JOÃO E O SISTEMA DE SAÚDE NO AMAZONAS

João* saiu de sua cidade para a capital do Amazonas em excursão escolar, no último final de semana. Na sua primeira noite em solo manauara, sentia fortes dores de cabeça, náuseas e febre. Tomou remédio, e melhorou.

Na manhã do segundo dia, a dor de cabeça voltou. João não gostou da comida do lugar onde estava hospedado. No mesmo dia, à tarde, teve febre. Mas participou do evento para o qual foi a Manaus. O terceiro dia foi igual; a dor de cabeça só o abandonava quando tomava o remédio. Ao professor que o acompanhava, disse que as dores de cabeça eram comuns, e que a náusea era por conta da comida, muito temperada, a que não estava acostumado.

No quarto dia, João caiu para valer.  Sentia-se mal, vomitou pela manhã, a dor de cabeça era intensa. Foi levado ao hospital 28 de Agosto. Lá, ao contrário das expectativas, foi bem atendido. O médico o ouviu, fez perguntas, explicou, foi atencioso. Ouviu de João que as dores de cabeça eram diárias há pelo menos dois anos. Que as náuseas e a febre eram recentes, de quando chegara à cidade.

O médico orientou-o a procurar auxílio ambulatorial, para descobrir a origem da cefaléia. Por conta dos novos sintomas, sugeriu uma tomografia, e receitou medicamentos para dor e náusea. João e o professor procuraram o setor do hospital responsável pela marcação dos exames. Foram recebidos por uma enfermeira que, gentilíssima, pediu desculpas, e explicou que o tomógrafo daquele hospital era apenas para pacientes internados. O professor indicou que o encaminhamento vinha do médico da própria instituição. A enfermeira mais uma vez se desculpou, e explicou que o médico era novato, e não sabia da regra. Talvez, fossem ele ou ela os gestores do hospital, o tomógrafo servisse a todos os cidadãos que ali chegassem.

João voltou para a hospedagem, sentindo-se melhor, mas sem o exame.

No dia seguinte, retornou à sua cidade. E faltou aula no dia seguinte. O motivo? Dores de cabeça durante toda a madrugada. A febre e as náuseas sumiram, mas a dor, antiga, persistia. O professor foi então visitar a família de João. E descobriu, através da mãe, que João não sente dores de cabeça há dois anos, como disse. Na verdade, ele, que tem hoje quinze anos, sente dores de cabeça diárias desde os sete. A mãe jamais conseguiu marcar, pelo SUS, uma tomografia ou sequer falar com um especialista. O exame, na cidade em que reside, não é feito nos hospitais locais. Apenas uma clínica particular oferece o serviço, a 600 reais. Impossível para a mãe, agente de saúde, separada, seis filhos. Ela conta que João já utilizou óculos durante dois anos, graças a um diagnóstico de um clínico geral. Além de não adiantar de nada, a oculista que examinou João depois deste período, disse que ele não tem nenhuma deficiência ocular que justificasse o uso dos óculos. Ainda assim, quando estuda até mais tarde ou assiste muita tevê, a mãe empresta a ele os seus óculos. “Para descanso”, diz ela.

A mãe tentou durante anos conseguir o encaminhamento para o exame, através da clínica geral dos postos de saúde, mas sempre ouviu que as dores eram “normais”, e não havia necessidade de uma tomografia. Dias antes de começar a sentir as dores, sete anos atrás, João bateu a cabeça numa brincadeira com o irmão. O “galo” que ficou em sua testa era enorme, e custou nada menos que um ano para sumir. Mesmo assim, a mãe nunca conseguiu passar do clínico geral para um especialista. Não há neurologistas na cidade em que João mora.

Com o encaminhamento que o professor trouxe de Manaus, a mãe de João tentará, finalmente, marcar uma tomografia pelo sistema de marcação de exames do governo do estado. Sorriu quando viu que um pedaço de papel, com letras mal traçadas e um carimbo separavam o seu filho de um exame que pode ajudar a descobrir a causa de uma dor que acompanha seu filho há pelo menos metade de sua existência.

Resta saber se, mesmo com o papel e o carimbo do médico de Manaus, ela conseguirá furar o sistema que impede o seu filho de passar um dia inteiro sem analgésicos ou sem dor.

* O nome é fictício. A história de João é real. O professor já planeja uma cota na escola, para conseguir os 600 reais do exame. Desconfia que o sistema não se renderá facilmente.

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