Ó ABRE ALAS! COM DILMA, O BRASIL QUER PASSAR!

 

Difícil a tarefa de produzir uma prospecção sobre o que será o governo de Dilma, de 2011 em diante. Não porque não existam rastros a serem observados, e uma linha intensiva, iniciada por Lula (nunca antes neste país…) que materializou a política e a democracia no Brasil, e mostrou ao velho mundo que ainda é possível produzir modos de existência a partir das velhas estruturas.

Mas porque Dilma tem diante de si um desafio, senão tão grande quanto fora o de Lula, certamente maior. Se Lula mesmo diz que não podia errar, teria de mostrar ao Brasil e ao mundo que um operário na presidência significava efetivamente algo diferente, cabe a Dilma conduzir o país no sentido de mostrar que as conquistas não foram apenas ocasionais, episódicas, casuais.

Caberá à Dilma animar os movimentos sociais, as demandas do povo, e fazê-las passar, materializá-las, transformando o desejar em efetividade, em realidade. Mostrar, por exemplo, que o sepulcral silêncio das massas aos apelos da mídia domesticada não é apenas fruto de interesses individuais, mas que é, ao contrário, uma incipiente reflexão sobre o papel do governo e da mídia numa sociedade.

Caberá à Dilma realizar a tarefa brechtiana de sujar as mãos, afagar o carrasco, para que este continue a se descuidar na sua vigília corrupta, e se enfraqueça, cada vez mais. Os Sarneys, Calheiros, e PMDB’s da vida não podem ser ignorados, já que estão onde estão pelas mesmas mãos que colocaram Lula, ainda que por (des)razões diferentes. Mas mesmo estes, não são perenes, nem eternos.

Caberá à Dilma não apenas gerir eficientemente o legado do seu antecessor, mas estar preparada para lidar com o intempestivo e o inatual. Dilma precisará, talvez, lidar com os primeiros sinais de esgotamento de um modelo de gestão que, embora seja revolucionário num país onde a fome e a desigualdade social eram abissais, é ainda o caminho do capitalismo. Poderá ela dar a guinada à esquerda, com a suavidade necessária para não produzir atrito? Fazer passar ao invés de impor?

E o que caberá a nós, neste novo governo? Quando usamos o pronome no plural, desejamos a pluralidade, a polivocidade, a coletividade. Sejam progressistas, esquerdistas, revolucionários ou quaisquer outros nomes, é esse NÓS que vai, efetivamente, produzir a potência necessária à ruptura e ao movimento desejante.

Não bastará apontar para o governo e dizer que a abertura dos arquivos da ditadura não foi feito. É necessário colocar esse assunto na pauta política do país, seja produzindo material, seja conversando com aquele vizinho que nem desconfia que viveu uma ditadura militar décadas atrás.

Não bastará gritar pela reforma agrária. É preciso convencer o brasileiro de que é mais vantajoso ter um campo plural do que conviver com a ignorância sobre como (e quanto) a farinha e o tomate chegam na sua despensa. Fazer como o faz o MST, que não apenas grita, invade, mas produz saberes, modos de existência, escolas, saberes, uma outra forma de enxergar e entender o Brasil. É esse MST que é revolucionário.

Não bastará bater no peito e se dizer progressista (a ideia de progresso é uma ideia reacionária), crer que a revolução será televisionada ou tuitada. É preciso transportar este entendimento, essa capacidade de produzir e interpretar uma perspectiva diversa sobre o país para fora das telas e monitores, levá-las às escolas, às comunidades, a todos os lugares.

O papel de Dilma é, portanto, o papel de todos nós. Coube a Lula esfacelar a representação fantasmática da Democracia Representativa, e fazer surgir o movimento efetivo e plural da sociedade brasileira. Caberá a Dilma, e todos nós, manter esse movimento, abrir novos caminhos, produzir outros modos de ver, perceber e inteligir a nossa realidade. Caberá a todos estes movimentos (NÓS), não impor uma agenda ao Estado Brasileiro, mas tornar nossas demandas necessárias e urgentes, dentro da multiplicidade política. Só assim elas poderão se tornar realidade. Lula abriu as portas do Palácio do Planalto ao povo. Dilma se encarregará de fazer esta presença algo perene.

É necessário não apenas atuar no espaço constituído, com leis e dispositivos emancipatórios das minorias, mas igualmente pensar uma forma de compartilhar essa diversidade sem perder aquilo que existe de mais rico: a própria diversidade. É preciso não apenas lutar pela criminalização da homofobia e pela equiparação de direitos civis, mas para que a violência contra o homossexual, a mulher, a criança, o idoso, e o sujeito, em geral, se torne algo banal, supérfluo, desnecessário num plano das relações humanas.

É preciso garantir que o governo Dilma herde e cultive do seu antecessor a capacidade de aglutinar diferentes enunciações, agenciando outros possíveis. Como disse a própria presidenta, é preciso entender que a economia é feita para as pessoas, e não as pessoas para a economia. É preciso enfraquecer a ordem subjetiva do capitalismo de que o sujeito é o que ele consome.

Se isso será plenamente possível com Dilma Presidenta, não sabemos. Mas entendemos que tentar é necessário, e que o caminho, e não o destino, é que perfazem o existir. E que esta tarefa não caberá apenas à Dilma presidenta, ou Dilma militante, ou Dilma Gestora. Mas a cada um de nós, que entende e deseja um Brasil e um mundo diverso e rico.

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