DA DEMOCRACIA COMO PRÁXIS E DAS TRAPAÇAS DA LINGUAGEM CONSTITUÍDA

Imagine um boi. Certamente, a imagem que veio à sua imaginação foi o animal, com chifres, e cada qual que lê este texto imagina um pequeniníssino boi que cabe na sua imaginação. Agora, imagine a junção das letras B – O – I, e diga em voz alta. O que surgirá? A palavra Boi. Só aí, neste curto exercício, já temos três elementos. A palavra, a imagem, e o animal (objeto) propriamente dito. Cabe aqui a pergunta fatal: qual dos três você pode, devidamente abatido e preparado, comer?

A resposta é clara. O animal. Quem vive de mastigar imagens ou palavras, morre de fome.

O mesmo se dá com a democracia.

Há a palavra-democracia, esta que você facilmente decompõe e que conta com 10 palavras que juntas não dão conta do todo que é a palavra. Há a imagem-democracia. Essa é um pouco mais complicada, porque é mais fácil ver um boi – mesmo para a geração play do twitter e dos condomínios, que dissecam frango de granja nas aulas de ciências – do que ver uma democracia. Principalmente hoje em dia. Afinal, não tem mais nenhum grego, da época da democracia ateniense, vivo.

Esse terceiro item, o objeto, a democracia como corpo “físico”, só se corporifica na práxis. E dela, a gente só vê os efeitos. Um exemplo pode ser visto em Parintins, no Amazonas.

Alguns parintinenses votam em Arthur Neto, porque para ele, o atual senador do PSDB/AM é o grande responsável por empreendimentos que existem na cidade, como a praça digital, e que existirão, como a futura Cidade do Folclore, que será construída – se for – com dinheiro da Eletrobrás, via Lei Rouanet. Argumento inatacável.

Mas se o leitor polifônico disser que as emendas orçamentárias para tais empreendimentos não forem mais que obrigação do parlamentar, atividade inerente a esta função? Bem, o parintinense que defende o tucano dirá, com certa razão: “E os outros, que não fazem nem isso?”. A pergunta cabe, como crítica, a parlamentares honestos, como Praciano. Os outros, não contam.

Mas nada disso tem a ver com democracia. Porque se a democracia é o governo do povo, donde emana o poder soberano, então nem Arthur nem PSDB demonstraram ser democratas quando tiveram a chance.

Arthur, que já foi chefe da casa civil, vivia às boas com um governo nortefóbico, que semana sim, outra também, tentava acabar com a capenga Zona Franca de Manaus. Neste octênio triste, os investimentos no interior foram mirrados, poucos, quase nada mesmo. Isso sendo otimista. Arthur tinha ingerência, ou pelo menos esperava-se ter, já que o partido dele estava na presidência, e ele era o chefe da casa civil. O que ganharam Parintins, Lábrea, Urucará, Boa Vista do Ramos, Nhamundá, São Sebastião do Uatumã, Ipixuna, dentre muitos, nesse tempo?

Veio o governo Lula, que carrega traços da democracia, enquanto corpo, para além da palavra e da imaginação. Aí, Arthur se zanga. Diz que vai bater em Lula, semana sim, outra também, ameaça o sapo barbudo de mil desatinos, passa anos – com a ajuda da direita e da mídia midiocrizada – atacando o governo que trouxe o Bolsa Família, o Luz Para Todos, e mais que isso, abriu as portas do Palácio do Planalto para os prefeitos de todos os mais de cinco mil municípios brasileiros. Incluindo aqueles que governavam sob a bandeira de PSDB e DEM.

Arthur, embora ameaçasse Lula diariamente, com destaque no jornal global, sob as bênçãos do casal Bonner-Simpson, nunca teve dificuldades para aprovar uma emenda orçamentária, incluindo aquelas que beneficiaram a cidade de Parintins, e que agora trazem dividendos eleitorais para o tucano.

Porque, para o governo Lula, PSDB, DEM, Arthur, estão em segundo plano, quando o assunto é investir e governar para o desenvolvimento econômico e social. Mesmo que, ali à frente, esteja uma eleição, e haja um candidato da oposição que colocará seu nome na placa. Lula, que não é otário, sabe o que o povo sabe.

Daí, neste ato simples de colocar acima da questão partidária e eleitoral, a política como promoção do Bem Comum, estar evidente a Democracia enquanto corpo afetivo. Fosse ela o boi de nosso exemplo primeiro, poderíamos assá-la e comê-la, pois que é real. Não sendo o boi, mas sendo a democracia, podemos sentir o quanto ela auxilia na modificação das nossas condições de existência. E até Arthur, que não é democrata, mas que se diz, deve à democracia do governo Lula, a sua eleição. Se ela vir a ocorrer, claro.

E você, eleitor? Seu voto é imagem, palavra ou objeto efetivo?

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