MIGRAÇÃO, POBREZA, GERAÇÃO E DESEJO: RESSONÂNCIAS DO GOVERNO LULA

Segundo estudo divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as migrações realizadas entre regiões, principalmente a corrida para o Sudeste, que marcou as décadas de 1960 a 1980, diminuiu. A tendência agora é uma migração dentro dos próprios estados, bem como a permanência ou o retorno aos estados de origem. No mesmo estudo, também foi identificado que na última década ocorreram mudanças nas correntes migratórias, em que Rio de Janeiro e São Paulo deixam de ser “importadores” e passam a “exportadores” de moradores, enquanto o Espírito Santo desponta como foco de atração de novos habitantes.

Para o pesquisador do IBGE Antônio Tadeu Ribeiro de Oliveira, um dos autores do artigo “O panorama dos deslocamentos populacionais no Brasil: Pnads e Censos demográficos, “A principal motivação para a migração é a busca por trabalho. Qualidade de vida e menos violência podem ser complementares. Dos anos 80 para cá, houve desconcentração da atividade econômica. O Nordeste passou a segurar população e atrair a migração de retorno. Pode-se dizer que o País hoje se desenvolve em quase todas as áreas. Com essa mudança no modelo de desenvolvimento, os imigrantes tendem a diminuir”.

O que foi festejado por muitos de modo xenofóbico, destacando um agradecimento possessivo ao metafísico Deus judaico-cristão, não pôde ser compreendido no “reino” da imanência, do desejo produtor e construtor de novas possibilidades de vida, isto é, na afirmação das produções n(d)o mundo social que resistem ao estado de coisas constituído onde o pobre é visto somente como o eterno explorado sem condições de crescimento, amor e desenvolvimento, fadado a um estado de sobrevivência.

Pois bem, a fala do pesquisador do IBGE, assim como os próprios resultados da pesquisa, aponta uma mudança onde o social, o político e o econômico tornam-se hibrido. Justamente no momento em que o governo Lula conseguiu movimentar uma relação recíproca entre desenvolvimento econômico, independência política e distribuição de renda. Não fosse apenas isso, esqueceríamos que no governo Lula o grande transformador da situação no Brasil foram os pobres.

Melhor dizendo, os pobres não foram de todo os responsáveis pelas transformações, mas pela primeira vez na história desse país eles foram percebidos como produtores de riqueza, como aqueles que também devem fazer parte do mundo do consumo. Não apenas do consumo como tara das relações no mercado, mas como consumidores de cultura, de lazer, de moradia, entre outras coisas, engendrando, deste modo, um estado onde a vida se apresenta como possibilidade nova e renovada, afastando o fantasma histórico do estado de sobrevivência perpetuado por muito tempo no Brasil.

Se os principais fatores da diminuição da imigração apontados pela pesquisa versam sobre o aumento de empregos em variados pontos das latitudes e longitudes brasileiras, isso significa dizer que o poder centralizado em algumas unidades federativas, seja ele comercial, industrial ou político, vem perdendo sua força, ao mesmo tempo em que abre, internamente no Brasil, um mercado que carrega consigo a genealogia de sua formação como local de multiplicidades, de sentidos variados, de conversação e negociações racionais, onde a linguagem (logos) torna-se comum a todos.

É claro que este mesmo mercado interno ainda está sujeitado aos ditames de uma política transcendente e representativa, o que acarreta vários problemas de ordem moral, uma vez que os consagrados políticos não efetuam uma análise sobre o mundo social e seus movimentos que se diferem entre sim, mas, ao contrário, executam suas vontades e liberdades individuais e as justificam na ordem do direito concebendo a realidade não como esta é, mas como eles gostariam que fossem, aqui lembrando o célebre Spinosa em sua crítica ácida aos homens que pensam fazer política quando somente agem moralmente.

Deste modo, podemos ainda acreditar materialmente em uma política compreendida como geração, a justaposição de um vinculo de reciprocidade entre as ações coletivas responsáveis pela produção do mundo social. A geração é produção e criação, desejo, construção da existência de modo autônomo e autêntico, isto é, produção de possibilidades materiais e concretas de mudanças intensivas no ser, sempre privilegiando a diferença como movimento de criação. Ontologia critica.

Compreendemos que um dos principais meios para se alcançar a geração é o trabalho. O trabalho é responsável pela produção do mundo social ao mesmo tempo em que é trabalho explorado. Ainda que seja próprio do processo do capital explorar o trabalho, com a finalidade de estabelecer a relação soberana, definidora de quem comanda e quem é sujeitado, o trabalho carrega consigo os desejos, vontades, sonhos e a liberdade dos trabalhadores responsáveis pela construção da história do mundo material e social.

 Como diz Antonio Negri:

 ”Não creio que os migrantes fujam somente da miséria; penso que eles busquem liberdade, saber e riqueza. O desejo é uma potência construtiva, e ela é tanto mais forte quanto mais está implantada na pobreza: a pobreza, de fato, não é simplesmente miséria, mas é a possibilidade de muitíssimas coisas, que o desejo indica e o trabalho produz. O migrante tem a dignidade de quem busca a verdade, a produção, a felicidade. E é essa força que rompe a capacidade inimiga do isolamento e da exploração e que retira, juntamente, ao suposto universalismo de Prometeu, qualquer nuança heróica e/ou teológica do comportamento dos pobres e dos subversivos. Quando muito, o prometeísmo dos pobres e dos migrantes é o sal da Terra, e o mundo é realmente modificado pelo nomadismo e pela mestiçagem”

Em uma imaginação necessária, imanente, pensamos em Lula agora: como o sapo barbudo deve está alegre, dando gargalhadas daqueles que sempre exploraram a miséria do pobre por acreditarem que estes eram somente miseráveis. Tolos! Nunca perceberam a beleza e a riqueza do pobre ser o sal da Terra.

Lula: a multiplicidade do sorriso

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