MORAL, CAPITAL SEXUAL E AS PULSEIRINHAS COLORIDAS

“O que você vai fazer depois do trabalho?” (Ator pornô, em pleno exercício da função, dando uma cantada na colega de cena, e marcando um encontro para depois do expediente).

Após um longo dia de gravações, onde os gemidos tomaram conta da sala, assim como os pênis de todos os orifícios usuais, um após o outro, e às vezes dois de uma vez, a atriz pornô, depois de cuidadosa toalete, vai para casa, onde tem uma tórrida noite de sexo com o namorado.

Sexo e sexualidade são coisas distintas. Enquanto o primeiro tem relação direta com uma estética da existência, autopoiética e endo-regulada, o segundo diz de um corpo instituído de saberes e dizeres, que determinam um discurso positivo de ordenamento das produções políticas desse corpo. Exógeno, portanto.

Daí se depreender que, enquanto o segundo é uma produção voltada para o domínio e o exercício do poder (potestas) por uma ordem normativa, o segundo é uma ameaça à esta ordem.

Daí, por exemplo, o sexo e suas manifestações terem sido alvo preferencial da doutrina católica apostólica romana e suas ramificações. Ou mesmo do discurso que o substituiu, a medicina, e mais precisamente, a psiquiatria. Quem não se lembra do rol de doenças que se poderia adquirir pelo simples ato de se masturbar?

AS PULSEIRINHAS “DO SEXO”

As chamadas “pulseiras do sexo” tomaram o noticiário policial dos telejornais, e virou pauta a alimentar programas televisivos de exploração da miséria moral e social, Brasil adentro.

São pulseiras de diversas cores, as quais “representam” formas diferentes de envolvimento sexual. Desde o abraço, beijo, até o sexo. Cada cor diz respeito a um comportamento. Ganha o “prêmio” quem conseguir arrebentar a pulseirinha do braço da/o garota/o desejada/o.

Celeuma, absurdo, sinal do fim dos tempos. Assunto que garante pelo menos dez edições de programas em canais evangélicos apocalípticos, sendo as próprias pulseiras um sinal de que este encontra-se cada vez mais próximo.

Dezenas de casos de estupros e abusos sexuais a menores de idade já foram registrados, em todo o país. Os casos já chegaram às páginas policiais e de cidades dos jornais amazonenses. Caso para psicólogos, professores, pedagogos e pais preocupados com o futuro dos filhos. Ou não?

UM CAPITAL SEXUAL

Submetido a uma ordem normativa, restará ao corpo obedecer passivamente? É o que prega uma espécie de capital sexual, que subordina as manifestações eróticas do corpo a um enquadramento semiótico. Desviar o caminho das relações, de modo a passarem por uma inevitável produção de mais-valia, ainda que esta mais-valia seja imaterial (valores, ideias).

No lugar dos jogos sexuais, um mercado da sexualidade. Ao invés do arrebatamento, uma submissão à ordem normativa. Ao invés da ação efetiva, uma reação apassivada. Nada de estético, nada de autopoiético. O desvio de uma produção, a predominância de uma ordem exógena. Ejaculação, e às vezes nem isso, ao invés do orgasmo.

Os jogos sexuais, a despeito da repressão, ocorriam de modo mais ou menos livre, e fazia parte da higiene psicossexual e do desenvolvimento, porque partiam de uma ordem relacional: era necessário que as partes efetivamente tivessem interesse e fizessem acontecer, para o bem ou para o mal, o acontecimento. Era preciso o envolvimento e o comprometimento das “partes”. Todo um jogo, que não existe sem a cumplicidade e sem a intencionalidade dos jogadores. Havia o arrebatamento, uma potência que carregava e modificava os corpos, envolvia-os num turbilhão de afetos, de sentidos, de sensações. Era o acontecimento. Nesse sentido, um acontecimento não ocorre por acaso. É preciso fazer rolar a pedra até o cume da montanha, se quiser vê-la rolar ladeira abaixo.

No mercado da sexualidade, o corpo é instado a produzir dentro de um ordenamento hierárquico, que salta dos produtos do sexo (pornografia e a parafernália normativa da sexualidade), e se deposita nas próprias relações. Pode o prazer se transformar em mais-valia, em um capital sexual?

Pode, e efetivamente ocorre. As crianças são expostas a uma sexualidade comercial, que não é prejudicial por ser imoral, mas por inseri-las numa moralidade castradora, donde o aprendizado do próprio corpo é interditado em nome de um discurso exógeno. A pedofilia é um sintoma da infantilização patológica e da sexualidade puerilizada. A publicidade sexualizada também é.

Na relação de produção do capital sexual, o gozo deixa de ser um fim em si para se transformar em meio. Assim como um objeto deixa de ter como premente o seu valor de uso para ser apenas um valor de troca no mercado dos produtos, o sexo tem menos uma função estética e de prazer do que de produção de lucro, através de mil produtos.

BEM MANDADOS

O caso das pulseiras do sexo, portanto, não é de polícia, mas de política. Trata-se de questionar o modelo produtivo no qual estamos inseridos, e do qual ninguém escapa.

No jogo do não-jogar das pulseirinhas, os participantes são autônomos, obedientes e bem hierarquizados, cumprindo apenas as determinações da sociedade do consumo. Nada de rebeldia ou de imoralidade. Tudo está dentro da codificação moral que bombardeia cotidianamente a consciência social.

Ao contrário do que pensa a inteligência acadêmica, nossos jovens não são insubordinados, amorais ou selvagens. Ao contrário, são obedientes, hierarquizados e disciplinados. Obedecem fielmente aos ditames sociais, que estão na propaganda, na tevê, no outdoor: Just Do It

E eles fazem. Sem questionar.

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Uma resposta para “MORAL, CAPITAL SEXUAL E AS PULSEIRINHAS COLORIDAS

  1. Ah, a humanidade. A eterna escrava humanidade.

    De um lado, uma ínfima elite ditando os comportamentos “aceitáveis” dentro da sociedade. Do outro, uma massa sem rosto, sem nome, apenas números, apenas peças mecânicas executando os comandos da central de controle.

    Como diz o artigo, assunto para programas evangélicos se apoiarem em sua crença no Apocalipse, na Revelação. Não há nada o que ser revelado. A verdade sempre esteve aí. Só nos cabe abrir os olhos.

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