POLIDIZERES

SOBRE A CENSURA DA CENSURADA FOLHA

O psicanalista Sigmundo Freud entendeu a lógica do censor: é aquele que, censurado, limitado na sua capacidade de intelecção, passa a operar também no sentido de censurar. O princípio do trauma, onde a vítima repete e hospeda o agressor. Assim, a FOLHA DE SÃO PAULO, cumprindo sua sina de redução epistemológica (não é a primeira vez) está processando e exigindo vultosa quantia em dinheiro de dois irmãos, Lino e Mário Bocchini, por estes manterem no ar um blog satírico intitulado FALHA DE SÃO PAULO.

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Lino e Mário, evidentemente, não possuem envergadura econômica para lidar com o rolo compressor da FSP. Mas a maior vitória, eles já conseguiram: expor ao ridículo um dos ícones da mídia domesticada brasileira até no exterior. Talvez, iludida de que fosse a proprietária da inteligentsia brasuca, a Folha jamais imaginasse que houvesse quem entendesse de Freud para além de sua tropa de colunistas. O problema do tirano é que ele é o último a perceber que está nu. E quando o faz, é tarde demais.

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Fazes com os outros aquilo que fizeram contigo, é a lei do censor, que se imagina liberto da dor, tentando contaminar o outro. Só que o que eles não perceberam é que, para além dos irmãos Bocchini, existem milhões de outros, que não caíram na trama fácil e débil do jornalão. Aliás, já fazem alguns anos que  a maior parte da população brasileira faz ouvidos de mercador ao canto das sereias do baronato midiático local. Bonner-Simpson que o diga, há oito anos…

SOBRE O PERIGOSO PROGRESSISMO DA ESQUERDA

Progresso é uma palavra perigosa, assim como Orgulho. Só se tem orgulho quando se perdeu a medida do que se realmente é, quando se precisa acreditar-se maior do que efetivamente é. O mesmo vale para o Progresso. Só deseja progredir aquele que teme o criar. Pois que para fixar uma idéia de progresso e retrocesso, se necessita demarcar o caminho por onde se quer ir. E caminho demarcado é caminho sabido.

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Por trilharem caminhos já sabidos e conhecidos, muitos grupos ditos de esquerda acabaram por cair na mesma armadilha da direita. Fala-se em revolução, mas vive-se os mesmos clichês da moral de classe do capitalismo burguês. Se a classe operária jamais chegará ao paraíso, tampouco a esquerda deveria perseguir um ideal de progresso. Por isso este Poli não se considera progressista, ainda que no seu caminhar, por vezes encontre zonas de vizinhança com alguns blogueiros progressistas.

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Mesmo durante a campanha eleitoral, quando os blogueiros progressistas estavam caminhando numa mesma direção, já se percebiam aqui e alhures, lampejos daquilo que imobiliza os grupos e os caracteriza como grupelhos: o móbil (re-sentimentos e emoções) caminhando quase sempre à frente dos motivos. Criar um movimento convergente é importante e necessário, dependendo da situação. Mas querer uma unidade constante e imóvel é cair nas mesmas armadilhas epistemológicas do “pensamento” ocidental que permeia o conservadorismo. As sociedades mais criativas e desenvolvidas foram erigidas sob os auspícios da diversidade, e não da unidade.

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Igualmente, adotar os mesmos mecanismos de intelecção, a partir dos mesmos clichês, sem afastar as imagens da consciência para permitir o exame crítico de cada situação singular, é armadilha que interessa à conservação das coisas tal como está. Daí não adianta bater na mídia domesticada, alcunhá-la PIG, se na hora de analisar os acontecimentos, utilizar-se dos mesmos expedientes neurocognitivos que eles. Assim, o episódio envolvendo algumas feministas, alguns blogueiros e o jornalista Luis Nassif é apenas um sinal de que falta muito para que a esquerda brasileira, materializada nesta “nova” mídia, produza uma síntese disjuntiva capaz de efetivamente criar o novo.

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Sobre o episódio, trazemos ao leitor duas perspectivas, ao nosso ver, lúcidas e maduras: a do blog Jornalismo B, e da trepidante multiblogueira, Conceição Oliveira, do Blog da Mulher.

SOBRE O ENGÔDO COMPASSIVO DO GLOBETE LUCIANO HUCK

Classe média e passividade são praticamente sinônimos. Explicamos: a classe média é aquela que adora reclamar do governo, da corrupção, mas não perde a oportunidade de “se dar bem”, praticando pequenas corrupções cotidianas, tais como furar a fila do supermercado, pagar a propina para garantir a vaga do filho na escola particular, levar a avó ao banco para utilizar o caixa preferencial, dentre muitos.

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Esta mesma classe média enxerga o governo não como uma instância aglutinadora do interesse e da ação social afirmativa, mas como um ente fantasmático, objeto de deposição das suas frustrações, onde ele exorciza a sua culpa e justifica a sua imobilidade e incapacidade de agir para mudar o estado de coisas. Daí o ressentimento com o governo Lula, apesar deste ter sido um governo particularmente benévolo à classe.

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Assim, cheira a humor decadente as manifestações de apreço e gratidão da classe média amazonense, em particular os globetes, que encheram os olhos de lágrimas (o crocodilo nada tem com isso) ao ver o aproveitador Luciano Huck fazendo filantropia com chapéu alheio, e explorando a miséria social dos governos que a classe média sempre ajudou a eleger. Houve quem dissesse que Huck fez o que os governos não fizeram. Mas que é o governo senão a sociedade organizada? O Estado em si não tem substância, não é um ente exógeno. Se ele é falho ou inepto, é porque existem correlações de força que desejam esta imobilidade e esta inépcia.

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Se há diferença entre Huck e os Irmãos Souza, por exemplo, está apenas na aparência. O modus operandi e o móbil é o mesmo: aproveitar-se do estado de miserabilidade criado pela ausência de políticas locais de desenvolvimento econômico, para capturar e produzir a mais-valia através da compaixão. Huck ganha a audiência e a admiração daqueles que se omitem na hora de defender o papel da sociedade como promotora deste desenvolvimento, reforça o ressentimento desta classe contra o Estado, e ainda mantém o estado de coisas de imobilidade. Huck ainda tem a vantagem de apresentar-se numa roupagem cujos signos compôem com a classe média. Os irmãos Souza, apesar de contarem com a mesma audiência, tinham que se haver com o falso desprezo dos que assistem mas fingem que deploram. Não só os Souza, mas os Sabinos, Conceições Sampaio, Marcos Rottas e outras produções Garcinianas.

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O único que não se enganou nesta história toda foi o caboclo que mostrou a Huck conhecer a história de Veneza. Para o espanto do Globete, que afirmou jamais imaginou encontrar num lugar como aquele alguém tão inteligente.

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