DEUS E OS FIÉIS DEMOCRATAS DA ALE/AM

O deputado Chico Preto (PP/AM), segundo o Blog da Floresta, sofreu um susto na cidade de Japurá, interior do Amazonas, onde caminhava com correligionários.

Diz o blog que um cabo condutor de alta tensão se desprendeu do poste, caindo próximo ao deputado, e a descarga elétrica matou carbonizado um de seus assessores locais. Ainda, que Chico teria voado rapidamente para sua casa, em Manaus, para “refletir e orar”.

Imaginamos a tristeza do eleitor japuraense, ao perceber que a democracia do parlamentar, suas convicções e crenças no sistema democrático representativo se esvaem na primeira provação. Senão, vejamos: por obra do homem, o poste e o cabo de alta tensão ali se encontravam. Por obra do homem, ele não deve ter recebido a manutenção adequada. Por obra do homem, ele caiu, feriu e matou o assessor. E justamente diante de um homem cuja função no reino dos homens é zelar, fiscalizar, e assegurar que as coisas dos homens produzam o Bem Comum, e que outros homens preparem armadilhas para si mesmos.

Chico, ao se recolher para agradecer a Deus pela sua vida, bem ao estilo “antes ele do que eu”, demonstra a ausência total do sentido democrático, e até mesmo do mais elementar senso de sua função política dentro do sistema representativo brasileiro. Ele analisa o acontecimento, à luz de seus (pré)conceitos, particulariza o fato, e metaforiza: joga a culpa em Deus, e à sorte o fato de estar vivo, e ao azar, o de quem passou embaixo do cabo.

Em nenhum momento, transparece na notícia, que o deputado, munido de seu senso democrático, analisou o evento particular, transcendendo a sua individualidade, e suspeitando de que a queda do cabo e a morte do assessor é efeito da omissão da atuação do poder público na cidade. Sequer tenha suspeitado, talvez, que outros cabos poderão estar sofrendo a ação do tempo, apenas esperando outro incauto passar. Que a questão não é moral ou teológica, mas política: o que fizeram a esta cidade, para que cabos de alta tensão caiam e matem?

E que, principalmente, é função dele, como cidadão, e depois, como deputado, materializar o fato como problema político, analisando suas causas e propondo soluções, ANTES que ele ocorra. A queda de um cabo de força não é a causa. Esta se encontra, na realidade, na omissão do poder público em conservar os bens pertencentes à coletividade.

Cabe ao eleitor, no entanto, na hora que os ungidos candidatos a reeleição, na ALE/AM, vierem cheios de bênçãos, santinhos e outros apetrechos da teologia da exclusão, ouvir a Deus – o Deus de todos, não o deus-propriedade dos pastores, padres e escolhidos – , e perguntar: que parlamentares são esses para quem Deus é apenas um refúgio para os próprios medos e inseguranças? Onde a crença no Criador é apenas um álibi para escamotear e trapacear a própria existência?

Deus, certamente, nada tem com isso.

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