A TV GLOBO E O EXCEPCIONALISMO DOS EUSTADOS UNIDOS – O CASO DA COBERTURA DOS PROTESTOS NO EGITO

Cada vez mais a TV Globo demonstra o quanto a imparcialidade não faz parte de seus critérios jornalísticos. Contudo, podemos compreender o quanto a definição de imparcialidade também se mostra negativa aos vários tipos de jornalismo, quando entendido como fronteira delimitada por limites abstratos surgidos de representações opostas: o jornal é de esquerda por que defende a classe trabalhadora, mas usa os mesmos dispositivos da direita para expor suas críticas, como a exploração da miséria ou o abuso a integridade material e imaterial das pessoas. Deste modo, a imparcialidade, querendo-se como a vontade de defender ou falar por aqueles mais necessitados, é completamente subsumida pela representação do representante (o telejornal, neste caso) que faz da informação, da comunicação e do conhecimento usado para mediar estas duas últimas, uma unidade a ser empurrada ao telespectador, compreendido como unidade representada.

No caso das informações sobre os protestos que vem ocorrendo no Egito, elas são noticiadas pelo Jornal Nacional, não apenas de modo a fazer com que o telejornal tenha o poder sobre os fatos e, assim, os represente a outrem. Mais do que isso, o JN segue a repetição mecânica da recognição: o telejornal mencionado efetua um exercício que concorda com uma compreensão tida como modelo sobre os fatos ocorridos, ou seja, suas notícias nada apresentam de novo ou de estimulante sobre os fatos, mas apenas se encarregam de confirmar o senso comum em informações que podem ser vistas em vários outros veículos de comunicação (que repetem o mesmo exercício) dando ao telespectador a falsa sensação de que a verdade impera na combinação de suas imagens morais com seus discursos vazios.

Neste caso, o JN passa a ser o defensor do excepcionalismo dos Estados Unidos. É a posição dos Estados Unidos que deve ser encarada como correta e a que merece ser noticiada. Neste sentido, é salutar que as falas dos apresentadores do JN sobre as mortes e os feridos nos protestos do Egito correspondam, logo em seguida, as falas que definem os protestos como violentos e as de que evidenciam o fato de que o Egito continua na atual situação, por conta dos protestos. Se saber é saber que se sabe, sabemos que os Estados Unidos mantém e ajuda regimes ditatoriais no Oriente através de dinheiro e armas, justamente com medo de que o Oriente possa viver como protagonista de suas próprias experiências políticas, econômicas e culturais.

Isto está ligado a idéia de que os Estados Unidos, uma espécie tardia de superpotência, ainda se deve manter como o grande fomentador  global dos direitos humanos, da democracia, da ética e, principalmente nos últimos acontecimentos, como um Estado-nação que está acima do império das leis e do direito internacional, pois cabe aos Estados Unidos decidir quais são as nações que merecem ser regidas por estas leis e por este direito, a saber, aquelas que negam o estado de subordinação do Estado norte-americano.

O JN não escolhe a imparcialidade ao noticiar os fatos e, assim, evidencia suas preferências. Prefere ter como base o excepcionalismo dos Estados Unidos (o que já demostra não ter amesma força eficaz de antes). Quem então poderia acreditar que seu formato de telejornal estivesse agindo como uma disciplina cívica, preocupada em formar cidadãos? Muito menos de que o JN alguma vez fez de suas notícias uma ação que nos forçaria a pensar o diferente, justamente para banirmos de nossa formação como cidadão o que já foi posto como banalidade sem desconfiança?

Daí a necessidade de repensarmos o conceito de informação, ou o de percebermos que já temos informações de mais, mas ainda nos falta criar informação.

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