OBAMA E A CRISE DA SOBERANIA

“No pensamento e na análise política ainda não cortaram a cabeça do rei” (Foucault)

Quando a democracia é percebida somente como um efeito do reino do direito ela perde em muito sua força produtiva. Obama, e tantos outros pelo mundo, parecem perceber a democracia exatamente desta maneira, uma vez que determinam a soberania dos países somente naquilo que diz respeito a uma ordenação jurídica constituída. Desse modo, Obama consegue vim ao Brasil e ser simpático e discursar de um modo que suas palavras não são evocadas pelo real, mas por uma abstração própria de uma democracia em crise quase em todo mundo.

Antes de Obama dizer que “Nenhuma nação poderá se impor sobre outra nação”, ele próprio já enunciava sua posição favorável a uma ofensiva ocidental contra a Líbia. Podemos concordar, neste momento, com a ajuda do Ocidente aos insurgentes líbios, mas sempre com os olhos bem abertos, pois é uma ajuda carregada de interesses políticos e econômicos.

Obama ao defender a soberania dos países parece não lembrar que os Estados Unidos é um exemplo histórico de desrespeito a independência dos Estados-nação. Basta lembrarmos como Bush atropelou, com força de rolo compressor, a autoridade supranacional que cuida dos direitos da soberania de todos os países da ONU para invadir militarmente o Iraque.

Todavia, a contradição maior nas falas de Obama, onde transparece a crise da soberania moderna, é quando ele faz uma série de elogios e “promessas” para o Brasil. Como bem foi notado por alguns jornalistas e economistas brasileiros, Obama nada pode prometer, pois quem aprova decisões no governo dos Estados Unidos é o congresso que tem maioria republicana.

A contradição é latente também quando percebemos que ao mesmo tempo em que Obama defende a soberania e a democracia em seu atual estado de coisas, esquece de explicar como os principais agentes responsáveis por sua eleição, são os menos representados no congresso norte-americano, como os negros, por exemplo.

Um dos problemas que salta dessas contradições é o fato de a democracia representativa priorizar um campo teórico onde a lei e a soberania é privilegiada. Foucault já nos alertava sobre a necessidade de encontrarmos uma linha de fuga que nos liberasse dessa condição para pensar o poder.

Desse modo, Obama parece não perceber que somente através da soberania, da representatividade e do corpo jurídico que constituem a democracia moderna, não é possível podermos tê-la como “a maior parceira do progresso humano”, visto que essa democracia, sem dúvida, “oferece oportunidades para que todos os cidadãos sejam tratados com respeito”, mas não oferece as condições para que este respeito seja vivenciado na práxis aplicada aos acontecimentos da existência.

Exemplo disso é o modo pelo qual os oprimidos pelos poderes estabelecidos se rebelam: fora da legalidade. Em contrapartida, o poder estabelecido faz uso de sua violência legalizada que pode usar contra seus súditos e contra outras nações soberanas.

O que ocorre no mundo árabe, desde janeiro se iniciando pela Tunísia e se alastrando em rede, demonstra a necessidade que uma legião de pessoas encontra em defender a sociedade do poder estabelecido. Nesse sentido, Obama, com sua bela oratória, está correto: “Hoje, vemos uma revolução, baseada na Tunísia, por anseio pela dignidade humana. Homens, mulheres, dando-se o direito de determinar o próprio futuro”. Exatamente o que contraria a organização representativa dos Estados soberanos modernos.

Muito aplaudido por uma platéia seleta no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Obama, evocando a democracia no Brasil, talvez não tenha percebido o quanto nos ensinou uma nova lição que a cada dia a América Latina vem reforçando: lembrar da democracia brasileira a partir do governo de Lula, para exaltar a democracia no mundo é perceber o quanto se torna impossível, atualmente, movimentar os fluxos democráticos apartados de uma autonomia política, econômica e de um desenvolvimento social.

Obama tem realmente razão ao dizer que “Onde a luz da liberdade estiver acesa, o mundo estará mais iluminado, este é o exemplo do Brasil”. Mas esqueceu de dizer que o grande responsável por este grande exemplo foi um governo que confiou nas pessoas e em suas atividades existenciais que vão além de qualquer corpo político jurídico soberano, pois são produtores da ontologia social.

Trata-se, portanto, de percebermos a produção política como produção da própria vida social. Trata-se de expor a cabeça do rei presa a representação jurídica ao corte e começarmos a perceber o quanto somos capazes de criar novos modos de existência á medida que resistimos com ações contra as ações do poder estabelecido.

Enquanto isso vai se configurando pouco a pouco, Obama ressalta a soberania ao mesmo tempo em que demonstra sua crise.

 

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