A SACADA DE HUGO CHAVES SOBRE A TRAMA DO CAPITALISMO

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ontem, fez uma denuncia que para alguns pode parecer um absurdo. Ele criticou o capitalismo fazendo a correspondência entre as catástrofes naturais que ocorreram em seu país com o modelo de desenvolvimento (econômico, social, ambiental) dos países desenvolvidos.

A Venezuela foi atingida por fortes chuvas que resultaram na morte de 32 pessoas e deixou 70 mil desabrigados. O chefe do Estado venezuelano, além de fazer a crítica ao capitalismo “criminoso”, tomou para si a responsabilidade de cuidar dos desabrigados convidando 25 famílias para se refugiarem no palácio presidencial e ordenando que se abrisse espaço para mais famílias nos ministérios, quartéis e até em um shopping em Caracas.

Esta atitude de Chávez explora a contradição necessária que faz com que o pensamento não seja apenas uma imagem ou a relação de representação entre uma idéia e um objeto. Ao contrário, a ação de Chávez expressa uma contradição na forma de crise do fundamento do princípio de identidade do capitalismo. Chávez coloca em evidência a necessidade de se problematizar o “não-dito” do discurso capitalista, ou seja, faz com que a identidade do capitalismo seja desmembrada numa materialidade que força o rompimento de uma lógica do capital reduzida ao lucro produzido somente pelo mercado ou por um sistema financeiro.

Há uma lógica transformativa e especulativa do capitalismo, como diz David Harvey, e ela não afeta apenas os componentes de uma economia mais ampla, mas a todos os segmentos que são engolidos pelo processo do capital. Se for verdade que a economia pode ser considerada um fundamento primordial para o capitalismo, essa mesma economia funciona, através da produção de mercadorias, como um fator de reprodução da vida social.

Não é na economia, tendo sua encarnação na exploração do trabalho, na produção da mercadoria segundo modos de produção capitalista e na especulação financeira, onde encontramos o sentido maior do capitalismo. Atividades culturais, fenômenos naturais e tantas outras ações que caminham pelas tradições, pelos valores estabelecidos, pelas crenças determinadas, ações políticas profissionais e de instituições da sociedade civil organizada, são todos híbridos justapostos as especulações econômicas do capitalismo.

Não obstante, o processo do capital percebido como hibrido, a partir de uma lógica transformativa, não nos é falado — mire-se no exemplo da hipocrisia da mídia patronal que neste ponto foge completamente de sua responsabilidade cívica e social — e muitos passam a crer que devastações de cidades e de países por fenômenos naturais se reduzem a tragédias inevitáveis que buscam seus fundamentos na superstição, no medo e na mitificação da objetividade do real.

Neste sentido, Chávez desvelou o óbvio do capitalismo: quando chefes de Estados se reúnem para fazer proferir seus discursos políticos em conferências que pretendem achar soluções para o caos ecológico que o mundo passa, suas falas nos mostram que as mudanças climáticas são de mais narradas no meio social para se reduzirem a natureza, que a política e seus meios de desenvolvimento econômico através das produções das fábricas e outros meios implicam por demais na natureza para serem apenas políticas, econômicas e sociais. Percebe-se o quanto o mercado está por demais atrelada as estratégias ecológicas e tecnológicas para ser apenas uma questão de dinheiro ou de uma lei de procura e oferta.

Quando Chávez diz que “As calamidades que estamos sofrendo com essas chuvas prolongadas e cruéis são a mais recente evidência do paradoxo injusto e cruel do nosso planeta” ele desponta este capitalismo hibrido.

Quando continua dizendo:

“Os países desenvolvidos destroem o equilíbrio ambiental de forma irresponsável em seu desejo de manter um modelo de desenvolvimento cruel, enquanto a imensa maioria das pessoas na Terra sofrem as conseqüências mais terríveis”

‘O desequilíbrio ambiental que o capitalismo causou é sem dúvida a causa fundamental desses fenômenos atmosféricos alarmantes’,

‘As economias mais poderosas insistem em um modo de vida destrutivo e se recusam a assumir a responsabilidade.’

ele nos coloca frente a necessidade de problematizarmos a dinâmica do capitalismo a partir das ações das redes hibridas que vão desvelando a trama do processo do capital. Trama esta que não cansa de fazer com que estes híbridos estejam cada vez mais aptos a reforçar a relação que estabelece o comando de quem domina e a subordinação de quem obedece, já que determina modos de sujeição cada vez mais perversos.

Enfim fiquemos com a pergunta do filósofo Bruno Latour:

“Será nossa culpa se as redes são ao mesmo tempo reais como a natureza, narradas como o discurso, coletivas como a sociedade?”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s