DO HUMOR AUTOCENSURADO E DA TORTURA TELEVISIVA

A palavra censura se refere, grosso modo, a toda e qualquer tentativa de cerceamento, limitação ou interrupção do movimento livre, seja ele físico, fisiológico, intelectual, social, etc. Como efeito do ato censor, tem-se a estupidez, a violência, e a persistência da incapacidade de apreensão e análise dos acontecimentos para além do trauma.

A palavra humor, grosso modo, refere-se a uma estado de ser, a uma condição de existência que é revelada pela forma como se reage aos estímulos externos. Culturalmente, o humor também pode ser compreendido como um ato, uma palavra que provoque uma alteração deste modo de ser. Quando se altera para um estado mais livre, gratificado e completo, tem-se um bom humor. Ao contrário, quando o estado é perturbado de forma a se deteriorar, degradar, decair, então temos o mau humor.

Daí, ser impossível que os CQC, Zorra Total, e a propaganda com a top Giselle Bundchen carreguem qualquer tipo de bom humor. Primeiro, porque trabalham com os clichês da moral de rebanho, refinados pela ordem normativa da sociedade de controle. Nada de liberdade, tudo a favor de um embotamento afeto-intelectivo que coloque o telespectador-consumidor num estado de insegurança existencial, levando-o a acreditar que precisa entrar na ordem do consumo para se sentir bem.

Um humor que censura, posto que oferece um mau produto ao paladar intelectivo do telespectador. Censura aqui, só aquela autoimposta pelos próprios humoristas, e aqueles que os assistem e simulam o gozo de uma festa onde só a ressaca é real. Fazer humor explorando os medos da classe média é, no mínimo, tortura, a que essa acede complacentemente, em quase toda a programação televisiva.

Daí a sinceridade da Globo ao afirmar que não faz humor, mas sim entretenimento. O mesmo vale para os CQC´s (não só Rafael Bastos, mas todos eles). É que para fazer humor, não se pode ser censurado. Vide Kafka, Saramago, entre muitos, que desfocam o real na literatura, para apresentá-lo como realmente é. O rei sem roupa diante da criança que ri. No caso dos humoristas sequelados, não o fazem por querer. É que a censura só pode reproduzir-se a si mesma, e nada mais. Estupidificados pela exposição à censura, só podem reproduzir o que aprenderam.

Porém, parte da esquerda – que curte ser torturada pelo humor decadente dos CQC´s, Zorras e tudo o mais – pretende retirar a golpes de foice estes programas do ar. Nada mais censor; nada mais evidenciador da censura. Não se deve extirpar. Ao contrário, sugerimos uma terapêutica que elimina o mal pela raiz.

Converse com seus amigos, amores, colegas, alunos, professores. Mostre o quanto desnecessário e nocivo é o contato com este tipo de agente patogênico. Ajude-os a compreender que os arrepios que percorrem o sistema nervoso periférico quando se assistem esses programas é de dor, e não de alegria. Mostre o quanto existe de censura (autocensura) em se ocupar tempo precioso do existir se violentando, se expondo ao rebotalho da moral de rebanho.

Quando isto acontecer, o programa deixará de existir, e teremos criado um mundo onde a tortura disseminada em cadeia de emissões rádio-televisivas não é mais necessário. De resto, é combater fogo com fogo. Nada engraçado, portanto.

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