O VOTO COMO POLÍTICA LIBERTADORA (2ª parte)

(2ª parte. A primeira parte do texto aqui)

“Só é rico o país que descobre que o povo é a sua maior riqueza”. (Presidente Lula)

O VOTO ENGANADO PELA RELIGIÃO

Não basta escrevermos que a religião não tem que ser fator decisivo ou de influência em uma eleição. Isto nos parece por mais óbvio quando sabemos que o Estado, enquanto estatuto responsável por definir as leis que organizam e protegem e preservam o bem comum na cidade, é laico. E seu caráter laico vem justamente do seu dever de servir a todos através de  decretos e não de fazer da vontade dos que governam seus decretos.

Mas o Estado não é o grande responsável pela organização da cidade. Como vimos é a constituição do comum, as lutas constantes que atravessam a importância cidadã do voto que produz a própria cidade. Não devemos dar tanto crédito ao Estado se não estaremos dando uma força maior do que nós ao “inimigo”. O que nos interessa aqui é saber que quando nos reconhecemos como capazes de produzir a cidade através do voto, que não pára nas urnas, muito menos no representante escolhido, nós nos colocamos como limite ao Estado, ou seja: o estado não pode ultrapassar nossos desejos e nossas lutas, mas nós podemos transformar o Estado.

A religião é muito forte neste sentido. Por esta razão, soberano algum pode determinar o credo de seus súditos, pois aí não é apenas mexer com uma lei ou uma conduta, mas com a fé. E num sentido psicológico a religião é movida pelas paixões e não pela razão. Mas hoje em dia vemos que cada vez mais a religião adentra na instância do Estado.

Poderíamos dizer que isto se dá devido ao fato de que muitos pastores (cristãos em geral) relacionam seus interesses próprios ao caráter religioso que, como diz Maquiavel, “recomenda apenas a coragem e o sofrimento passivo, subjugaram o espírito dos homens e o submeteram à escravidão e ao servilismo” (citado por David Hume em História Natural da Religião).

O perigo central nesta relação é fazer com que as pessoas absorvam este caráter religioso em suas práticas políticas. Votar, fundamentando-se neste ponto de vista religioso, é jogar por terra a possibilidade de termos o voto como a produção da vida em uma existência política libertadora. Eis aí um problema.

Toda a polêmica criada pelo candidato Serra em torno da legalização do aborto, a qual atribui a Dilma a certeza dessa legalização, é no mínimo uma ignorância que se quer como mãe de uma devoção. Em termos políticos, digo Estado, e da forma pela qual concebemos aqui o voto como luta constante e produção da cidade, de que modo o aborto seria legalizado sem a concordância da população?

Serra se desvia dos principais argumentos que devem ser “debatidos” durante uma eleição e parte para a convicção de que o temor e a esperança vã vão lhe eleger. Quando Serra faz isso ele nos deixa claro que não acredita na democracia como potência constitutiva produzida pela ação de todos, mas se mostra a favor de Hobbes, de um Estado que tem o seu corpo político constituído através do medo e da insegurança nascida do egoísmo dos homens que não tem como possuir a propriedade.

Para Serra o Estado, assim, não seria o local da construção do âmbito de políticas públicas em prol do bem comum onde todos, no esforço de serem livres, preservariam suas existências através do bom uso da Razão, mas o local do domínio, aonde a segurança viria através da alienação das liberdades para um poder soberano determinando inclusive que a multidão teria que abandonar seu direito de resistência, já que ele seria o representante soberano.

Como disse a filósofa Marilena Chauí, “esta eleição não tem que se tornar um plebiscito sobre a legalização do aborto”. No governo Lula as audiências públicas deixaram mais do que claro que todos tem o direito de participar da gestão da cidade, além disso, o direito a luta é um direito inalienável constituído pela liberdade que cada um preserva em si e para si com o voto e para além do voto.

Serra parece compreender religião exatamente como dor, desespero, temor e esperança vã, ao mesmo tempo, que compreende política como condição de temor e servilismo. Ora, se o voto tomar o curso de se concretizar em razão de um temor e daí um servilismo criado, quem receber estes votos nunca será digno de exercer os negócios públicos da cidade.

Deste modo, este voto seria um engano religioso. Digo isto em razão deste voto não surgir da alegria e amor tão caros as palavras de Cristo, palavras sempre em prol da Vida.

VOTO NO SEGUNDO TURNO

Depois de esclarecermos as razões pelas quais acreditamos que o voto é produção da cidade através da construção de um estado constante de lutas, declaramos nosso repúdio a todos aqueles que mergulharam na tentativa de desqualificar o voto dos trabalhadores (chamados por muitos de modo pejorativo de voto dos pobres).

Compreendemos que o grande responsável pela riqueza no Brasil e no mundo é justamente o pobre. É do pobre que parte as produções que determinam as condições políticas, econômicas e sociais de um país. E, antagonicamente, foi sempre ele que se viu excluído e desprezado. Nada mais normal para uma sociedade capitalista onde o pobre é concebido como aquele que deve ser explorado e considerado, nos modos religiosos, como o que necessita de ajuda e de compaixão.

E é ao grande produtor de riquezas que imputam a incapacidade de votar, como na celebre frase do rei Pelé que dizia que os brasileiros não sabiam votar (nem todos, é claro), muito bem lembrada pela psicanalista Maria Rita Khel em texto que lhe rendeu a demissão do jornal Estadão. Contudo, aqueles que destilam ignorância e preconceito contra o próprio direito de votar, são pessoas de classes abastadas que não justificam e não argumentam estas suas posições rancorosas e ressentidas, apenas dizem que não votam em Dilma e dizem que o voto do pobre não é um voto inteligente. O que é ser inteligente então? Com certeza não pode ser uma atitude como essa.

Não precisaríamos de tantos números, mas o conseguimos em vários lugares, aqui é um bom lugar, a comparação com outros governos também surgem e são devastadoras para os que acompanham Serra. Basta ouvirmos as pessoas que dizem que a existência melhorou não por conta de uma mesada mensal, mas pela combinação de políticas públicas com distribuição de renda que fez com que muitas pessoas pelo Brasil pudessem ter, talvez, aquilo que move a produção livre: independência para sair de condições de exploração.

É aí que falamos que o voto não é individual. Lula não é apenas um presidente, mas uma multiplicidade que se mantém devido a constituição do comum que pode muito bem lhe por enfrentamentos. O próprio Lula bem sabe disso e nisso ver a riqueza da democracia.

Quando Lula foi eleito pudemos deslumbrar o voto como algo para além de um direito cívico. O voto se transformou em luta e continua sendo, pois quem votou em Lula pode perceber que é capaz de produzir por si próprio, de modo livre, sem temor e sem esperanças vãs, mas com construções efetivas, onde os sonhos movem desejos, novas subjetividades. Voto-afeto.

E Dilma traz consigo esta força. Não somente porque está com Lula, o que já é importante, mas porque ela traça na sua existência o projeto que vem sendo efetivado na gestão Lula; e negar este projeto seria negar a sua própria existência. Mas ainda com tudo isto, Dilma traz consigo a responsabilidade da renovação do voto novamente como política libertadora. Se junto a ela a minoria mulher avança como potência, toda uma multiplicidade de singularidades produz a constituição do comum quando votam livremente em Dilma.

Não se trata apenas das mulheres, mas da continuação da reapropriação das ferramentas de trabalho por parte do trabalhador, para que ele possa fazer do seu trabalho algo livre, produtivo, vivo e afetivo, sejam homens, mulheres, homoafetivos, ou quem for: um trabalho comunitário através do voto comunitário, onde a identidade evapora e as singularidades produzem.

Votamos livremente, no desejo da luta, em Dilma por entendermos que em qualquer governo onde o fundamento da cidade seja a liberdade e a razão, e o poder não esteja concentrado nas mãos de poucos ou de um só, mas, ao contrário, sejam as manifestações dos desejos livres comuns que foram gerados por um direito comum, capaz de produzir novas comunidades, um governo onde todos, e não somente o poder, estejam preocupados com o bem comum, quem governa não é apenas um presidente, mas o povo que reina soberano. “Se existe um poder absoluto, este é na verdade aquele que se encontra nas mãos de toda uma coletividade” (Espinosa, Tratado Político, §3 capítulo VIII).

E isto está no fato de fazermos do voto uma ferramenta de transformação mais uma vez.

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