Reforço em boa hora

De grão em grão, as campanhas salariais dos últimos anos vêm aumentando a participação do trabalho na renda nacional

Por: Vitor Nuzzi, Rede Brasil Atual

Publicado em 03/12/2010

Sergipe: “Melhorou bastante, antes o trabalhador não conseguia nem chegar no mercado, fazer uma compra” (Foto: Roberto Parizotti)

Crescimento econômico e inflação sob controle costumam ser ingredientes que, aliados a alguma dose de mobilização, garantem resultados positivos em uma campanha salarial. Não é à toa que nos últimos anos, segundo levantamento do Dieese, a maioria das categorias profissionais pesquisadas conquistou reajuste igual ou acima da inflação medida pelo INPC-IBGE – só no primeiro semestre deste ano, isso ocorreu com 97% das negociações salariais.
Apesar desse desempenho, é imprudente afirmar que o trabalhador brasileiro é bem remunerado.  Ao apresentar este ano um estudo sobre o tema, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, observou que a participação dos salários na renda é um indicador do desenvolvimento do país.

No período mais recente, o Brasil combinou positivamente redução no grau de desigualdade da renda pessoal e elevação da participação dos rendimentos do trabalho na riqueza nacional. No período 2008-2009, a participação do trabalho na renda nacional atingiu 43,6% – dez anos antes era de 40%. Para uma década, pode parecer uma evolução pequena. A questão é que ela representa uma mudança de curso, já que essa proporção vinha caindo gradativamente desde os anos 1970, depois de, no intervalo 1959-1960, ter chegado a 56,6%.

No mercado formal, o salário médio apurado (R$ 1.595,22) avançou 2,51% em termos reais no ano passado em relação a 2008, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego. Mas as variações são grandes: o salário médio chegou a R$ 3.445,06 no Distrito Federal e a R$ 1.130,31 na Paraíba.

Depois de um primeiro semestre positivo, o segundo começou com o acordo dos metalúrgicos que, no caso das montadoras do ABC paulista, aprovaram reajuste de 9% na data-base (1º de setembro), 1,66% de resíduo referente a 2009 – totalizando 10,81% – e abono no valor de R$ 2.200. Bem acima da inflação acumulada no período (4,29%).

Os bancários, após 15 dias de greve, assinaram acordo nacional prevendo reajuste de 7,5%, que embute aumento real de 3,08% – para salários acima de R$ 5.250, o aumento seria de R$ 393,75 fixos ou no mínimo 4,29%, o que fosse mais vantajoso (no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, que empregam cerca de 190 mil pessoas, os 7,5% foram para todas as faixas). Para o piso, o aumento foi de 16,33%, com 11,54% de aumento real. O acordo também incluiu a participação nos lucros ou resultados (PLR).

O Dieese estima que os reajustes para os salários dos próximos 12 meses mais a PLR dos bancários, cerca de 470 mil em todo o país, representarão o ingresso de R$ 6,1 bilhões na economia do país.

Em novembro, os químicos da região do ABC aprovaram acordo que, segundo o sindicato da categoria, representou os maiores aumentos reais de sua história. O reajuste foi de 8% na data-base (outubro), ante um INPC acumulado de 5,04%, além de aumentos no piso (9,2%) e na PLR (10%).

O coordenador de relações sindicais do Dieese, José Silvestre Prado de Oliveira, destaca como principais fatores para os resultados positivos das campanhas uma inédita combinação de crescimento econômico contínuo, com exceção de 2009, e taxas de inflação “em patamares baixos para os nossos padrões”. Questões que se somam a itens como maior espaço para negociação, em consequência da democracia, e a própria ação sindical. “Obviamente, você tem fatores derivados, como o crescimento da formalização, a redução do desemprego e a política do salário mínimo”, acrescenta Silvestre.

O ano de 2010 caminha, segundo o técnico, para exibir resultados melhores que os de anos anteriores em relação ao nível de ganho real (acima da inflação). No primeiro semestre, 25% dos reajustes analisados superaram a inflação em mais de 2%, ante 12% em 2009 e 11% em 2008. Os aumentos 3% acima da inflação são 12% do total, ante 5% e 4%, respectivamente. A maioria dos acordos com aumento real ainda se encontra na faixa de até 2% acima da inflação. Embora não faça parte da pesquisa do Dieese, o coordenador considera possível deduzir que os acordos também trazem avanços em outras cláusulas econômicas, como vale-refeição e cesta básica.

Silvestre observa que, apesar dos números positivos, parte dos ganhos é diluída por meio de mecanismos como a rotatividade da mão de obra e a terceirização. Por outro lado, não há como reclamar, como já fizeram alguns empresários, dos aumentos salariais recentes. “Os ganhos de salários estão muito abaixo do crescimento da economia. E não há evidência de que os salários tenham crescido mais que a própria produtividade.”

Para 2011, as projeções são mais modestas – crescimento menos intenso, mercado de trabalho menos dinâmico –, mas Silvestre acredita que o cenário continuará positivo para as campanhas salariais. “Não creio que isso vá mudar muito a tendência da negociação. Talvez haja alguma mudança na magnitude do ganho real. Mas as negociações terão desempenho parecido com o dos últimos anos.”

Fácil nunca é. Os bons resultados só vêm com esforço e organização, segundo João Batista da Silva, trabalhador na Seeber Fastplas, fabricante de autopeças plásticas com aproximadamente 600 funcionários em Diadema, na região do ABC paulista. “Antes tínhamos muitos problemas na negociação, conflitos”, lembra João Batista, 32 anos, há 13 na mesma fábrica. De uns anos para cá, os trabalhadores têm conquistado reajustes acima do acordo geral da categoria. Além disso, a negociação envolve a PLR, cujo valor total depende do cumprimento de metas de produtividade, qualidade e frequência ao trabalho. “Três meses antes do início da campanha, os colegas já começam a se perguntar”, conta João.

“O trabalhador fica bastante ansioso”, confirma o mecânico Wellington de Melo Costa, o Sergipe, 50 anos, há mais de 31 na fábrica da CBC, atualmente instalada no município de Ribeirão Pires, também no ABC. “Geralmente, o trabalhador não espera. Eles gastam antes, fazem uma dívida, principalmente os que têm um poder aquisitivo menor”, diz Sergipe, natural de Cedro de São João, no interior do estado que lhe empresta o apelido. Ele chegou a São Paulo em 1979 e nunca trabalhou em outra companhia. “Melhorou bastante. Às vezes ainda fica um pouco abaixo do que se espera. Mas antes o trabalhador não conseguia nem chegar no mercado, fazer uma compra.”

 

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