ONDE ESTÃO OS INIMIGOS?

 

O rosto de Mubarak continua a encher os muitos cartazes de protesto empunhados no Cairo (Foto: Asmaa Waguih/Reuters)

A grande onda de protestos que vem ocorrendo nas cidades do Cairo, Alexandria, entre outras, marcam um acontecimento que ultrapassa qualquer tentativa de análise política que queira somente se localizar no papel do Estado e em suas instâncias legais. Se o próprio Estado do Egito teve que fazer uso de sua “autoridade legal” (Weber) para tentar exercer o domínio através da violência, tendo não nas características específicas do indivíduo do soldado e do policial esse domínio, mas em suas funções desempenhadas, pois aí reside a expressão do “monopólio de violência do Estado” (Hardt/Negri), notícias nos chegam dizendo que “Na praça Tahir mantêm-se os protestos e a dúvida sobre qual será a actuação do Exército nas próximas horas. Ouve-se “Longa vida ao Exército”. Ouve-se também “Não saímos, não saímos”. Para o engenheiro ouvido pela Reuters os militares estão ali “para proteger Mubarak”, mas também não faltam imagens de manifestantes a cumprimentar soldados ou porem-lhe no colo as suas crianças (Público PT).

Portanto, o exercito em si não é um inimigo. Poderíamos acreditar que o grande inimigo é o Estado. Contudo, isso também seria fácil de mais, por mais que o Estado, por excelência, tenha a predominância da violência legitima a seu inteiro dispor (Weber e Lenin). Os protestos vão formandos redes de vizinhanças, agenciamentos, fluxos intensivos que carregam sonhos e desejos que, de modo algum, circunscreve-se somente no interesse de por um fim a ditadura de 31 anos do Presidente Hosni Mubarak e seus pares. Para além dessa exigência importante, acreditamos que há a necessidade do Egito viver livremente como protagonista de sua própria política subjetiva. Trata-se então de produção de subjetividade, de reprodução de novos modos de subjetividade, onde o sujeito possa inventar a si mesmo, acreditando em sua capacidade de governar a si próprio. Ética da resistência. Recusa e resistência às formas de assujeitamento que atualmente são globais.

Globais sim. Entretanto, tomemos cuidado para não crermos que tudo possa está reduzido a força e a influência, algum tempo em constante diluição, dos Estados Unidos. “O antiamericanismo é um estado perigoso, uma ideologia que mistifica os dados da análise e cobre as responsabilidades do capital coletivo. Precisamos afastá-lo de nós (…) (Negri)”. Não podemos confundir o povo norte-americano com os States. Este está inserido na lógica do capital como qualquer outro país. Talvez se trate, antes, de compreender que a geografia do domínio, atualmente, não conta mais com um centro hegemônico privilegiado, mas, ao contrário, são relações de soberania, persistentes, que determinam quem deve comandar e quem deve ser comandado que impera na guerra de polícia pós-moderna. Uma guerra para o controle. Podemos ver umas das estratégias dessa nova guerra, a qual são recriadas continuamente no intuito de conservar a miséria e a marginalização, na criação de fronteiras “virtuais” na falsa defesa dos direitos humanos que acaba se resumindo a um selecionado de inimigos comum, não dos Estados Unidos apenas, mas da lógica do mercado e da relação de soberania imposta pelo capitalismo.

Daí a resistência ser assimétrica. Daí a América do Sul e a América Latina estarem demonstrando que o Estado, apesar de tudo, quando não subordinado as curas milagrosas, mas muito caras a população de qualquer país, injetadas pelo neoliberalismo, pode ser o início de uma mudança real. Isto quando essa mudança vem acompanhada da constituição comum da multidão. Mas é na subversão dos modelos de sujeição impostos onde a resistência movimenta-se. Se, como escreveu Edward W. Said, o Ocidente inventou o Oriente, com o objetivo de fazer deste último uma mera representação, exportando seus costumes, sua política, sua economia e sua democracia como os elementos necessários para a verdadeira existência; podemos compreender o quanto “resiste-se somente quando se tem a capacidade de construir-se como sujeito, e é somente assim que se pode falar em estratégias constituintes, em constituição genealógica do sujeito, em êxodo” (Negri).

Onde está o inimigo nos protestos desencadeados no Egito? O inimigo é qualquer um que impeça a produção livre. Qualquer um que imponha um estado de sobrevivência as pessoas, negando-as o direito universal a vida.

Portanto, aos que se querem como generais do mundo…

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