senão geneticamente, ao menos culturalmente, algum traço desta cultura. A assinatura do negro no mundo é imensurável, pujante, cheia de vida. Por isso incomoda o estado de coisas, resiste contra a escravização das consciências, concorre para a liberdade e para a vontade de potência.

A escravidão ainda está por aí. Escraviza-se o trabalho, o lazer, a consciência, em nome da moral de classe, e do modo de produção do capital. Ao contrário, a consciência negra jamais foi e jamais será escravizada, posto que é produção, é liberdade e vida. E é pela liberdade e pela vida que se conseguirá a verdadeira abolição: a da inteligência.

Valeu, Zumbi!

Anúncios

Uma resposta para “A CONSCIÊNCIA NEGRA COMO ANTÍTESE DA ESCRAVIDÃO PELA MORAL

  1. Eu estou na faculdade e presiso de idéias para um cartaz sobre a consciência negra,e queria saber se você poderia dar algunhas sugestões.
    obrigada pela atenção.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s