SOBRE A ALIANÇA ENTRE A DIREITA E AS IGREJAS

O filósofo Nietzsche, em análise genealógica do discurso da moral da sociedade ocidental, afirma que a origem das doutrinas religiosas de cunho cristão está fundada não no amor ou na solidariedade, mas no ódio, no ressentimento e na dor.

Há um sectarismo que orienta este tipo de “religioso”, que o afasta do sentido do religare, e da própria filosofia de Cristo, esta sim, enunciada a partir do amor, da alegria, da vida e da construção do Reino de Deus na face da Terra.

Para aqueles, é absolutamente essencial que a felicidade e o Reino de Deus estejam localizados numa transcendência idealizada – fora, portanto, da imanência e da existência – e fora do homem, num futuro que nunca chega. Assim, inalcançáveis, mas sempre presentes no horizonte, eles servem de mote para justificar a opressão, a dor, o ressentimento, a culpa e a submissão a outros interesses, estes sim, nada transcendentes e celestiais. “Quanto mais sofrido e submisso fores na Terra, tão maior será o teu quinhão no céu”.

Cristo e as doutrinas cristãs não poderiam estar em lados mais opostos. Enquanto estas, mais próximas a Paulo de Tarso, pregam a submissão à uma moral decadente, de estabelecimento do reino da dor e da culpa, e colocam a morte como o grande castigo de Deus sobre a humanidade, Cristo se aproxima de Epicuro, quando este afirma que não se deve temer a morte, pois que ela só pode assombrar como um fantasma, que está ali, presente, mas que jamais poderá se materializar. O Reino de Deus está dentro do homem, e entre os homens.

Assim, é fácil entender o que está acontecendo no Brasil, neste momento eleitoral, quando as forças reacionárias procuram, através do medo e da ignorância, influenciar o resultado das eleições presidenciais. Igrejas ditas evangélicas (nada da Boa Nova aqui) e setores ultra-conservadores da igreja católica (como as reativas Opus Dei e Canção Nova) procuram espalhar boatos sobre a candidatura de Dilma Rousseff, sobretudo em relação a tabus do corpo, como o aborto e os direitos LGBT.

O fato não é novo, nem há aqui nenhum tipo de nova prática. Há tempos igreja e governos de direita, totalitários e ditatoriais andam juntos, e por um objetivo em comum: a sobrevivência dos dois depende essencialmente do estabelecimento de uma subjetividade de culpa e submissão. Sem as condições mínimas de sobrevivência na Terra, só resta mesmo fugir para o céu. O inferno somos nós.

Assim, a candidatura de Marina Silva, pelo PV, apresentou como predominantes as cores da discriminação e da dogmática igrejal, deixando de lado a natureza como potência engendrante da Vida. Neste aspecto, aliás, o Partido Verde é tão verde quanto o Democratas pratica a democracia. Por isso, atraiu para si a imagem do pensamento da classe m(í)édia, acéfala e dissimulada, que confunde slogan publicitário com conceito filosófico, e defende uma natureza mistificada. Daí ter recebido apoios como o do ultra-narcisista Caetano Veloso e o da avoada Gisele Bundchen. O PV de Marina abraça a ecologia da compaixão, que é filha da culpa e da dor, toma os efeitos pelas causas, e perpetua os mecanismos de dominação e decadência.

Daí, igualmente, compreender-se que muitos eleitores classe m(í)édia, que desfilaram pelo primeiro turno com ares de revolucionários, de terceira via, agora abracem sem pudor (mas pela moral) a candidatura conservativa de José Serra. Ainda que a própria Marina demonstre querer acordar do sonho da desrazão, sua imagem biográfica já serviu a interesses anti-democráticos, e nada mais há a fazer quanto a isso. Mas pelo menos, há uma linha de fuga: assim como Marina, alguns de seus eleitores também perceberam a armadilha e desviaram do óbvio caminho que liga a terceira via com a mão única da direita.

O que é necessário à esquerda, e não apenas neste momento, é combater o obscurantismo que quer se passar como liberdade. É necessário utilizar talento, diálogo e razão para enfraquecer esta subjetividade que quer se passar como verdade, e que “em nome da pátria e da família, incentiva a venda das almas e a trituração dos corpos” (Antonin Artaud). Retomando o humor, a alegria e a ironia de Jesus Cristo, é preciso dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

 

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