COMENTARISTA DO POLI VÊ DISCRIMINAÇÃO EM ‘ARTISTA’ DO LIXO

O burguês não se dá bem com seus dejetos. No modo de produção capitalista, aquilo que não é vendável não tem valor, embora também seja um produto das relações de produção.

Tudo o que é resultado da exploração do trabalho e dos recursos, é lixo. Sinônimo de imprestável, sem valor. Inclusive no plano moral. Aquele que está fora, à margem do ‘sistema’, é lixo.

Por isso o lixo incomoda, tanto mais no seu aspecto revelador, quanto no fisiológico. O lixo evidencia o caráter decrépito da existência que criamos para nós mesmos. Os animais não produzem lixo. Apenas os humanos o fazem.

Talvez por isso uma arte que tente ocultar esse aspecto ‘selvagem’ do lixo (o de nos confrontar com o abismo que construímos entre nós e a Vida) seja tão incensada pela sociedade burguesa. Por isso, Marcel Duchamp, cujo olhar não estava embotado pela moral, escolheu um mictório, não para duvidar da força da arte, mas para evidenciar aquilo que nos recusamos a ver.

Por isso, por esta visão embotada da arte, é que não nos espanta observações como a que fez o artista Vik Muniz, no programa do auto elogio globístico, Video Show. É que o lixo de Muniz é domesticado, habilmente desviado de sua função social para criar cenas-clichê do imaginário do romantismo. Nada mais adequado.

Quem nos conta esta história é o nosso comentarista d`além-mar, Anderson Pinheiro:

Vivo em Portugal e acabo de ver uma entrevista do tal artista plástico VIK MUNIZ no programa VIDEO SHOW,exibido em 23/02/2011, em que ele solta a seguinte pérola: “os catadores de lixo podiam estar se prostituindo ou metidos no tráfico e no entanto estão aqui trabalhando e blá,blá,blá….”

Sou trabalhador do sexo, prostituto, garoto de programa, puta ou seja lá como queiram chamar, e me senti profundamente ofendido com tal declaração. Não me sinto menos digno do que um catador de lixo por ter escolhido a prostituição como profissão, acho lamentável que uma pessoa que tenha acesso à mídia tenha uma opinião tão preconceituosa e até mesmo ofensiva para com respeito a imensa gente de BEM que optou por outro caminho que não “catar lixo”.

Não me sinto menos digno que um catador de lixo, ou qualquer outro género de profissão discriminada pela sociedade, acho que o tal artista plástico deveria rever seus valores e preconceitos antes de ir à televisão desmerecer algum grupo de profissionais, ou se na opinião dele não formos profissionais, que nos respeite pela nossa opção de vida como cidadãos de bem, e não nos compare as pessoas que estão metidas no tráfico.

Penso em levar as declarações as entidades ligadas aos direitos e defesa dos trabalhadores do sexo, a fim de pedir uma retratação do tal “artista plástico”.

Anderson Pinheiro, em comentário.

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2 Respostas para “COMENTARISTA DO POLI VÊ DISCRIMINAÇÃO EM ‘ARTISTA’ DO LIXO

  1. A prostituição a qual me referia na entrevista era a prostituição por falta de alternativas. A prostituição por opção profissional, eu defendo sem ter como passar nenhum julgamento moral ou ético. No contexto completo da minha afirmativa, o foco era social e não moral e essa afirmativa era oriunda da boca de varios catadores. Como todo ser humano, possuo preconceitos, dos quais continuamente tento me livrar, mas posso admitir com certeza, que nenhum deles tem a ver com sexo de forma alguma.
    Me desculpe, Anderson, se o que disse, te ofendeu de alguma forma; estava falando de lixo, e das escolhas, muito conservadoras, dos catadores. Jamais imaginaria minha resposta afetando um contexto tão diverso do assunto da entrevista.

    Vik Muniz

    • Companheiro Vik,

      Sem bronca. Tua resposta exprime a suavidade de quem não combina preconceito com insegurança. É que as palavras, no plano das relações do capital, ao mesmo tempo ocultam e exibem mais do que podemos perceber, muitas vezes. É aí que precisamos reinventar a língua, a fala, a condição dos objetos no mundo.

      Abraços!

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