BRASIL ENCONTRA O CAMINHO DA INDEPENDÊNCIA 502 ANOS DEPOIS

Quando dois corpos se encontram, e o resultado deste encontro é uma afecção passiva, apaixonada, que leva a um estado de imobilidade e de submissão causal ao que é exógeno, então temos uma relação de dependência.

Ao contrário, quando estas afecções, produtos dos encontros, acarreta o fortalecimento da liberdade de movimento, quando ela amplia as possibilidades de ser, tendo uma causa endógena, aí sim, podemos falar em independência.

O que nos leva, facilmente, ao entendimento de que, no sistema de produção capitalista, cujo cerne é a exploração do trabalhador, seja impossível falar em independência.

Assim como o capitalista explora a força produtiva do trabalhador, ordenando-a a partir de uma lógica do consumo, também na política internacional, países exploram outros países, tendo como pano de fundo o interesse econômico.

Durante seus primeiros 500 anos (a própria cronologia é uma forma de dominação, pois antes de Brasil existia Pindorama), o Brasil foi governado pela ótica do capitalismo. Na condição de país explorado e expropriado, o país subviveu nesta ordem nociva, governo após governo, parecendo incapaz de libertar-se ou pelo menos encontrar o caminho para outros possíveis.

Mas, para além das forças que se movimentam na superfície, existem potências que são quase sempre invisíveis, e que, no entanto, estão em confluência. Potências que carregam elementos de liberação, de uma produtividade outra, que é causa de si, e que não está presa à ordem do capital. Estas potências, quando consideradas por um olhar macro – o do capital – parecem inócuas. No entanto, elas são viróticas. São de uma ordem intensiva, e não extensiva. É João Cândido, o Almirante Negro; é Zumbi, negro, homossexual e quilombola; é Cabanagem, o grito do ribeirinho pela liberdade do Grão Pará; é Balaiada, que movimentou o Maranhão em outras potências no grito dos negros; e muitos outros.

Mas não somente eles. Se eles surgiram e se destacaram pela defesa incondicional da liberdade, não o fizeram sozinhos. O grande problema da inteligência do capitalismo é que ela não tem a ginga do pensamento que corre por fora. Enquanto ela corre para arrancar algumas flores, a primavera se anuncia no horizonte, já diria outro liberto, Che Guevara.

Aí um Brasil que comemorava uma ficção, a cada sete de setembro, pois permanecia preso a este pensamento capitalista de submissão ao capital estrangeiro, mesmo tendo como presidente um sociólogo (capturado pela rigidez da inteligência dominante), graças à confluência destas potências, que movimentaram forças subterrâneas, deixou de eleger quem “pensa”, para eleger quem ama.

Claro, Lula não é a primavera, mas apenas uma flor. E ele sabe disso. Mais ainda, ele sabe – e nós sabemos – que não é possível escapar ao capitalismo senão como um todo, assim como não se pode lutar pela própria liberdade sem colocar em jogo a liberdade de toda a humanidade. Mas Lula indicou o caminho, a partir do momento em que governou um país, de uma relação de fortíssima dependência econômica exógena, para o estabelecimento de um fortíssimo mercado consumidor endógeno, e assim enfraqueceu as relações de dependência econômica e política externas, colocando o Brasil como ator principal, e não mais figurante, no cenário internacional.

Acabou com a dependência? Certamente que não. Mas mostrou que outro Brasil é possível. Mais ainda: foi Marx para além dos marxistas, quando entendeu que a superação do capitalismo passa pelo seu pleno desenvolvimento. Coisa que a esquerda raivosa e presa ao pensamento dominante jamais conseguirá entender. Lula, como Marx, sorri. E a direita, atordoada, não consegue sequer entender o que está acontecendo.

As eleições de outubro estão aí, e as cartas estão na mesa. Independente do resultado, algo já aconteceu. Outro Brasil erigiu-se, outras potências atualizaram-se no social. E por mais que ainda estejamos na ordem do capital, é possível ver correndo por fora outros possíveis que se atualizarão, que serão causa e produzirão outros efeitos, num movimento contínuo.

Mas pelo menos, comemorar o sete de setembro, nestes últimos sete anos, tem deixado de ser ficção, e o brasileiro pode finalmente dizer que sente o gostinho de ser independente.

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