GREVE NA FRANÇA E A CONSTITUIÇÃO DO COMUM

A França enfrentará hoje a sexta grande paralisação nacional causada por uma greve geral. A greve reúne trabalhadores de diversos setores como do transporte metropolitano, portuário, caminhoneiros, ferroviários, entre outros, e coloca como principal preocupação para o governo do presidente francês Sarkozy a falta de combustível para o país.

Segundo informações do Correio Braziliense:

“O desabastecimento de combustível gerado pela adesão das refinarias à greve contra a reforma da Previdência — que irá à votação amanhã no Senado — obrigou o governo francês a criar uma “célula interministerial de crise”. Pelo menos quase 1,5 mil postos de gasolina dos 12,5 mil existentes no país estavam ontem sem combustível, segundo cálculos da União de Importadores Independentes de Petróleo (UIP), que representa os distribuidores instalados em hipermercados. Para hoje, é prevista um greve geral. Mas o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que não irá ceder às pressões. “A reforma é essencial, e a França está comprometida em fazê-la e levá-la adiante, assim como fizeram nossos parceiros alemães”, afirmou”.

A greve geral é motivada principalmente pela reforma na Previdência no país que eleva a idade mínima  de 60 para 62 anos para aposentadoria e de 65 para 67 anos, no caso de recebimento do salário integral (maiores informações aqui). Tal reforma é o efeito de políticas neoliberais impostas aos governos que devem seguir medidas de austeridade como, por exemplo, cumprirem em seis meses medidas destinadas a redução dos déficits, sendo que serão penalizados, caso não consigam, pelos órgãos financeiros multinacionais.

Há investimentos diretos sobre a produção e a reprodução da vida nestas medidas de austeridades que são impostas como pílulas neoliberais aos países sob o controle deste tipo de “economia política”. Portanto, há uma dimensão “biopolítica” que tenta a todo custo gerir a vida e controlá-la, a ser combatida; assim, como há também, uma biopolítica que corresponde a produção de subjetividades que não se constituem como produtos do controle do tempo, do espaço, da lógica monetária e outras imposições do neoliberalismo, mas como produções livres.

Em outras ocasiões na França, este tipo de greve, descrita por Antonio Negri como uma nova forma de luta: “greve metropolitana”, onde os principais serviços públicos afetados eram justamente o transporte metropolitano, geraram alguns acontecimentos de interesse deste filósofo.  O filósofo Negri, em Conferência Inaugural do II Seminário Internacional Capitalismo Cognitivo – Economia do Conhecimento e a Constituição do Comum. 24 e 25 de outubro de 2005, Rio de Janeiro, relacionando estes acontecimentos na França com o que é a constituição do comum, disse:

Então, o que é a propriedade comum? A propriedade comum, do ponto de vista jurídico, é facílima de definir: é uma propriedade pública que, em lugar de ter patrões públicos ou donos públicos, é de sujeitos ativos naquele setor ou naquela realidade, é administrada por eles. A propriedade comum é esse ato, é essa atividade através da qual os sujeitos administram ou gerem, por exemplo, a rede de transportes urbanos porque a rede de transporte urbanos é deles, porque o comum se tornou ou é reconhecido como uma condição para a vida, uma condição biopolítica. O que significa, por exemplo, uma metrópole sem transporte? Nada. O transporte urbano, sobretudo nas grandes metrópoles, é o transporte que dá a dignidade, a possibilidade de circular rapidamente nesse espaço. No espaço da comunicação são a informática e a telemática as que possibilitam essa propriedade comum. A propriedade comum não passa simplesmente pelo Estado, passa pelo exercício que as singularidades fazem desse espaço comum, pela maneira de exercer esse espaço comum. Não depende de etapas no sentido de primeiro fazermos isto e depois fazermos aquilo, como durante tanto tempo ensinaram muitas dogmáticas socialistas (primeiro fazemos isso e depois aquilo e aquilo outro será possível depois de fazer aquela outra coisa). Não é verdade. Agora se trata é de pôr em movimento tudo a uma só vez. Portanto, para além da propriedade pública, a definição jurídica do comum é aquela que possibilita fazer atuar dentro do caráter público a

construção de espaços comuns reais, que são estruturas comuns, e fazer atuar nesses espaços de vontade a decisão, o desejo e a capacidade de transformação das singularidades. Isto é uma das coisas que mais me condicionou na vida e que mais condicionou meu pensamento.

Eu fui conquistado por uma greve e Paris no inverno de 1995 para 1996. Era uma greve inicialmente de defesa corporativa do serviço público, dos empregados do metrô e dos transportes de superfície. Em pouquíssimo tempo se transformou em uma enorme luta que durou três meses, uma luta metropolitana para manter o serviço público, para proibir a privatização dos serviços públicos e para defender, de maneira geral, o que esse serviço representava para os cidadãos de Paris. O poder fez de tudo, claro, para intervir, incitando protestos de usuários e outras coisas que estão nos manuais de Ciência Política. Mas não conseguiram nada. Na neve, 8 milhões de parisienses se deslocavam com automóveis particulares, que paravam nos pontos de ônibus ou nas estações de metrô, abriam as portas e levavam quatro ou cinco pessoas até onde necessitavam ir. Isto se prolongou durante três meses e isto é a constituição do comum. É esta participação, esta capacidade de assumir pelas próprias mãos as condições biopolíticas da própria existência, do próprio modo de trabalhar. Esta é uma indicação que tem uma importância em minha experiência. É fundamental tirar as conseqüências disto, uma espécie de pequena filosofia do comum. Esse comum, como já disse, está fundamentalmente articulado, no sentido mais pleno da palavra, com o movimento e a comunicação das singularidades. Não existe um comum que possa ser referido simplesmente a elementos orgânicos ou a elementos identitários. O comum é sempre construído por um reconhecimento do outro, por uma relação com o outro que se desenvolve nessa realidade. Às vezes chamamos essa realidade de multidão porque quando se fala de multidão, de fato, se fala de toda uma série de elementos que objetivamente estão ali e que constituem o comum. Mas o problema é simplesmente ser comuns ou ser multidão, o problema é fazer multidão, construir multidão, construir comum, construir comumente, no comum. Este fato é cada vez mais fundamental.

“A conferência completa em forma de texto poder baixada aqui

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s