NO TRABALHO AFETIVO ATENDA SORRINDO: VOCÊ ESTÁ SENDO EXPLORADO PELA Mc DONALD’s

Com o título “McDonald´s: Maus tratos e superexploração”, o jornal, impresso, Brasil de fato traz uma “reportagem sobre a superexploração e maus tratos que sofrem os jovens e adolescentes na maior rede fastfood do mundo”.

Em alguns depoimentos de jovens trabalhadores atendentes da rede de fastfood referida, o jornal em sua versão virtual, nos direciona a um fenômeno social contemporâneo que é a exploração do trabalho afetivo. Este faz parte do que podemos chamar de trabalho imaterial.

TRABALHO AFETIVO: UM DOS ASPECTOS DO TRABALHO IMATERIAL

Neste novo tipo de trabalho a produção, a reprodução e distribuição não se limitam mais somente a materialidade de objetos ou mercadorias concretas, mas a produção, reprodução e distribuição de comunicação, linguangens, informações e conhecimento. É óbvio que o trabalho imaterial não significa que a materialidade necessária ao trabalho, como sua contextualização histórica e a atividade conjugada de nossos corpos e nossos cérebros, torne-se obsoletos.

Trata-se antes de compreender qual é o produto deste tipo de trabalho. Seu produto é sua própria imaterialidade, pois, agora nesta nova configuração do mundo do trabalho, não é apenas as mercadorias que refletem as atividades laborais, mas cria novas relações pessoais, produz conhecimento, engendra símbolos, compartilha linguagens, desenvolve novas formas de comunicação e atua sobre a própria produção da vida social em suas múltiplas facetas.

Esta nova concepção do trabalho levanta alguns problemas de ordem econômica. Como sua estrutura se caracteriza pelo aquilo que alguns economistas classificam como pós-fordismo, sua organização se diferencia da disciplina da fábrica tanto no controle das atividades dos operários como nas formas de instalação, permanência e distribuição do espaço-temporal.

Torna-se característico do pós-fordismo atividades flexíveis, pois não há uma única tarefa que domine o mercado pós-fordista, mas várias; móveis, pois os trabalhadores não permanecem por muito tempo no mesmo emprego; precário, pois não há contratos que assegurem a estabilidade do emprego.

Neste sentido, há uma série de discussões a respeito do trabalho imaterial ou pós-fordista que declinam para a opinião de que ele solapa os direitos conquistados dos trabalhadores, bem como aqueles que o defendem, faze-o por motivações políticas. Assim é a critica do sociólogo Ricardo Antunes.

Contudo, algo que, indubitavelmente, surge com as mudanças das atividades laborais no capitalismo é a forma de acumulação do capital e os modos pelos quais o capitalismo continua sua empreitada de guerra em busca de saciar sua sede de lucro. Como diz David Harvey, há uma “acumulação flexível” que

“é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional” (Condição Pós-Moderna).

Podemos então compreender duas formas fundamentais deste trabalho, segundo Michel Hardt e Antonio Negri no livro “Multidão: guerra e democracia na era do Império”. De acordo com esses autores o trabalho imaterial tem uma primeira forma que é a intelectual ou lingüística. “Esse tipo de trabalho imaterial produz idéias, símbolos, códigos, textos, formas lingüísticas, imagens e outros produtos do gênero”.

A segunda forma é “o trabalho afetivo”. Este “é o trabalho que produz ou manipula afetos como a sensação de bem-estar, tranqüilidade, satisfação, excitação ou paixão. Podemos identificar o trabalho afetivo, por exemplo, no trabalho de assessores jurídicos, comissários de bordo e atendentes de lanchonete (serviço com sorriso)”.

TRABALHO AFETIVO: A EXPLORAÇÃO COM UM SORRISO ESTAMPADO

O trabalho imaterial é marcado por uma forte produção biopolítica. Isto significa que este tipo de trabalho não apenas tem como efeito um produto que é sua imaterialidade, mas que ele produz, reproduz e distribui a própria vida social, portanto, produz subjetividades. Se o valor em Marx é caracterizado pelo tempo de trabalho presente em cada mercadoria, nas atividades do trabalho imaterial esta mensuração já não determina o valor do trabalho.

Agora que a própria vida é produzida através do trabalho, nos vários cantos do mundo de formas flexíveis, móveis e muitas vezes precárias, o valor é a cooperação, a riqueza social criada, o conhecimento criado pelo conhecimento, as múltiplas singularidades que se movimentam como elementos constitutivos da multidão que preserva as diferenças diferentes.

Contudo, não se trata de entender essas singularidades como individualidades que possuindo uma identidade fixa possam se diferenciar dos outros por oposição, hierarquia, representação ou se assemelhar através de analogias, classificações ou imagens refletidas do senso comum. Ao contrário, estas singularidades são a produção das práticas de si que impedem que o sujeito seja apenas o produto de um todo definido alheio à sua vontade.

Portanto, o valor no trabalho imaterial é o Comum. E o Comum atravessa todas as fases da produção imaterial, pois nossa comunicação, nossas imagens, nossa linguagem, nossos afetos são comungados por todos; a inteligência é coletiva. Deste modo, enquanto no trabalho material, prioritariamente, a exploração se dá pela expropriação do tempo excedente de trabalho do trabalhador que trabalha tempo a mais do que o necessário para somar seu salário, ficando este tempo a mais para o patrão, como forma de lucro (mais-valia), no trabalho imaterial o que é expropriado é a própria produção Comum da vida social.

Mas sabemos que o capital não se apropria de tudo do Comum. Vejamos um exemplo bastante evidente, justamente, nas redes de fastfood, em especial na Mc Donald’s. Tornou-se algo natural nessas empresas investir na personalidade e comportamento “pró-social” de seus funcionários. Eles devem ser educados, práticos, discretos, aceitarem desafios, metas, ter um traquejo social que os aproxime cada vez mais dos clientes, mas sem perderem a compostura e a certeza de que estão ali para servir.

Tudo isso coloca o funcionário, afetivamente, manipulado por seus superiores. Daí compreendermos que o capital mais do que acumulação também se baseia em uma relação entre os que comandam e os que obedecem. Estes funcionários devem ter suas afetividades moduladas para entrarem nessa relação de dominação como comandados. Suas afetividades domesticadas refletem uma consciência do estilo da metafísica cartesiana, ou seja, surgem não a partir de práticas que construam a personalidade, o comportamento e etc., do sujeito a partir de si mesmo, mas sim a partir do cogitan que corresponde a um eu soberano maior do que qualquer outro, individual, pensante, comandante.

Vejamos então o caso do sorriso. Todos os atendentes de lanchonete (mas também de vários outros locais como parques temáticos, entre outros) devem oferecer um serviço com um sorriso estampado no rosto. Este sorriso é treinado, marcado, calculado e determinado. Quando falamos que o capital não captura por completo o comum é porque o sorriso não pode ser por completo capturado pelo capital. Os fluxos de desejo que criam o sorriso, o que me leva a estampar o sorriso para “melhor” servir, não pode ser capturado.

Talvez não aja nada mais Comum que o sorriso. Todos sorrimos. Mas não se trata de quantidade. Mas de intensidade: nossos sorrisos surgem como produção, reprodução, distribuição de afetos, engendramentos, criações, repetições de tudo aquilo que comungamos juntos na vida social. O sorriso é social, tanto que sempre está junto no chamamento da construção do mundo social. O sorriso é biopolítico.

Mas eis que na Mac Donald’s o sorriso surge como um afeto manipulado e como uma forma de exploração, pois, o sorriso deve continuar estampado mesmo que:

“Uma vez eu estava com uma bandeja cheia de lanches prontos para serem entregues e escorreguei. Quando ia caindo no chão, meu coordenador viu, segurou a bandeja, me deixou cair e disse: ‘primeiro o rendimento, depois o funcionário’”, conta Kelly, que trabalhou na rede de restaurantes fast food McDonald´s por cinco meses.

“Lá você não pode ficar parado, se sentar leva bronca”, relata Lúcio, de 16 anos, que há 4 meses trabalha em uma das lojas da rede na cidade de São Paulo. “Você não tem tempo nem para beber água direito”, completa José, de 17 anos. “Uma vez eu queimei a mão, falei para a fiscal e ela disse para eu continuar trabalhando”, lembra o adolescente. Maria, de 16 anos, ainda afirma que, apesar da intensa jornada de trabalho nos restaurantes, recebe apenas R$ 2,38 por hora trabalhada.”

“Os relatos acima retratam o dia-a-dia dos funcionários do McDonald´s. Assédio moral, falta de comunicação de acidentes de trabalho, ausência de condições mínimas de conforto para os trabalhadores, extensão da jornada de trabalho além do permitido por lei e fornecimento de alimentação inadequada são algumas das irregularidades apontadas por trabalhadores da maior rede de fast food do mundo.”.

Nada disso é colocado quando o bom e querido “palhaço” da Mc Donald’s nos sorri na TV mostrando os brinquedos como brindes em cada compra, nem quando a coca-cola nos diz para sermos felizes, nem quando…

Mesmo, sendo mais do que evidente a exploração no trabalho biopolítico, compreendemos que a biopolítica também pode ser a produção de novas subjetividades que podem ser reproduzidas e distribuídas onde a vida social seja inteiramente confiada ao Comum. Mas isso se trata de outro texto.

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