Para Amorim, Brasil precisa desempenhar papel para ajudar países árabes

Do Portal Rede Brasil Atual

Ex-chanceler afirma que aceitação da diplomacia brasileira e fortalecimento das instituições democráticas podem fornecer experiências valiosas para os movimentos no norte da África e no Oriente Médio

Por: João Peres, Rede Brasil Atual

Para Amorim, Brasil precisa desempenhar papel para ajudar países árabes Após levantes populares como o ocorrido no Egito, experiência brasileira pode ajudar na promoção da democracia (Foto: Dylan Martinez/Reuters – arquivo)

São Paulo – O ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, acredita que o Brasil deve ter um papel ativo na transição dos países árabes para a democracia. A confiabilidade da Justiça Eleitoral brasileira é apontada por ele como exemplo daquilo que pode ser aproveitado em países como Egito, Tunísia e Bahrein, que vivem crises políticas movidas por protestos populares. Além disso, o país não pode se furtar a dar sua contribuição à região, principalmente diante do fato de que algumas das nações pediram esse tipo de intervenção.

“O Brasil nunca vai chegar lá e dizer como é que é. Mas se houver interesse por parte deles, há uma série de mecanismos que pesam na construção da democracia, embora ela se faça somente quando há interesse do povo”, aponta o ex-chanceler. Ele critica ainda a visão “restrita” de críticos da política do Itamaraty desde 2003.

Aos 68 anos, Amorim brinca com o fim de sua gestão à frente do Itamaraty afirmando que tem agora um grande tempo para o ócio. Não faltam, porém, convites para seminários, debates e viagens. Embora afirme ter se preparado bastante para o dia em que teria de mudar-se de Brasília, admite que não é fácil deixar para trás um círculo de convivência formado ao longo de muito tempo para recolher-se ao apartamento onde mora no Rio de Janeiro.

Durante quase uma hora, Amorim doou seu ócio – criativo – para a reportagem de Rede Brasil Atual em um café de São Paulo. Na última semana, na primeira parte publicada da conversa, o ex-chanceler revelou não ter se surpreendido com a posição dos Estados Unidos de rejeitar o acordo obtido pelo Brasil em torno do programa nuclear iraniano, ainda que fossem contemplados exatamente os pontos desejados pela Casa Branca.

Amorim falou ainda sobre as relações com os países da América do Sul, o golpe de Estado em Honduras e outras questões de sua gestão. Confira novos trechos da conversa com Amorim.

RBA – Durante os oito anos de sua gestão, o Itamaraty passou a ouvir mais a sociedade?

Ouvi agradecimentos até da Rebrip (Rede Brasileira pela Integração dos Povos), que não era uma organização fácil. Não que eles tenham problemas, mas tinham grandes ressentimentos. Não vou nem falar da parte ambiental porque aí a participação de ONGs é fortíssima, e já era um pouco antes, não vou dizer que tenha sido tudo em nosso governo.

Na parte comercial, era comum aceitar empresários em delegações brasileiras, mas quando, antes, houve representantes dos sindicatos e da sociedade civil participando (em viagens oficiais) podendo estar presente em todas as reuniões?

RBA – Com a América do Sul, o Brasil melhorou sua capacidade de ouvir os demais países?

Passou a ser uma prática, sim, mas acho que nesse campo a gente tem que fazer mais. Há uma contradição. Quando negociamos a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), no início estava tudo esfacelado, cada um tinha uma opinião, mas depois conseguimos conjugar as posições dos países, fazer uma coisa coordenada. Quando negociamos com a União Europeia, idem, mas quando negociamos com a OMC (Organização Mundial do Comércio) cada um teve uma posição. Deveríamos negociar com voz única lá, coisa que não acontece.

Hoje em dia, há muito mais respeito, muito mais interesse. Quando houve esse episódio que poderia desembocar em golpe de Estado no Equador, veja a rapidez com que houve reunião de presidentes na Unasul (União de Nações Sul-americanas). Fiquei até contente quando nos criticaram pelo fato de que o presidente Lula não poderia ir. E eu estava no Haiti. Então, a mídia, como não perde ocasião de nos criticar, nos criticou. Achei bom porque estavam nos criticando exatamente por algo que achavam que a gente exagerava, que achavam que a gente dava muita atenção à América do Sul. Agora estavam achando que a gente dava pouca. Claro que a gente não deu pouca atenção, devo ter sido um dos primeiros a ligar para o chanceler do Equador para ver o que precisavam. No caso da Bolívia, que esteve à beira de uma guerra civil, a OEA (Organização dos Estados Americanos) não podia agir, então quem mais poderia agir? Foi a Unasul.

RBA – A Unasul se tornou confiável nestes primeiros anos de existência?

No caso entre Colômbia e Venezuela, foi fundamental para afastar as áreas de atrito. A ameaça de que os Estados Unidos construiriam na Colômbia uma grande base militar, que poderia irradiar (sua influência) para toda a região enfraqueceu muito, se não desapareceu. Acho que estamos caminhando para uma situação em que a guerra na América do Sul é uma coisa impensável, como na Europa. Graças a Deus a gente não tem um histórico muito grande de guerras. Há não muitos anos, houve uma entre Equador e Peru, houve uma agressão no bombardeio do acampamento das Farc (Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia) pelo Equador. E confesso que temi que pudesse haver (guerra) porque a relação entre Colômbia e Venezuela estava muito ruim. De repente, começa a mandar tropa para a fronteira e a coisa sai do controle, sai um tiro errado, morre um sujeito e pronto. Essas coisas não são totalmente controláveis.

A única coisa triste da Unasul é que Brasil tomou a iniciativa e vai ser provavelmente o último país a ratificar. E é por questões de política partidária, tenho certeza. Não posso falar em nome dele, mas nas conversas que tive com o presidente Fernando Henrique Cardoso – me dou com ele socialmente – sei que ele é a favor. Espero que seja ratificado rapidamente.

RBA – Em relação a golpes de Estado na América Latina, o caso de Honduras mostra que não estamos livres deles.

Bem, aí já estamos distinguindo América do Sul de América Latina. Não quero chamar de área de influência do Brasil, mas a área de influência da Unasul se irradia menos à medida que vai mais longe. Espero que não se repitam fatos como os de Honduras, mas são parte da história. Cada um tem que viver sua história, viver seus dramas, superá-los.

Tínhamos uma cooperação muito boa que vinha de antes do governo (Manuel) Zelaya, eram governos conservadores mas que estavam dentro do marco constitucional. Agora, um governo que nasce de um golpe de Estado, em que um militar tira o presidente com um revólver na cabeça, não pode ser aceito com facilidade. Poderia haver uma negociação ao menos para o Zelaya retornar ao país, porque é simbólico. Ter uma eleição sob estado de sítio é algo que tira a legitimidade.

RBA – Efetivamente, o que o Brasil pode apresentar para o desfecho da crise dos países árabes?

É muito complexo porque a crise árabe só tem um elemento comum, que é uma reação ao status quo, mas os elementos que entram em cada país são muito diferentes. No Egito, o movimento inicial foi sobretudo democrático. No Bahrein, não deixa de ser democrático, mas tem um forte componente de uma maioria (xiita e empobrecida) contra uma minoria (sunita e rica). Na Líbia, não sei exatamente, é uma coisa muito mesclada. Os desfechos não serão idênticos, de qualquer maneira.

Estive recentemente no Catar e na Síria e antes disso sempre tive contato com lideranças e acadêmicos. O que senti é muito interesse em saber como a experiência do Brasil, inclusive de transição para a democracia, pode ser útil para a transição democrática dos países árabes.

O Brasil nunca vai chegar lá e dizer como é que é. Mas se houver interesse por parte deles, há uma série de mecanismos que pesam na construção da democracia, embora ela se faça somente quando há interesse do povo. Veja o exemplo da Justiça eleitoral brasileira. Hoje ninguém contesta os resultados das eleições, por mínima que seja a diferença. Há uma confiabilidade absoluta do processo eleitoral.

RBA – Há abertura para uma atuação brasileira naquela região?

Sinto esse desejo por parte deles. Não estou falando de algo abstrato, foram eles que falaram. O Brasil tem um  papel a desempenhar, não pode se furtar disso. O Brasil tem uma capacidade a ter soluções criativas. Não é só o governo Lula, não, sinceramente. Acho que nosso governo foi mais ousado graças à firmeza do presidente, mas há também uma característica do país, uma capacidade de fazer propostas, de ter confiança, de trabalhar.

Veja por exemplo que tem gente que diz que a postura do Brasil é anti-Israel. A gente vai a Israel e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu ao presidente Lula e a mim que ajudássemos a intermediar a situação com a Síria. E os sírios também queriam. Quantos países no mundo podem se dar a esse trabalho sem impor? São poucos. Não vou dizer que somos o único, mas não são muitos. Quantos países podem receber o primeiro-ministro de Israel, o presidente do Irã e o presidente da Autoridade Palestina no mesmo mês?

Acho que melhora nosso prestígio internacional até para aqueles que têm uma visão muito mesquinha, imediatista, economicista do papel da diplomacia; intelectuais de visão restrita. Também é bom porque, participando dos grandes foros, você consegue colocar o tema dos negócios na mesa. Claro que não fazemos pensando nisso, isso não é central. Mas numa conversa em que você está tratando com os Estados Unidos sobre Oriente Médio, pode também lembrar de algum assunto comercial pendente.

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