O GOL VENDIDO

Na sociedade do consumo, os objetos não valem pelo seu valor de uso, ou de troca, nem mesmo pelo seu valor agregado de status social em si. O que interessa, para que se mantenha a relação de consumo, para que se esteja no arranjo, é que a série de objetos apenas pareça ser assim ou assado. Ou como diria o filósofo Baudrillard, da relação do ser humano com os objetos que compõem seus arredores, restou apenas a figuração como álibi.

A partir do momento em que interessa apenas essa composição falseadora, uma simulação do real, dá-se mais um passo adiante na expropriação do trabalho, da criação: a falseação do gozo.

Se antes o fruto do trabalho não pertencia mais àquele que empregava sua força de trabalho para produzi-lo, agora sequer o gozo, a sensação de completude advinda do ato de transformar e produzir pertencem ao trabalhador. Este, antes, era mal visto se estava alegre, se sentia-se bem com seu trabalho (mesmo o expropriado!); agora, é preciso estar feliz. Sua felicidade é produto imaterial da empresa, e seu sorriso aparece com o símbolo do copyright.

Assim, não estranhamos ao saber que, no futebol moderno, a comemoração dos gols, agora, é moeda de troca. Há quem dirá que sempre o foi, que até mesmo o Diamante Negro, Leônidas da Silva, chegou a comemorar gols fumando charuto ou fazendo alusão a produtos. Mas era outro contexto. Leônidas era a exceção, era a célula cancerígena no corpo futebolístico, que agora atinge a fase metastática.

Se a Globo ordena que se comemore assim, é assim que os jogadores comemoram, pelo prazer de aparecer, de fazer parte. Se a patrocinadora de um clube ordena que eles comemorem com gestos alusivos ao produto vendido, eles o fazem. Evidência inequívoca de que o ato do jogo, de que a busca pelo tento, e sua realização, não tem mais função alguma. A gratificação, melhor dizendo, o condicionamento (lembram do cachorro salivante do Pavlov?) está na telinha, em ser capturado e engolido pela lente da câmera. O gol fica para trás, e já não causa furor. O gesto equivale àquele que Baudrillard usa como ilustração do vazio das relações. O ator pornô, no meio da suruba, que pergunta à colega de trabalho: “o que você vai fazer mais tarde?”. O vazio do ato pressupõe o vazio da relação. Simulação, falseamento.

Nada de futebol, portanto. Mas a Globo e a patrocinadora do clube não sabem disso. São igualmente vítimas do crime perfeito. O de compor um painel vazio, desconectado do real, hiperreal. A ode ao banal. Vidro moído ou areia no café da manhã, tanto faz. Todos seguem com um sorriso nos lábios, diria o poeta. Nesta mesa, o capitalista e o trabalhador alienado fazem juntos sua refeição.

O gol real se manifesta em cada fibra, em cada músculo, em cada molécula do corpo. O sorriso de Maradona nos dois gols contra a Inglaterra, em 86 (e aí, a ironia: o gol de mão, falso pela regra do futebol, é aí mais real que os gols normatizados dos atacantes adestrados). A alegria do menino que afasta a miséria do mundo e se afirma como existente, como necessário, que dança e abraça a vida, na rua ou no campinho. O grito, o gozo. O futebol ainda existe, e está mais perto do que o torcedor imagina. Basta jogar uma bola no meio da criançada.

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