Revolta árabe: Oriente Médio não terá paz sem democracia

“democracia para todos e não apenas no nosso país. Aí poderemos ter um mundo mais justo, com ética e prosperidade”.

Da Agência Carta Maior

Em entrevista à Carta Maior, Mohamed Habib, professor da Unicamp e vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe), defende que protestos no Egito e em outros árabes trazem um recado muito importante para os líderes dos EUA, Israel e Europa: só haverá paz e prosperidade no Oriente Médio com democracia e qualidade de vida. “Se Israel for inteligente, se for governada por pessoas inteligentes, tem que perceber que acordos firmados com ditadores não se sustentam”, afirma.

Marco Aurélio Weissheimer

“Se Israel for inteligente, se for governada por pessoas inteligentes, tem que perceber que acordos firmados com ditadores não se sustentam. É melhor para Israel viver cercado por países democráticos do que por ditaduras supostamente amigas. É muito mais justo e muito mais duradouro também”. A opinião é do vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe) e professor da Unicamp, Mohamed Habib, que, em entrevista à Carta Maior, analisa as causas e possíveis consequências dos levantes populares no Egito e em outros países árabes. Para ele, o principal combustível dos protestos no Egito foram as péssimas condições de vida da maioria da população – mais de 40% vivendo abaixo da linha da pobreza.

O que está acontecendo agora, defende ainda, traz um recado muito importante para os líderes dos EUA, Israel e Europa: só haverá paz e prosperidade no Oriente Médio com democracia e qualidade de vida.

Carta Maior: Qual sua avaliação sobre os recentes acontecimentos no Egito e seus possíveis desdobramentos?

Mohamed Habib: O que aconteceu nas últimas semanas no Egito acabou escrevendo uma nova página na história do Oriente Médio. A queda do presidente Mubarak abre caminho para a democratização da região. As ondas de protestos que estamos vendo agora podem se propagar para outros países de modo mais ou menos pacífico e em ritmos diferenciados. Isso vai depender, em grande parte, da qualidade de vida da população de cada país. Quanto pior for essa qualidade de vida, mais rápida pode ser essa propagação.

O que ocorreu no Egito mostra que as demandas sociais falam muito mais alto do que as questões políticas e ideológicas. O que fez com milhões de pessoas fossem para às ruas não foi o fato de o país ter um ditador há 30 anos no poder, mas sim as condições de vida da maioria da população. A paciência acabou, principalmente entre os estudantes e jovens universitários que não encontram uma perspectiva de futuro.

Carta Maior: Quais são hoje as condições de vida da maioria do povo egípcio?

Mohamed Habib: O Egito tem hoje mais de 40% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza. Ou seja, pessoas vivendo com menos de dois dólares por dia. Esse problema agravou-se muito nos últimos anos. Há quatro ou cinco décadas, uma libra egípcia valia cerca de 4 dólares. Hoje, um dólar compra seis, sete libras. Houve uma desvalorização assustadora da moeda egípcia. Em tempos passados, o Egito não tinha muitos ricos, mas também não havia miseráveis. Hoje, além dos mais de 40% vivendo abaixo da linha da pobreza, temos alguns grandes bilionários, cuja riqueza foi adquirida de modo ilícito por meio da apropriação do poder por um grupo privado bastante pequeno. Esse grupo reúne, entre outros, a família de Mubarak, alguns generais e empresários que fundaram o Partido Nacional como uma fachada. Eles se apropriaram da riqueza do país.

O modelo econômico vigente nestes últimos anos é o neoliberal, com suas práticas de economia aberta. É um capitalismo mais selvagem do que o praticando na América Latina, com muita corrupção. O empobrecimento que atingiu o país é resultado direto da aplicação desse modelo. Um modelo acompanhado de uma ditadura com bem mais do que 30 anos de vida. Com Sadat, é bom lembrar, foram outros 11 anos e Mubarak era vice dele.

Carta Maior: Como, na sua avaliação, o Egito pode superar esse quadro de pobreza e desigualdade?

Mohamed Habib: Estamos falando de um país que tem um grande peso econômico e muitos recursos para sustentar o seu povo. O Egito tem o Canal de Suez, que liga o Ocidente ao Oriente, que é uma grande fonte de recursos. Tem ainda muito petróleo e gás natural. A atividade turística é fantástica, a maior do Oriente Médio. O país apresenta ainda uma agricultura de qualidade e algumas empresas que sobreviveram a toda essa deterioração. Ou seja, é um país que tem recursos e riquezas. Não é uma tribo africana perdida no meio da selva, como o preconceito de alguns quer fazer acreditar. Nas últimas décadas, milhares de egípcios qualificados deixaram o país. Se regressarem ao Egito, poderão ajudar a reerguer o país.

Carta Maior: O senhor enxerga, portanto, uma boa perspectiva de futuro para o país?

Mohamed Habib: Quando olhamos para os 19 dias de levante popular, iniciado em 25 de janeiro, podemos constatar que foi uma revolta pacífica. O povo saiu pacificamente às ruas, não houve homens bomba ou ataques às instituições. Pelo contrário, quem saiu às ruas sofreu com os ataques das forças paramilitares de Mubarak.

O futuro desse movimento dependerá muito das negociações com o Conselho Superior das Forças Armadas. As demandas apresentadas a este conselho mostram um levante popular muito consciente: banir o atual corpo de ministros; formação de uma nova Constituição a partir de um grupo de intelectuais independentes que assumiria o compromisso de não disputar as eleições de setembro; formação do Conselho Superior de governo com quatro civis e um militar que conduziria o país até as eleições de setembro; dissolução do parlamento atual que perdeu sua legitimidade com a renúncia de Mubarak; banir o Estado de Emergência que vigora desde 1971; libertação de todos os presos políticos; liberdade de criação de partidos políticos; liberdade para os meios de comunicação e acesso à informação; movimento sindical livre; fechamento dos tribunais militares e revogação das sentenças.

Essa é a agenda. Essas propostas, repito, mostram a consciência do movimento que foi para as ruas. O povo egípcio vive há cerca de 40 anos sob Estado de Emergência, que concentra enormes poderes nas mãos do presidente da República, com um Parlamento fantoche e corrupto. O que deve ser discutido agora é a cronologia para a implementação dessas medidas.

Carta Maior: Na sua opinião, a Irmandade Muçulmana é favorita para vencer as eleições de setembro?

Mohamed Habib: Não. A Irmandade Muçulmana não teria hoje nem 5% do Parlamento em um processo de eleições livres e abertas. Essa organização surgiu nos anos de 1920, cabe lembrar, com a intenção de libertar o país do domínio inglês. Esse processo foi concluído em 1954. Mesmo naquela época, quando era fortíssima, não reivindicou o poder. O Egito não é um país religioso e a Irmandade não é um grupo terrorista. Isso foi um fantasma criado por Mubarak e pelos EUA. Aliás o nome correto da organização é Fraternidade Muçulmana. O mundo está vendo agora um lado do Oriente Médio que a grande mídia não exibia. O padrão até aqui foi mostrar o árabe como terrorista.

A história dos EUA ajuda a entender isso. Primeiro foram os índios norteamericanos que foram mostrados como uma subespécie. O projeto de expansão territorial para o Oeste foi acompanhado de uma campanha política de lavagem cerebral. Fomos criados vendo faroestes e batendo palmas para os “mocinhos” que eram os brancos. Depois, o projeto expansionista virou-se para o Sul e os vilões da vez passaram a ser os mexicanos. Depois foram os comunistas. E agora são os árabes.

Carta Maior: A relação do Egito com Israel pode sofrer alguma mudança, na sua avaliação, a partir da queda de Mubarak?

Mohamed Habib: Se Israel for inteligente, se for governada por pessoas inteligentes, tem que perceber que acordos firmados com ditadores não se sustentam. É melhor para Israel viver cercado por países democráticos do que por ditaduras supostamente amigas. É muito mais justo e muito mais duradouro também. Os dirigentes de Israel, dos Estados Unidos e da Europa precisam estar atentos a estes detalhes. Um ditador amigo e corrupto não é sinônimo de paz e prosperidade. Há chances muito melhores para paz se países democráticos estiverem sentados à mesa de negociações.

Minha esperança é que essa nova página que está sendo escrita no Oriente Médio coloque o Estado de Israel e o mundo árabe em melhores condições para negociar e buscar a paz e a prosperidade na região, para construir um Oriente Médio estável e desenvolvido. Na situação atual, com países árabes governados por ditadores, não temos um solo fértil para cultivar a paz.

Carta Maior: Os atuais governos de Israel não parecem muito animados com essa ideia…

Mohamed Habib: Chega uma hora em que a incoerência começa a ter efeitos negativos. Os EUA são um país democrático. Mas, na sua política externa, não aplicam os mesmos conceitos que pregam em sua democracia interna. Essa incoerência acaba desmoralizando o seu discurso frente aos demais países. No caso da revolta no Egito, demoraram muito para abrir a boca e quando abriram foi para apoiar a indicação como vice do chefe de serviço de inteligência de Mubarak durante 18 anos, amigo da CIA e do Mossad. Acharam que os egípcios eram tão burros e ignorantes que aceitariam isso. Mas acabaram se surpreendendo com a reação do povo egípcio. Resultado: os Estados Unidos acabaram se queimando politicamente. Quando o mundo ficou sabendo de tudo isso, os EUA se desmoralizaram. Esse episódio mostra que, para o mundo viver em paz, deve-se buscar a coerência em primeiro lugar: democracia para todos e não apenas no nosso país. Aí poderemos ter um mundo mais justo, com ética e prosperidade.

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Uma resposta para “Revolta árabe: Oriente Médio não terá paz sem democracia

  1. Os processos de democracia são diversificados e refletem a vida política, social e cultural de cada nação. As democracias baseiam-se em princípios fundamentais e não em práticas uniformes, pois, não existe modelo autêntico, forma perfeita, plena ou exemplar de Democracia no mundo; e, nem existe modelo único que sirva para todas as regiões e todos os países.
    Todas as nações do mundo livre, devem encontrar sua própria forma de expressão, a conquistar sua própria liberdade e a desbravar seu próprio caminho. O povo é soberano para decidir seu próprio destino e construir o processo de democracia e liberdade, conforme seus ideais de desenvolvimento ou realidades sociais, culturais, políticas e econômicas.
    Não se pode defender a tirania imperialista em relação ao mundo livre – ou mesmo defender qualquer forma de autoritarismo – porém, os povos devem livres, soberanos e independentes, de qualquer força ou poder imperialista; devem estabelecer as bases e metas para lutar constantemente pela construção de um processo de democracia e liberdade; conforme seus ideais de desenvolvimento.
    Os imperialistas arrasam países inteiros, jogando suas populações na miséria ao promoverem sangrenta ocupação e destruição. Do mesmo modo, estabelecerem ditaduras títeres, que assassinam centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes; além da assolação econômica e social e, tudo isso, simplesmente para atender aos interesses dos monopólios do capital.
    Os imperialistas comandam genocídios por todo o mundo livre; endividam as nações livres, compram seus políticos e governos fantoches; além de apoiarem estados títeres para realizarem política de desestabilização, discórdia e desentendimentos regionais, ou atos subversivos violentos e intimidadores a serviço do insidioso sistema imperial.
    Pois, é somente cabível aos povos nativos de um território ou nação, formar opinião ou juízo crítico sobre o exercício ou desempenho de seu governo, e seja qual for a forma constituída de governo.
    E, da mesma forma, é somente cabível aos povos nativos de uma nação livre, soberana e independente, derrocarem dos poderes políticos os condutores indesejáveis que julgarem ser intendentes déspotas, demagogos, corruptos, vigaristas, oportunistas ou aproveitadores; e, tudo isso, deve ser feito sem a criminosa ingerência externa de qualquer força ou poder imperialista.

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