OBSERVAÇÕES SOBRE O BRINCAR DA CRIANÇA NA SOCIEDADE DO CONSUMO

“Para tornar uma máquina automática é preciso sacrificar muitas possibilidades de funcionamento. Para tornar um objeto prático automático, é preciso estereotipá-lo em sua função e torná-lo frágil” (Jean Baudrillard)

O capitalismo e a chamada sociedade de controle pretendem suplantar a necessidade histórica de repressão às massas, no plano macropolítico, investindo cada vez mais na disseminação de formas de comportamento que não necessitem de supervisão externa para funcionar “tal como devem”.

Agindo um pouco à moda do Admirável Mundo Novo, a sociedade do consumo oferece tudo aquilo que a parte mais primitiva do nosso sistema neurocerebral precisa para se manter ocupada: luzes, cores, sons, odores, sabores, simulacros de sexo e amor, e por aí segue. O que, claramente, leva a um acomodamento das funções mais, digamos, desenvolvidas. Dentre elas, a faculdade do juízo, da análise e da elaboração de um pano de fundo existencial para além do próprio indivíduo.

Assim, temos, por exemplo, a internet, como uma poderosa ferramenta de disseminação de saberes e dizeres, de produção mesmo de outros entendimentos sobre si e sobre o mundo, mas que é subutilizada, simplesmente porque não se sabe produzir conteúdo, ou não se aprendeu a selecionar, dentre o universo de informações que ela traz, quais são ou não relevantes para a produção deste pano-de-fundo existencial. Neste aspecto, fazemos coro a Umberto Eco, quando este diz que precisamos aprender a lidar com a internet.

Igualmente – é onde queremos chegar com este breve comentário – a indústria de brinquedos e entretenimento infantil não é predatória e nociva às crianças apenas por oferecerem um arsenal marketológico e um imaginário “xuxeado”. A forma como se brinca, como se relaciona com os brinquedos enquanto objetos também está contaminada.

Karl Marx e o próprio Hegel já sabiam que o prazer obtido no trabalho está em realizá-lo, e não no objeto produzido. Este, tem valor social. Mas o resultado do trabalho, a produção neurocognitiva, as sinapses, o exercício físico-intelectivo para realizar aquele trabalho, este é um ganho de quem o realizou. A práxis neuro-muscular não apenas reforça e enriquece o corpo como é recurso necessário para o conhecimendo do mundo ao nosso redor.

Antigamente, a criança dizia: “olha o que eu fiz com este brinquedo!”. Hoje em dia, é comum ouvirmos: “olha o que esse brinquedo faz”. O papel da criança em relação ao objeto lúdico deixa de ser o do protagonista, no exercício da práxis neuro-muscular, para ser espectador, numa relação de vigilância cérebro-sensorial.

“Interativo” é a palavra da vez na indústria de brinquedos. Para crianças e para adultos. Mas o problema é que a interação começa e termina com a parte mais importante e desenvolvida da relação apenas observando e admirando o que a outra é capaz de fazer. A parte do brincante, na maioria das vezes, se reduz a apertar um botão e fazer escolhas simples, como nos jogos de RPG (Role-Playing Games), onde só se chega ao final escolhendo as alternativas “certas”. Mais ma vez: estímulos constantes à parte mais “primitiva” da nossa cognição, e embotamento das faculdades do juízo e da crítica.

Prato cheio para quem quer fazer brinquedos que funcionem como vetores subliminares ou sobreliminares de mensagens e conteúdos (a indústria do politicamente correto e as que trabalham com as doutrinas religiosas, por exemplo). A “boa” brincadeira é aquela que conduz às “boas” escolhas (mas boa para quem?). Entretenimento e educação, juntos? Vigilância, embotamento e doutrinação. Como afirma Jean Baudrillard, em citação acima, para tornar um objeto autômato, é preciso estereotipá-lo. Nada de sexo, nada de humor, nada que exija de nossos curumins o uso do córtex cerebral ou das sinapses mais complexas. E um sujeito estereotipado é um sujeito que não precisa ser reprimido ou vigiado. Ele próprio é seu algoz.

Não que os brinquedos de uma época anterior fossem absolutamente melhores, e a piora tenha ocorrido de uns tempos para cá. Nada de saudosismo ou maniqueísmo em nossa análise. Se os brinquedos antigos tinham como aspecto positivo a relação direta e a possibilidade de produções abstrativas (a tal práxis neuro-muscular), carregavam, por outro lado, uma fortíssima ligação com a moral, e com a demarcação de posições e lugares dentro da sociedade. Menino brinca de carrinho, de revólver, de bombeiro, de construtor de casas, enquanto as meninas brincam de casinha, de costureira, de cozinheira. Os papéis sociais muito bem treinados desde cedo.

Se o sentido político dos brinquedos, o de sugerir papéis sociais não mudou, a forma como isto é feito se modificou drasticamente. Podemos comemorar um enfraquecimento do laço moral que unia o sujeito e o objeto, e que permeava a escolha e a forma como se brincava (quantas mulheres apanharam quando meninas, porque queriam jogar bola, ou soltar papagaio/pipa?). Hoje, a relação é “universal”, e não existe mais restrição de ordem identitária. No entanto, o que era uma moral controlada através da repressão, torna-se uma moral subjacente aos fins de uso do próprio produto. Meninos e meninas podem brincar à vontade no joguinho do computador, porque ambos chegarão, dadas as possibilidades, ao mesmo fim, e terão aprendido a mesma lição. Qual seja: apenas vigie e monitore. Nada de criar ou se divertir. Uti et non frui.

A partir daí, a questão não é mais saber o quanto de energia é preciso para esmagar a potência vital de uma criança; é saber como canalizá-la para atividades banais, que levem ao consumo, evitando assim que seja utilizada para o desenvolvimento da autonomia, da ética e da vida comunitária.

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Uma resposta para “OBSERVAÇÕES SOBRE O BRINCAR DA CRIANÇA NA SOCIEDADE DO CONSUMO

  1. Lembro na minha infância de ter brincado de bonecas, vestido saia, cavado a lama, feito guerra de pedras, pulado muro, catado fruta no vizinho… Mas de todos os meus brinquedos, o mais divertido era a caixa de papelão que embalava geladeiras e fogões. Agente até tinha notícia de videogames e bicicletas, mas havia um quintal em casa. Coisa que os modernos apartamentos não tem mais .

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