BREVE COMENTÁRIO SOBRE A REJEIÇÃO DOS JOGADORES AOS SELECIONADOS NACIONAIS

O colunista Sócrates, de Carta Capital, em uma coluna recente, pergunta como é possível a um jogador estar enfastiado de vestir a camisa de seu país. Instigados com o tema, embora este apareça raramente por estes blog, resolvemos fazer um lançamento a curtíssima distância.

Caro Doutor,

As seleções apenas acompanharam o processo de enfraquecimento do sentido de nação, trazido pela onda chamada neoliberal, que só agora começa a se esfacelar.

Além disso, parece-nos que, ao menos na América do Sul (desconfiamos, na Europa também), os selecionados transformaram-se numa espécie de Cirque du Soleil, para apreciação de poucos e ‘bons’. Quem é que ganha com um Brasil e Argentina lá em Abu Dabi, além dos Sheiks, acostumados a pagar em petróleo seu entretenimento, e os cartolas de cá e de lá? Ninguém mais. E os jogadores, ainda que aparentemente alheios à politicagem fifática, se não o conseguem verbalizar, ao menos sentem isso. A consciência do trabalhador sabe-se explorada, ainda que ele próprio não compreenda bem como. Se em 1982 e 1986 já era assim, agora é que a coisa ficou escancarada mesmo. E não é que o mesmo não aconteça nos clubes: é que estes tem a vantagem da proximidade com o atleta-operário, e oferecer paliativos mais atrativos e consistentes: pagam-lhe o salário, oferecem moradia, assistência, etc, enquanto que as federações oferecem apenas prêmios. E o tempo do “bicho” acabou-se.

O futebol acaba entrando na ordem atual do trabalho no capital: uti et non frui, use e não desfrute. Na sociedade onde o capital não se reduz à venda de bens de consumo, mas de ideias e de estados de espírito, arranca-se do trabalhador aquilo que ele tem de mais valioso: o prazer de realizar o seu trabalho.

Não por acaso, depois de um ano estafante, de dezenas de milhares de minutos em campo, o que nossos jogadores fazem para se divertir? Vão jogar bola. O sentido é o mesmo que aponta o filósofo Baudrillard no sexo: há sexualidade em tudo, menos no sexo. Há alegria, ludicidade e prazer no brincar com a bola em qualquer lugar do mundo, menos nos campos da Fifa, da CBF, da AFA, etc. O simulacro do futebol explica porque os jogadores não ligam mais para seus selecionados.

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