OS POLÍTICOS DO AMAZONAS E A DOR DO CORRUPTO

O buraco negro do Poder

O corrupto é sempre uma voz passiva. Não apenas no aspecto formal da língua, mas na relação que estabelece com os objetos.

Apassivado, ele não age. Reage. Estabelece uma fuga do mundo, mas não uma linha de fuga. Ao contrário, ele foge exatamente por ser incapaz de produzir a linha intensiva necessária à composição da rede do comum.

E não por não querer. Afinal, de qualquer forma, ele se relaciona. Mas cria um tipo de relação patológica, de uma fórmula que lhe devolve com intensidade a dor de um existir falseado, e que reproduz essa dor, na inoculação do outro. Corrompido, só lhe resta, dentro desta lógica, corromper.

O VAZIO DO PODER É O VAZIO DA POSSE

O trabalhador segura sua ferramenta. Com ela, é possível modificar a matéria, transformando o real e produzindo outros objetos, os quais, dentro de uma ordem coletiva, carrega uma utilidade, tem uma razão de ser.

Assim, uma sapato é o fruto do trabalho do sapateiro, e tem uma função: a proteção dos pés. Se me relaciono com uma utilidade, se meu corpo entra numa relação política com um objeto, funcionando a partir de sua utilidade, então me dissipo no mundo. Perco minha liberdade para recuperá-la em seguida, num plano coletivo. É assim que se constrói, por exemplo, uma comunidade de saberes e afetos. Quando os objetos assumem um utilitarismo que não é essencial, mas que se realiza num plano de sua utilidade para o Bem Comum. Até o dinheiro, nesse tipo de relação, é meio, é equivalente, e não carrega a chaga patológica do capital.

No entanto, há uma outra forma de relação com o objeto: a posse. Poder, aqui, equivale a ter a posse. Possuo um objeto. No capitalismo, possuir um objeto nada tem a ver com a sua utilidade. Coleciono carros, selos, quadros, objetos de arte, sapatos, e em nenhum momento eles estabelecem comigo uma relação de reciprocidade utilitária. Não coleciono carros pela sua utilidade, mas apenas porque aquele objeto, enquanto signo na semiótica do capital, me devolve também uma condição de “ser”. Como afirma o filósofo Jean Baudrillard, os objetos, nesse tipo de relação, são como um espelho, no qual o colecionador se mira, mas não vê a sua imagem real, mas aquela que deseja ver.

É aí que o “ser” é corrompido. Na abstração da função, o objeto perde o seu valor relacional, e o mundo desaparece. Resta o simulacro do Eu. Falseação que precisa de um duplo auto-engano para se produzir. Ao mesmo tempo, precisa da singularidade (não no sentido que Deleuze dá a essa palavra) do objeto, do seu caráter único, o seu aspecto modelar. O colecionador precisa ter aquele Van Gogh, por tudo o que aquele Van Gogh carrega como signo na sociedade do consumo. É único, irreproduzível, inimitável. Ao mesmo tempo, ele precisa da série. Porque o autoengano da singularidade do objeto não se sustenta para sempre. É preciso não apenas que ele possua aquele Van Gogh, o mais famoso, o mais representativo da genialidade do pintor, mas é igualmente importante que ele também adquira aquele outro quadro, considerado menor, e que enfim, um dia, ele encontre e possua toda a coleção Van Gogh. E mais: que ele viva na expectativa de que, em algum lugar do mundo, alguém um dia encontre perdido um outro quadro do pintor holandês, o qual ele, óbvio, terá de adquirir.

Tudo para confirmar o seu “ser” no espelho do simulacro do desejo na sociedade do consumo. Assim, o poder, a posse, é um círculo vazio, constantemente remetendo a uma imagem simulada, a qual, ao mesmo tempo em que ilude por um falso brilho singular, evidencia pelo lusco-fusco do desaparecimento.

AMAZONAS E A LÓGICA DE SEUS GOVERNANTES

Os governantes do Amazonas acreditam que a palavra corrupção se reduz à prática de subtração ilícita do erário ou patrimônio público. Ledo engano.

Basta olhar para as biografias dos principais ocupantes dos cargos públicos, nos últimos 40 anos, pelo menos, para perceber que o que tem predominado é o modo de existência corrompido.

O outro, o mundo, aparece para eles como abstrações, objetos que remetem ao engano da razão, a posse. Reza a lenda que o atual prefeito de Manaus (sub judice), Amazonino Mendes, teria dito certa feita, quando ainda era governador, que o Amazonas é a sua fazenda de burros. Se assim o disse ou não, isso não importa. O que interessa é evidenciar que a prática dele, na sua relação com todos os outros, aí incluídos os pretensos adversários, como Arthur, Serafim, Alfredo, é a da similaridade. São iguais, estão na mesma ordem lógica do existir, corrompidos porque a relação que estabelecem com o objeto não lhes permite transbordar o individual e se realizar na utilidade do mundo.

Presos ao objeto-mor da sociedade do consumo, o dinheiro, nada jamais lhes basta. O vazio do poder é também o vazio do ser, a alma jamais satisfeita, como o bêbado que afronta a garrafa ao estabelecer com ela uma relação espúria.

Para uma imagem ilustrativa, basta que o leitor pegue qualquer político profissional que já tenha passado pelos cargos do executivo manauara nas últimas décadas, substituindo o exemplo do colecionador dos quadros de Van Gogh, igualmente substituindo os quadros por outro objeto (o dinheiro), e entenderá porque, mesmo apesar de décadas de enriquecimento ilícito, eles continuam saindo das mansões para “apossar-se”.

Assim, a Braga, outro exemplo, é possível continuar contando com as benesses institucionais de quando era governador, e não porque tais benesses lhes são vantajosas, mas porque a relação é de dependência existencial. Sem essa falsa imagem que estes objetos lhe trazem, não é possível suportar o vazio.

O mesmo se dá com todos os outros, cujos exemplos estão aí, dioturnamente, no cotidiano do noticiário dito político.

Capturados pelo buraco negro do poder, não lhes é possível outra existência senão a da escravidão do abstraísmo dos objetos. Jamais se realizando como função, como utilidade, como comunidade, mas sempre na falseação, no falso brilho do modelo e da série.

E, talvez, por isso mesmo, num gesto de magnificência e não de todo desprovido de ironia, o povo os elege. E aí, na eleição, quando todos eles iludem-se numa espécie de transconsubstanciação do Mesmo nas várias chapas e candidaturas, o povo sorri, e mostra quem, na realidade, precisa de quem.

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