A MANAUS QUE É A CARA DE SEU GOVERNANTE

De toda manifestação de discriminação, pode-se depreender uma série de informações. A primeira delas, a mais óbvia, é a de que a discriminação é um juízo de valor. Que parte, não de um exame crítico, mas de uma repetição: a sentença discriminatória é, portanto, não o resultado de um movimento intelectivo produtivo, mas o reflexo de uma imagem estereotipada. Nada de trabalho aqui.

Assim, a consciência cuja prática no mundo se caracteriza pela discriminação é, via de regra, uma consciência atrofiada, subutilizada. Daquele tipo que é produto de uma sociedade permeada por enunciados discriminatórios, ela própria patológica. Para fazer a interpretação do mundo (dar a volta em si, como diria Foucault), é preciso compreender e analisar os enunciados que compõem a existência cotidiana, identificar seus nexos causais, e produzir outros dizeres, outras causas, outro movimento.

O caso de Amazonino, prefeito de Manaus (sub judice), ao proferir, nesta semana, duas frases com forte teor discriminatório, evidencia a patologia do existir, do próprio prefeito, que não fica reduzida à sua individualidade, mas percorre todo o social, e é sintoma da patologia da sociedade do consumo.

Primeiro, ao desejar a morte da moradora que “invadiu” a encosta, Amazonino expressa o ódio a si mesmo. Tendo ocupado os cargos maiores do executivo municipal e estadual nos últimos 35 anos, direta ou indiretamente, Amazonino é um dos grandes responsáveis pelo crescimento desordenado da cidade, e pela proliferação da miséria social. Tomado pelo ódio ao confrontar a moradora, Amazonino, na realidade, confronta a si mesmo. “Colherás aquilo que plantou”. “Cuidado com o que desejas”. A Manaus que causa hoje ojeriza ao prefeito é o seu reflexo no espelho. Manaus está refletida no rosto, no olhar de Amazonino. A passividade, a reatividade, o ressentimento, a dor de uma cidade inviável, pois que ausente do mínimo necessário para um convívio social saudável. A cidade que Amazonino vê e gere é a imagem dele próprio. E não há nada mais doloroso para um homem do que conviver com seus fantasmas materializados. E os dele são muitos. Mas não teríamos aí nada com isso, não fosse ele o prefeito.

Segundo, ao proferir a frase pejorativa em relação à origem da moradora. “De onde você é?”. “Do Pará”. “Então pronto. Tá explicado”. O que realmente se explica na frase é a aridez intelectual de um governante incapaz de fazer a leitura das enunciações microfascistas que querem se fazer dominantes no cenário cotidiano. Mas não apenas dele. O ódio dos nazistas aos judeus (assim como o ódio dos israelenses ao povo palestino) também se manifesta no humor decadente. Nas “brincadeiras”. Em Manaus, já houve registro de homicídio envolvendo a “brincadeira” de classificar os paraenses como pessoas inferiores. Discriminar, atribuir valor social negativo, criminalizar, banalizar, violentar, estigmatizar. A miséria social, a dor disseminada, o abismo econômico servem de berçário para a violência, para a discriminação, para o ódio. Toda violência é produto da ignorância e da interdição. Isto se deu, em algum momento, na Alemanha economicamente esfacelada pela primeira guerra. O desespero e a ausência de qualquer perspectiva de produção de existência deram lugar à interdição, e esta, à proliferação de um discurso de segregação. A má consciência, diria Nietzsche, n´A Genealogia da Moral. O ódio expresso como reatividade. O discurso da segregação como justificativa para a morte. “Então morra, morra”, afirmou Amazonino. A Manaus nauseada de si, esgotada pela miséria social, pela falta de perspectiva, pela exploração quase absoluta da produção de subjetividade, precisa inventar um inimigo para justificar seu fracasso.

Esta é a Manaus que quer se fazer predominar na fala do prefeito sub judice, e no silêncio da mídia domesticada, e da intelectualidade epistemologicamente reduzida (aquela que se incomoda com o barulho democrático da Kombi do Zé). Pois a violência como efeito da interdição não se manifesta apenas no dizer, mas também no calar. Quantos jornalistas, quantos intelectuais, universitários e homens bons concordaram silenciosamente com o prefeito?

Felizmente, nem só da Manaus que é reflexo de Amazonino (e seus derivados) vive o amazonense. Aquele que não precisa do orgulho vendido pelo marketing governista, aquele que não precisa da muleta existencial da expiação do outro, este se fará prevalecer. Esta Manaus que Amazonino não poderá jamais conhecer, mas que existe no olhar da criança que brinca com o colega, sem perguntar onde este nasceu. Do pai que trabalha e sonha por dias melhores para ele e para todos. Do paraense, maranhense, parintinense, eirunepeense, que vem a esta terra, construir a Manaus desejante, comum-unidade, Bem Comum, independente e organicamente pulsante. Daquele que confia na sua inteligência e afetividade, e faz transbordar em si a potência ativa do conviver numa síntese disjuntiva onde o combustível da alegria é a diversidade.

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Uma resposta para “A MANAUS QUE É A CARA DE SEU GOVERNANTE

  1. Essa vai para o meu Facebook: Amazonino e seu objeto a-mazonas! (isso renderia uma bela análise lacaniana :)
    Ótimo escrito, Peterson;)

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