Amir Khair fala sobre juros e cortes no orçamento do governo Dilma

Por: Redação da Rede Brasil Atual

Publicado em 02/03/2011, 17:30

Última atualização às 17:58

Colibri: O governo brasileiro está definindo alguns cortes no orçamento, e hoje acontece a reunião do Copom, que provavelmente vai definir um novo aumento da taxa Selic. Bom dia, professor Amir Khair.

Amir: Bom dia, Colibri e ouvintes.

Colibri: Bom, antes de falar da taxa Selic, da reunião do Copom, vamos conversar sobre o orçamento. Estamos acompanhando os comentários econômicos, que falam em corte real de cerca de R$ 13,1 bi para os ministérios. Eu queria que o senhor explicasse o que representam esses cortes no orçamento.

Amir: Eu acho engraçada essa situação toda, parece que a gente está em um planeta fora da realidade. Pelo seguinte, esse corte de R$  50 bilhões que o pessoal está discutindo se vai realizar ou não, você sabe quanto isso representa da demanda?

Colibri: Não tenho ideia…

Amir: Isso representa apenas 1,2% da demanda, ou seja, isso faz cosquinhas na demanda. Quer dizer, não é ai que essa questão de desaquecer a economia para você conseguir reduzir a inflação vai dar certo. Se você quiser atacar essa questão de excesso de demanda, seria em outras duas áreas que não essa.

Essa como você sabe, mexer na despesa do governo, é difícil porque o orçamento é muito amarrado. O governo fez um esforço tremendo e aí fez um abate de R$ 50 bilhões. Uma parte desse abate são emendas parlamentares, cerca de R$ 18 bilhões, que foram simplesmente eliminadas. Não vão ser satisfeitas.

Tem partes relativas à melhoria de gestão. No setor público você tem possibilidade de melhorar a gestão, independente do mérito de R$ 50 bi ou o número que quer que seja.

O fato de você ter controles mais apurados, e isso a cada ano vai melhorando, porque vai integrando cadastros, permite que você reduza os valores que são desviados de suas finalidades públicas.

Então o que interessa é que você, se quiser realmente reduzir a demanda (e ai eu tenho dúvidas se a demanda é a causa da inflação, depois a gente pode conversar mais sobre isso), a única maneira mais efetiva é atingir o consumo das famílias que representa o grosso da demanda. Porque a demanda é composta pela soma dos gastos do governo, o consumo das famílias e dos investimentos. O consumo do governo, essas despesas do governo representam 20%. Os investimentos estão por volta de 5% a 6%, e o consumo das famílias está por ordem de 70¨% a 75%.

Então, onde você poderia se quiser reduzir a demanda é principalmente no consumo das famílias. Ora, o consumo das famílias está ligado a dois fatores. Um fator é o crescimento da massa salarial.

Se você tem crescimento econômico, começa a trazer mais trabalhadores para o mercado de trabalho com carteira assinada, isso dá uma garantia ao trabalhador de que ele pode tomar empréstimo e consequentemente consumir mais. Quando ele está na informalidade, o risco de perder o emprego é maior. Então, essa parte relativa ao crescimento econômico que é uma política de governo, o governo não quer dar marcha à ré, isso o próprio ministro Mantega falou isso com clareza, não deve mexer na expansão natural da massa salarial.

Agora, o que se pode tomar cuidado é com os empréstimos. Os empréstimos vinham crescendo num ritmo muito elevado e ele é muito perigoso porque às vezes as pessoas não conseguem controlar seu orçamento, acabam ficando inadimplentes e ai piora a situação das famílias. Então, o que foi feito em seis de dezembro do ano passado, foram medidas chamadas “macro prudenciais” de encarecer o crédito para vendas com prazos superiores há dois anos e recolheu um pouco mais de dinheiro dos bancos, quer dizer, os bancos passaram a recolher mais dinheiro ao Banco Central, quer dizer, diminuir a quantidade de dinheiro que esses bancos têm, e esse recolhimento foi da ordem de 66 bilhões de reais, com isso você aumentou a taxa de juros para esse tipo de financiamento de prazo mais longo e automaticamente diminuiu a oferta de crédito. Então, essas medidas sim têm um efeito no consumo das famílias. Agora, você pensar que reduzir despesas do governo em R$ 50 bi, que representa 1,2% da demanda, é acreditar em Papai Noel.

Colibri: Professor, pra gente entender direitinho, já estão anunciando, não sei se é verdade, que vai diminuir alguns investimentos na área social. Investimentos do Minha Casa, Minha Vida, Bolsa Família?

Amir: O que ocorre é o seguinte, o Bolsa Família não vai ser mexido, inclusive a presidenta Dilma anunciou uma correção nos valores do programa. O Bolsa Família é intocável, é um programa que deu certo, que continuará dando certo, e é um programa de justiça para as pessoas que tem necessidades maiores do que o conjunto da sociedade. Agora a questão do Minha Casa, Minha Vida, que está tendo uma divulgação muito grande, que tem um corte de 5 bilhões, etc. tem uma razão técnica muito simples. Quando o orçamento foi feito supunha-se que o programa na segunda fase, que é o Minha Casa, Minha Vida 2, começasse a funcionar a partir de janeiro deste ano. Acontece que ele não foi aprovado pela Câmara, e a previsão disso é por volta do mês de maio. Então você tem um atraso muito grande e não vai conseguir realizar efetivamente aquilo que estava previsto para 12 meses. Você vai fazer isso provavelmente em oito ou sete meses. É uma questão técnica. Não que você vai deixar de fazer, mesmo porque ele não leva apenas um ano, ele vai até 2014.

Colibri: De longo prazo? Investimento importante do programa habitacional brasileiro.

Amir: Agora, viu Colibri, foi dito pela ministra e pelo próprio ministro Mantega, que programas sociais ficarão intocados, os principais programas sociais ficarão totalmente intocados da mesma forma que o PAC.

Colibri: Tá certo, o senhor falou da ministra, é a Miriam Belchior que é do Planejamento, ela falou junto com o Guido Mantega explicando a questão.

Amir: É, a responsável pela área, e ela inclusive é também responsável pela área de pessoal, onde aí sim vão ter reduções de despesas, vai postergar contratações de funcionários, vai postergar concursos públicos e provavelmente vai dar reajustes salariais mais moderados, uma vez que o governo Lula nos últimos anos procurou dar reajustes posicionando o salário dos servidores públicos federais em níveis razoáveis para não ter que sacrificar nos primeiros anos o novo governo com reajustes acima da inflação.

Colibri: Vai acontecer a mesma coisa que aconteceu com o salário mínimo nos gastos do governo, é isso?

Amir: É, o salário mínimo a situação é clara, a presidente está simplesmente seguindo o acordo feito com as centrais. Isso por um lado, embora as centrais não gostassem, eu acho que para elas é uma segurança, porque se de fato não for derrubado no Supremo aquilo que foi aprovado na Câmara e no Senado, essa regra de corrigir o salário mínimo pela inflação mais o Produto Interno Bruto de dois anos atrás, se não for derrubado, é uma garantia para os trabalhadores. O ano que vem, ao invés de ter um reajuste pequeno, você vai ter um reajuste da inflação que teve esse ano mais 7,5% ou 8%.

Colibri: Vai dar uns R$ 620.

Amir: É, por aí.

Colibri: Agora professor, pra gente falar do tema de hoje também, que é a taxa Selic e a reunião do Copom. O que vai acontecer hoje? Qual a previsão que o senhor tem em relação a isso? Que afeta também o bolso do trabalhador essa história da taxa de juros?

Amir: O que ocorre é o seguinte. O governo, o Brasil, ele tem uma taxa Selic, que ele pensa que controla a inflação com ela. Eu acho o maior engano isso. A inflação não é controlada pela Selic. No mundo todo você trabalha com uma taxa Selic da ordem da inflação, do mesmo nível da inflação, que seria da ordem, aqui no caso do Brasil, de 5,5% a 6%. Nós estamos com uma Selic de 11,25%, possivelmente com essa reunião do Copom vai aumentar para 11,75%, mais meio ponto. Com essa de 11,25% nós já estamos disparados no primeiro lugar da mais alta taxa de juros do mundo, o segundo lugar é a Austrália, ela fica a 1/3 da brasileira. Quer dizer, você com uma taxa dessas, você cria problemas, inclusive fiscais, seríssimos, porque esse ano vai se gastar mais de 200 bilhões de reais, quatro vezes esse corte, com os juros. Porque é demais, é exagerada essa taxa, e fora isso você vai gastar muito com carregamento das reservas internacionais, porque as reservas internacionais, elas custam a Selic a cada mês e elas são aplicadas em títulos do tesouro americano que rendem por volta de 1,5%, então se paga 11,25% e se recupera 1,5%. Isso, o ano passado deu uma perda fiscal ao país da ordem de 50 bilhões de reais, quer dizer, esse ano vai ser mais porque nós vamos estar com uma reserva maior porque está crescendo e a Selic este ano, em média, vai ser maior que a Selic do ano passado.

Colibri: Agora, professor, uma coisa que eu não entendo, o senhor sempre explica aqui para os ouvintes… Está todo mundo sabendo que essa taxa é absurda, o governo sabe disso também. E por que eles mantêm? A gente estava na expectativa de que iam cortar, eu lembro que o senhor fez uma análise, no fim do ano passado, começo desse ano, com a expectativa de diminuição, mas ela está aumentado. E por que isso acontece afinal?

Amir: Acontece porque existe uma relação simbiótica entre o Banco Central e o sistema financeiro, é como se fossem irmãos. Quem manda no Banco Central efetivamente é o sistema financeiro. Quando o pessoal discute a questão de autonomia do Banco Central, o pessoal pensa que essa autonomia é só em relação ao governo federal e aos políticos. De fato, o governo federal e os políticos não conseguem fazer nada em relação ao Banco Central. Agora, o mercado financeiro pauta as decisões do Banco Central, e o Banco Central se reúne informalmente com os banqueiros antes das suas reuniões, períodos do ano para trocas de informações, o que o mercado financeiro acha a respeito da taxa de juros, está na Selic etc. A prova de uma dessas situações em que o Banco Central é submisso ao mercado financeiro, é que ele recolhe as informações sobre inflação, sobre previsão da nova taxa Selic, apenas de cem instituições financeiras. Por que ele não recolhe essa informação da academia? Por que ele recolhe essa informação de institutos sérios que trabalham com a inflação, como o Instituto Getúlio Vargas, como a Fipe, como o Dieese? Por que ele não procura também ouvir as lideranças e o pessoal técnico da economia real? Ou seja, você querer saber a opinião do mercado financeiro sobre a Selic é a mesma coisa que você botar raposa para tomar conta de galinheiro, porque o mercado financeiro ganha e lucra tanto mais quanto mais alta for a Selic, então não tem sentido essa postura do Banco Central de continuar se baseando no boletim Focus, que é esse boletim que sai toda segunda-feira onde o mercado financeiro dá as suas avaliações sobre Selic, sobre inflação etc. O Banco Central, para ser realmente um banco que ajuda o país e que realmente dê resultados concretos, deve mudar completamente essa dependência e exercer de fato uma autonomia operacional que ele não exerce.

Colibri: Aí tem que ter uma decisão do governo central, da Dilma Rousseff, para que isso mude, para que o Banco Central não seja mais submisso ao mercado financeiro. Aí o buraco é mais embaixo, professor.

Amir: Muito mais, e aí é uma decisão da presidenta, sim.

Colibri: Obrigado professor Amir Khair.

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