A POTÊNCIA-POVO E A ESPERANÇA DOS CORRUPTOS

Ao contrário do que exibem as enunciações de todos os candidatos da direita -  e alguns que se querem esquerda – ética pouco ou nada tem a ver com conduta de ordem normativa, de obediência a um estatuto ou tábua de leis.

A ética, como a própria política, só ocorre quando as ações ocorrem tendo como causa a inteligência e como fim o Bem Comum. Significa que é preciso fazer política a partir de outras enunciações, produzindo condições de existência que permitam outros possíveis. A política, neste sentido, é produção intensiva de diversidade.

Daí a direita, que tem como princípio de ação-paixão a conservação, não ser capaz de politicar a partir de uma perspectiva ética. Tampouco a esquerda fantasmática (as “pulgas” de Marx) é capaz de produzir essas condições. Mas o povo, enquanto potência, é.

Daí ser incompatível com a política expedientes como a violência, a coação, a chantagem, a ameaça. A força, na política, é a manifestação da impotência. Por isso, por exemplo, a eleição, em São Paulo, de candidatos como Paulo Maluf, Clodovil, Enéas, e agora Tiririca, não é evidência da ausência da potência-povo, mas da potência política da democracia representativa. Como se o povo dissesse: “vocês não nos representam; no máximo, representam a vocês mesmos”. Uma espécie de ironia, que se manifesta como microfascismo.

Igualmente, em Parintins, Amazonas, ocorre algo semelhante. A campanha do candidato ao senado, Arthur Neto, na cidade, foi em tom de ameaça. Para os correligionários do senador do PSDB, a não-reeleição significaria o fim dos recursos para a cidade dos bois. Houve carro de som, panfleto e até tricicleiro circulando nas principais vias da cidade com dizeres em tom de ameaça: caso Arthur não se reelegesse, a cidade de Parintins ficaria sem os recursos obtidos pelo senador.

No entanto, estes que crêem nesta falácia, ignoram que a potência-povo, a capacidade produtiva da população, que é a política para além da política do sistema de representação que se autointitula democracia, é a verdadeira fonte da riqueza da cidade. A mesma riqueza na qual parasitariamente se elegem, em nível local e regional, candidatos orientados pela mesma semiótica do senador PSDBista. Inclusive sua adversária de ocasião, Vanessa.

Uma inversão perversa do sentido da política, obtida apenas pela força, e que só se materializa onde o temor se manifesta. Daí Arthur, que já ameaçou Lula com uma surra, apreciador de artes marciais, acreditar-se a única esperança deste povo. Na verdade, é o povo – ainda que numa versão fantasmagórica – que enche este tipo de político de esperança. E como diria Spinoza, a esperança é um afeto triste, que diminui a potência de agir, a vontade de existir, apenas porque é a expectativa passiva, eterna espera de algo que pode ou não acontecer.

Por isso, mesmo quando elege candidatos como Maluf, Amazonino, Chalita e Tiririca, o povo é soberano. Por isso, Parintins sobreviverá à derrota arturiana. Para o bem ou para o mal, o povo é sempre causa. E sempre produz em potência, ainda que esta conviva com focos de microfascismo.

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