A PENA RETA DO CHARGISTA ACRÍTICO

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Diz-me com quem andas, e te direi quem és. O ditado popular, no caso do desenhista, pode ser adaptado para ‘mostras o teu desenho e te direi no que crês’.

O movimento cognitivo, de acordo com o filósofo Henri Bergson, se dá na sucessão de imagens que vêm à consciência. Uma espécie de déjà vu. Assim, se não houver emprego volitivo da razão e do desejo, a consciência se reproduzirá como mera reprodução imagética. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim… Quando na realidade jamais são os mesmos, e a duração, o passar do tempo, estão aí para evidenciar. Armadilha para a consciência capturada e domesticada. Nada de produção, nada de criação.

É o que aconteceu ao chargista do jornal A Crítica, na edição desta terça-feira, 01. A imagem mostra o presidente Lula segurando o acordo com o Irã, que está em chamas, e dizendo: “Vamos ver. É… Parece que este acordo com o Irã e a Turquia está um pouco quente”.

O chargista, mais que seus colegas de pena, deve ter a capacidade crítica e sintética de transformar o quadro social em uma imagem pictorial que, semiotica e semanticamente, permita ao leitor compreender rapidamente o que se passa. Evidenciar, como um caricaturista, aquilo que está subliminar. Só que no caso do caricaturista, o evidenciado são formas e traços do rosto, enquanto o chargista deve, em nome do humor, evidenciar aquilo que ao olhar escotomizado não é evidente. O riso é a confirmação do gestus social (Brecht), daquilo que é usual, mas que não pode passar como banal. Aí o chargista afirma sua função precípua. Fora disso, o próprio chargista se afirma como escotomizado.

Para piorar, além do desconhecimento demonstrado pelo chargista ‘acrítico’ do que ocorre em relação ao acordo entre o Irã e a AIEA (que se está “em chamas”, como ele pensa, o está por conta dos interesses econômicos de EUA e União Européia, que simplesmente não aparecem na charge), o próprio jornal desqualifica o desenho, ao destacar a frase da diplomacia turco-brasileira, de Lula, e colocar na seção sobe e desce o presidente Obama, que reagiu debilmente as verdadeiras chamas do oriente: o massacre cometido pelos israelenses cotidianamente, contra os palestinos, e desta feita, contra um comboio humanitário. Até a uma leitura mais superficial do jornal, fica evidente que a charge não ‘ornamenta’ o conteúdo, mas está ali apenas para cumprir função espacial: a banalidade do olhar.

Assim, a pena do chargista segue a linha reta da seriedade das imagens clichês, que interessam à manutenção de um estado de coisas onde se vê tudo, e não se enxerga nada. Nada do desvio, da pena torta que destoa e cria a turbulência necessária ao humor. Não há do que rir.

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