O MUNDO DESEJANTE DO TOXICODEPENDENTE

Se compararmos um rapaz com uma estória de toxicodependência com outro, de boa família, crescido em um ambiente distante do mundo da droga e, se o compararmos ainda com outro, de periferia ou de uma cidade pequena, que não é de boa família mas não se relaciona com a droga, notaremos, laicamente, uma riqueza de articulações do real muito mais aguçada, muito mais rica, no rapaz toxicodependente do que nos outros dois.

Há sede de viver e luta pela sobrevivência que o toxicodependente teve que articular com a droga, mas há também uma riqueza preexistente ao fato do tóxico: curiosidade, desejo, procura de um outro âmbito, não-codificação rígida, necessidades e buscas. Com certeza estrutura “caracterial-complexa” e, às vezes diriam, “deficitária-lacunosa-frágil”, mas estrutura ainda não institucionalizada, ainda não fechada no interior da pobreza de significados, de perspectivas, de intencionalidades, de carreiras. Por isso é um campo particularmente fértil. Não digo que a droga enriqueça, diria que a droga se encontra “naturalmente” com esta dilatação de campos de interesse, dos campos da curiosidade, dos campos do desejo complexos em muitos sujeitos.

O que fazer? É óbvio: ser mais sedutores que a droga, saber desencadear circuitos de ampliação não-químicos, concorrentes.

(Franco Rotelli, psiquiatra italiano, in: Onde Está o Senhor?, artigo publicado na revista SaúdeLoucura, número 3, Ed. Hucitec).

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