CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS – PT 2/8

CAROS AMIGOS ENTREVISTA MIGUEL NICOLELIS

parte 2 de 8

Parte 1 aqui

Mylton Severiano Você falou Santos Dumont neurocientista?

Sim, um experimento que fiz recentemente demonstrou que ele estava certo. Fiz sem querer, ele fez de propósito. Ele tinha um problema claro. Tinha vários controles que precisava comandar, a inclinação da asa, ele inventou estabilizadores vertical, horizontal, o flape. Só que não existia botão e luzinha, pra dizer “isso aqui não está funcionando, puxe esta alavanca”. Só existia polia, corda e alavanca. Mas o número de alavancas era grande para ele dar conta. Então, em certos aviões dele, ele amarrava as cordas no terno, de maneira que, se mexesse pedaços do corpo, corrigia erros de elevação. Percebeu que incorporava o avião. Percebeu algo que nós demonstramos três anos atrás.

Mylton Severiano Isso tem a ver com o McLuhan, que fala da extensão do corpo?

Exato. Nós demonstramos que o cérebro assimila as ferramentas que usamos diariamente. Sempre uso o exemplo do jogador de tênis. Para o cérebro a raquete, depois de anos de prática, deixa de ser uma ferramenta para ser uma extensão do braço. Então para os mapas que temos dentro do cérebro, que definem quem nós somos, aquele braço agora tem dois metros de comprimento e termina num oval. O Santos Dumont percebeu isso empiricamente. O pessoal olhava e via um cara se contorcendo, achava que ele tava tendo uma crise epilética, mas na realidade ele estava usando o corpo – o avião era um pedaço dele. Escrevi uma vez uma pequena história dele, “o homem que virou avião”.

Roberto Manera O cérebro dele substituiria o radar de navegação?

O cérebro dele era um giroscópio. Ele tinha uma noção de espaço rara. Existem áreas do nosso cérebro que codificam onde estamos. Uma delas: o hipocampo, que, a cada momento que a gente está navegando, mapeia onde a
gente está. Para onde está se dirigindo, quais as coordenadas. Esse é meu grande debate filosófico com meus colegas hoje. Todo o mundo pensa o cérebro como um órgão que interpreta o mundo. Acredito que o cérebro cria o modelo do mundo, e ele só confirma ou nega esse modelo continuamente. Essas são duas escolas que estão batendo de frente. Como bom palmeirense gosto de dizer que estamos começando a ganhar o jogo. Levou 100 anos para as pessoas acreditarem que o cérebro tem um ponto de vista interno, dele, próprio, criado ao longo da nossa vida. Cada um de nós cria esse modelo do mundo.

Marcos Zibordi Seria mais forte que predisposição genética?

A genética nos dá um arcabouço, o começo de cada um de nós é mais ou menos o mesmo, o cérebro define quem cada um de nós é. Acredito que ele gera um modelo, tanto que, se você perde uma mão, o braço, durante muito tempo quase 90 por cento dos pacientes desenvolve um fenômeno chamado “membro fantasma”, pior do que as pessoas comentam, porque 80 por cento têm o membro doloroso – sentem dor numa parte que não existe mais.

Thiago Domenici Dentro dessa briga de escolas, o que mostra que vocês estão ganhando o jogo?

Os estudos com robôs. Começamos em 2003 e temos publicado trabalhos que confirmam os experimentos originais e agora outras pessoas reproduziram nosso achado. Demonstramos que, se você puser o cérebro em controle de um membro artificial, uma prótese mecânica, mesmo a 4 mil quilômetros de distância, mas se conseguir fazer aquele braço se mexer em 200 milissegundos, que é o tempo que leva para o cérebro mexer o braço biológico, e se o braço mecânico fizer o movimento, o que o cérebro quiser que ele faça, o cérebro assimila aquele braço como uma parte do corpo. Então mostramos as células do cérebro se dividindo fisiologicamente, funcionalmente, a sua fidelidade funcional se dividindo entre os dois braços fisiológicos e o novo braço robótico como se o animal tivesse ganhado um terceiro braço.

Mylton Severiano Isso foi feito com animais.

Foi feito com macacos e agora temos evidências que acontece em seres humanos.

Marcos Zibordi Vocês não chegaram a testar em humanos?

Não, nós publicamos um trabalho em 2004 com parkinsonianos que estavam sendo operados e criamos um eletrodo; quando você está operando o cérebro de alguém, é treinado pelo ouvido, você ouve o cérebro, as células, que se comunicam com eletricidade; mas cada célula produz um som peculiar, cada região do cérebro tem um som. Pouca gente sabe. A gente aprende a saber onde “está” no cérebro, não só pelas coordenadas tridimensionais, mas pelo som. Se tiver um som de pipoca estalando, eu talvez te diga que lugar do cérebro é, porque passei 20 anos ouvindo.

Michaella Pivetti O cérebro tem visão de mundo?

Minha teoria é que, ao longo do desenvolvimento, você vai mapeando a estatística do mundo ao redor, sua interação com o mundo; essa estatística vai sendo incorporada no cérebro de tal maneira que cria um modelo de realidade. Por exemplo, você tem um paciente esquizofrênico e certas coisas acontecem no cérebro, esse modelo de realidade sai de foco. O paciente tem alucinações, pensa que o estão perseguindo, ouve sons. Se você examinar o cérebro dele, vai ver que o córtex auditivo, por exemplo, está sendo ativado sem ter nenhum som. Está vindo de dentro dele. Estou desenvolvendo essa teoria, explicando quais princípios regem a criação de um modelo interno do cérebro sobre o mundo. É como olhar o mundo do ponto de vista do cérebro, esse é nosso embate. Por exemplo, você quer entender meu cérebro. O que faz? Manda um sinal, visual, tátil, auditivo, meu cérebro interpreta, você mede aqui de fora como é que reagiu, mas esse é o seu ponto de vista, de quem está tentando entender aqui de fora como funciona. Se você pegar um animal ou ser humano anestesiado e fizer o que falei, o cérebro te dá uma resposta – o que levou um monte de gente a pensar que o cérebro é só um decodificador de sinais. Foi a doutrina durante o século 20 do sistema nervoso: ele decompõe o sinal e analisa em detalhe a grandeza física que recebeu. Quando a gente começou a olhar em cérebros despertos em animais, e agora em cérebros humanos, começou a ver que o cérebro já está computando um monte de coisa antes mesmo de você mandar aquele sinal. Ele já criou uma expectativa do que você vai fazer, ou do que vai acontecer daqui a cem milissegundos, duzentos. E na minha visão ele está só, basicamente, testando essa hipótese. Se é de acordo com o modelo, reage de maneira tranqüila. Se não tem nada a ver com o que ele estava esperando, gera um sinal de alerta. O doutor César trabalhou nisso, um sinal de alerta que fala “opa, tenho que atualizar o modelo porque a minha hipótese não foi…”

Mylton Severiano Mais explicadamente, vamos dizer, eu falo “Fulano, me passa…” e ele me dá os óculos, mas não eram os óculos…

É que 70 milhões de vezes antes você já pediu seus óculos. O cérebro é um agente ativo, não é um decodificador passivo, ele não é um computador. É um criador da realidade, da sua realidade. Você pode ver o Palmeiras trucidar o São Paulo e achar que foi uma injustiça, eu vou achar que foi…

Marcos Zibordi Deus?

Exato. É que nem a CPI da Tapioca, o cara compra uma tapioca e os caras acham que ele anexou a Bolívia. Criam uma celeuma.

(Parte 3)

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