CONSCIÊNCIA NEGRA: AS CORES DA LIBERDADE

Existem diversas maneiras de entender o que é a consciência. Há, na verdade, diversas consciências, ditas na literatura, na ciência, nas artes, nas religiões. No entanto, há uma conceituação que nos interessa, que é aquela que remete ao conhecimento, aos valores, aos referenciais e às idéias das coisas que nos rodeiam. Essa nos permitirá entender porque existe uma consciência negra, e porque ainda existe a discriminação, seja ela racial, sexual, de gênero, ou qualquer outra.

Imaginemos que a realidade, os objetos que nos são exógenos, nos interpelam constantemente. Para interpretar esses estímulos, e transformá-los em algo passível de interação, nosso sistema nervoso (todo ele) transforma esses estímulos, adaptando-os à nossa realidade/capacidade corporal, traduzindo assim um mundo inteligível. Porém, é preciso atentar a um detalhe: nosso sistema nervoso, nosso corpo, linha de interação com o real, não dá conta de todos os estímulos, e mesmo quando dá, os adapta à nossa capacidade de interpretação e de inteligibilidade. Das cores e sons, por exemplo, só conseguimos perceber um pequeno espectro. Mesmo estes não existem da forma que vemos. As cores assim nos aparecem graças a uma adaptação cerebral. Da mesma forma os sabores, que não estão nos alimentos, mas na nossa carga genética adaptativa, que aprendeu, com os séculos, a diferenciar aquilo que é bom e nutritivo daquilo que é nocivo.

Mas, além disso, além do mundo dito ´natural´, há a cultura humana. Todo o conhecimento que já foi produzido, e que se deposita sobre nós mesmo antes do nascimento, através das expectativas de nossos pais. Valores, referenciais, idéias sobre as coisas, a moral, as religiões, as ciências, as artes. Tudo é cultura! Não importa se, em nossa sociedade ela tenha muito, pouco ou nenhum valor. Se foi produzido pelo homem, é cultura.

Nossa consciência, portanto, pode ser entendida como o conjunto, sempre em movimento e sempre em mudança, daquilo que interpretamos do real, sob o prisma da cultura onde estamos inseridos.

DA CONSCIÊNCIA INTERDITA

De onde vem, portanto, as opiniões, os entendimentos, os juízos de valor que o sujeito carrega consigo? Exatamente da consciência. O que o sujeito exprime como dizer e como fazer é resultado direto do mundo que ele concebe, do mundo que o cerca.

Se vivemos em uma sociedade onde este conhecimento é de livre acesso, e somos livres para cultivá-lo, então temos uma cultura evoluída, livre, potente, democrática, ética. Se, ao contrário, vivemos em uma sociedade que desenvolve estratégias para o cerceamento desta liberdade, então temos uma cultura decadente, atrofiada, cerceadora.

Como então, entender tanta discriminação e violência “gratuita” na sociedade em que vivemos? Um entendimento: hoje o homem domina a tecnologia de forma jamais vista no planeta até então. No entanto, ele, o homem, em geral não dispõe da maturidade afetiva e racional suficiente para utilizar essa avançada tecnologia na produção de uma sociedade justa, democrática e livre. O semiólogo Umberto Eco nos traz uma ilustração, quando afirma que todo o conhecimento existente na internet não vale de nada, se nossos jovens não aprenderam a discernir aquilo que é útil, daquilo que é banal.

Isso significa que aquele ditado que diz que o conhecimento liberta está incompleto. Não basta ter acesso ao conhecimento. É preciso saber qual conhecimento me é útil, qual conhecimento me convém.

Outra ilustração: muitos sabem que existe, atualmente, um conflito no Iraque, e aquele país está dominado pelas tropas militares e até empresas privadas de soldados mercenários a serviço dos países invasores. Mas pergunte-se, leitor, o quanto você sabe sobre esse conflito? Saberá, por exemplo, que o ex-primeiro ministro Toni Blair, chefe de governo da Inglaterra à época (nem tanto tempo assim), forjou documentos, falsificou dados e estatísticas, para justificar, perante a corte de seu país, o envio de tropas para tirar Sadam Hussein do poder? Blair responde em seu país a um inquérito, mas do outro lado do oceano, o seu colega e co-autor do golpe, George Bush Jr., desfruta da aposentadoria, sem ser incomodado pelo governo Obama. Bush, que à época chegou a justificar a invasão do Iraque como uma retaliação porque Sadan ofendeu Bush Pai, jamais conseguiu provar que o ataque às torres gêmeas, o 11 de Setembro, tinha relação direta com o Iraque. Além disso, as tais armas de destruição em massa que a dupla Blair/Bush afirmou existirem naquele país jamais foram encontradas, em dez anos de ocupação. Os EUA e os países aliados, que venderam à ONU a idéia de que libertariam o povo iraquiano da ditadura de Hussein, apenas trocaram de lugar com ele. A população continua pobre, sendo dizimada, seus recursos sendo explorados e enriquecendo famílias e empresas do outro lado do planeta.

Não é por acaso que a maior parte das pessoas, no mundo inteiro, desconheçam esse episódio da história recente de nosso planeta, mas saibam, por exemplo, quem é o marido de Angelina Jolie, ou o último vencedor daquele reality show de sucesso. A sociedade do consumo é também a sociedade do culto à banalidade.

Banalidade exatamente porque produz muito conhecimento, muitíssima informação, mas essa informação é absolutamente inútil quando se trata de melhorar a vida das pessoas. Banal porque o objetivo final de toda essa produção midiática não é libertar pelo conhecimento, mas convencer o sujeito de que ele precisa consumir. E uma sociedade banalizada é uma sociedade escravizada. Uma sociedade que produz em série consciências reduzidas da sua capacidade de síntese e de crítica. Uma sociedade que produz computadores supervelozes e de capacidade quase infinita de armazenamento de dados, mas cujo operador desta máquina é ele próprio subutilizado enquanto sujeito produtivo. Falamos, claro, de uma produção ético-estética, de condições de existência mais livres, mais gratificantes, mais justas e democráticas. Um operador de máquina de uma indústria armamentista jamais questionará onde essas armas irão parar, ou quantos irão matar, se não possuir informações úteis e necessárias para sequer fazer esta pergunta, ou se estiver numa condição afetiva tão violentada a ponto de se encontrar num estado de apatia e alheamento, a ponto de não se importar quantos irão sofrer com o produto do seu trabalho cotidiano.

DISCRIMINAÇÃO: PRODUTO DA IGNORÂNCIA

Existem, basicamente, duas formas de transformar uma consciência livre e produtiva em outra, passiva e consumista.

A primeira é através do bombardeamento constante e incessante de informações banais, e do controle minucioso da informação verdadeiramente útil. Analise a forma como os jornais, escritos, de rádio e televisivos nos informam. Notícias rápidas, textos superficiais, conteúdos banais. Quando o assunto é política, por exemplo, enfoca-se no trivial, no burlesco. Procura-se focalizar aquilo que vai chocar, e não o que vai possibilitar a reflexão. O estado de choque é também um estado de paralisia. Será por acaso que a mídia em geral trabalha com escândalos pontuais, pulando de um fato para outro, sem delinear um quadro geral, que permitiria ao leitor-cidadão ao menos compreender melhor como funciona o sistema de organização política do seu país, e de que forma ele está sendo corrompido? Outro aspecto: aquilo que é realmente importante para a compreensão de um fato não merece mais que alguns centímetros quadrados ou segundos da grade jornalística. Enquanto a reportagem que causará choque e indignação (passiva) toma toda a manchete ou os minutos do horário nobre da notícia.

E não é só da mídia: da mesma maneira, o conhecimento é repassado de pais para filhos, de professores para alunos. Assuntos fundamentalmente importantes são tratados como tabus, enquanto se “dialoga” exaustivamente sobre o banal. Da mesma forma, estes “diálogos” nada tem de dialógicos. Na maioria das vezes são monólogos, onde os mais velhos falam e esperam dos mais novos apenas a obediência e a anuência. Isso acontece porque eles próprios não cresceram num ambiente de embate de idéias, de altercações, de conflitos (necessários), de reflexões. Não espere de uma pessoa aquilo que ela não sabe ou não pode oferecer.

Desta primeira forma, deriva uma segunda: se o sujeito nasce com uma aptidão para o interagir, para o conhecer – como vimos na primeira parte deste texto – é natural que, diante de incontáveis tentativas frustradas de fazê-lo, ele acabe por entrar num estado de embotamento afetivo, de apassivamento dessa potência de existir. Está aí a depressão, que não nos deixa mentir. Ao mesmo tempo, o que resta desta aptidão, é capturada pela sociedade de consumo e direcionada para o banal, o inútil.

Frustrado afetivamente e interditado na sua criticidade e produtividade, o sujeito descarrega essa energia reprimida na forma de ressentimento e agressividade. Aí chegamos onde queríamos: a discriminação, a violência, a estupidez.

Discrimina-se o negro, da mesma forma que se discrimina a mulher (a sociedade é erigida sob a égide do homem), o homossexual, o deficiente, aquele que não condiz com os padrões estabelecidos de beleza físicos, o asiático, dentre outros. Discrimina-se, em suma, aquilo que não se conhece, e discrimina-se porque este chama a atenção, desperta nossa aptidão por conhecer, mas esta aptidão esbarra em toda a frustração acumulada, e esbarra sobretudo porque essas pessoas refletem a imagem da interdição.

Como posso aceitar a livre expressão do sexo do outro, se eu próprio não aprendi a lidar com o meu sexo, com o meu corpo?

Como posso aceitar e conviver sem receio com o negro, se a imagem que carrego é a do escravo, nas senzalas, e não a do povo produtivo, que já foi Mouro invadindo a Península Ibérica, com seus avançados conhecimentos em astronomia, matemática, medicina, música, artes, que foram posteriormente absorvidos pelos bárbaros europeus, e que culminou no Renascimento?

Como posso aceitar a livre manifestação religiosa do povo africano, com seus deuses naturais, com sua dança sensual, com seu ritmo contagiante e estimulante do movimento, se a igreja me apresenta um deus punitivo, ressentido, discriminador (o “meu” Deus – Deus não está com todos?), que me observa e desaprova o uso e o auto conhecimento do meu corpo e da minha sexualidade?

Como posso aceitar que um povo que foi oprimido, escravizado, que não era considerado humano pelo pensamento “racional” europeu, que já foi declarado pela ciência como mentalmente inferior, e evolutivamente atrasado, tenha, ao longo de sua história, pessoas tão criativas como Zumbi, Abdias do Nascimento, Obdulio Varela, Garrincha, Joaquim Barbosa, Lima Barreto, João Cândido, Paulinho da Viola, Jards Macalé, Quintino de Lacerda, José do Patrocínio, Anastácia, Chiquinha Gonzaga, Nestor Nascimento, Clara Nunes, Carolina de Jesus, Virgínia Leone Bicudo, Milton Santos, Leônidas da Silva, Castro Alves, Nelson Mandela, Paulo César Caju, dentre muitos e muitos, e que eu mesmo, representante do macho-branco-classe média, não produza sequer o necessário para ser feliz.

Assim, a discriminação nada mais é do que a expressão da impotência de quem está enredado na teia da sociedade de consumo, e sintoma de uma sociedade adoecida.

CONSCIÊNCIA NEGRA: UMA PRODUÇÃO ÉTICO-POLÍTICA

Assim, a consciência negra, aparece como uma produção, emaranhado sem início e sem fim, produção afetiva e de dizeres e saberes que carrega outras intensidades e outros entendimentos éticos e políticos. Ela é fortalecida pela liberdade de quem não se enreda nas tramas da sociedade do capital, e entende que é necessário. A consciência negra, navegando no oceano do real, sabe discernir o que é um equívoco da razão, e aquilo que lhe convém, quando o assunto é produzir modos de existência em sociedade onde a repressão não seja necessária, e a discriminação, impossível.

Daí ela ser uma consciência que é, ao mesmo tempo, ativa e reflexiva. Ela é práxis, atitude. Ela não é apenas negra, mas carrega todos os matizes das minorias (homossexuais, mulheres, crianças, animais…) e com essa aliança, produz uma outra política, mais eficiente e mais livre.

É por isso que a consciência negra é atemporal, e não se reduz a um dia de comemorações. Ela é ontem, hoje e amanhã. Ela não pode ser datada, determinada, pois está sempre escapando às tentativas de capturação pela sociedade do consumo. Ela é livre, como o foi Zumbi. Viva a negritude!

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