SÃO JOSÉ FALA AO POLI DA ALEGRIA DOS 30 ANOS DO BAIRRO SÃO JOSÉ DE MANAUS

Este Poli, por suas andanças etílicas pelas ruas dos bairros de Manaus, encontrou o companheiro São José, tomando umas nas quebradas da zona leste, justamente quando se comemora 30 anos do Bairro São José, na cidade de Manaus. Dia também de festa para ele, São José. Conversamos, então, como velhos amigos que somos de conversas úmidas, sobre variados assuntos. Com a sua devida permissão, reproduzimos aqui, da conversa que tecemos, aquilo que lembramos.

POLI (muito alegre por encontrar figura tão fora do comum) — Festejando a festa do Bairro aqui em Manaus que lhe homenageou com o seu nome?

São José (rindo e tomando um trago suavemente) — É uma alegria encontrar vocês por aqui. Respondendo a sua pergunta, não estou festejando homenagem alguma. Não acredito nas relações capitalísticas hierárquicas que podem estabelecer uma ordem entre dominados e dominadores, como a homenagem consagra. Se este querido povo deste bairro me escolheu para seu nome, eles escolheram como nome próprio. Como nome de um operário, pai, lutador e alegre que sou. Eles são tudo isso.

Poli (tentando se deslocar da gafe) — Então bebe para comemorar a alegria de um povo que escolheu o nome para seu bairro o de um santo guerreiro?

São José (rindo alegremente) — Todo santo, para além das convenções dogmáticas teológicas da igreja católica, é um transgressor. Só é santo aquele que escolheu para sua existência a práxis da produção ontológica social de sua época. Assim, companheiros, como disse a alegria chamada Nietzsche: “todos os homens superiores, que eram irresistivelmente levados a romper o julgo de uma moralidade e instaurar novas leis não tiveram alternativa. Caso não fosse realmente loucos, senão tornar-se ou fazer-se de loucos — e isto vale para os inovadores em todos os campos, não apenas no da instituição sacerdotal e política”.

POLI (cientificamente) — É aí que podem dizer que tu foste guiado pelos sonhos?

São José (farsante) — não entendi!

POLI (em tentativa estúpida de explicação) — Dizem que o senhor não seguiu os desígnios divinos, mas seus sonhos. Seria Freudiano?

São José — Não, Freud não tem vez aqui. Já falei com ele e ele sabe bem disso. A questão é de sonhos como multiplicidades. Tive quatro sonhos. E em todos os quatros os bairros estão neles.

POLI (ignorantemente) — Como assim, bairros?

São José (pedindo afetivamente um copo com azeitonas e palitos, para tira gosto) — Valeu! Sim, bairros! Santa Catarina, São Paulo, Recife, Paraíba, Belo Horizonte e várias outras cidades têm bairros com o meu homólogo. Isto aqui no Brasil.

Poli — E a parada dos sonhos com relação ao bairro aqui de Manaus?

São José (retomando o pensamento e sorrindo enquanto palita os dentes) — Vou contar para vocês. O primeiro foi quando o anjo do Cara disse para eu não ter receio em receber Maria por ela está grávida do Espírito Santo. Preste atenção! Só conheci Maria quando ela deu à luz a Jesus. Sem Mistério algum, o que aconteceu foi bom e simples. Não tive a preocupação de ser tachado como corno, marido traído. A questão é comunitária. Receber e ser recebido na alegria de um novo nascimento no mundo. Quando o são José nasce aqui em Manaus são várias famílias que vem para cá para produzir, criar e desenvolver uma nova vida. Seus desejos vão movimentar suas produções. São pobres. Uns recebem os outros solidariamente. Eles são a alegria do mundo. Depois no São José…

Poli (curioso e tomando um trago) — Podemos falar disso depois. Fale do segundo sonho.

São José (passando a mão em um gato que se esfrega em sua perna) Sim. Este foi barra. Eu já estava estabelecido efetivando a minha função, com uma família, quando o anjo disse para eu fugir para o Egito que Herodes queria matar o menino Jesus. Puta que Pariu! Que barra! Herodes matou muita criança. Eu consegui fugir, mas não esqueci os gritos das outras crianças. É este o lance com o bairro. Todas as suas crianças tem que ser responsabilidade de todos. No início é bem assim. Uma grande comunidade, mas, infelizmente, os interesses individuais estão cada vez mais se adequando aos interesses globais de uma política e economia perversa. Aí, um egoísmo racional prevalece. Mas isto para todos os bairros do mundo.

Poli (sentindo a ambiência se alterar) — É barra mesmo. Conta aí o outro.

São José (segurando a parada) — Legal. São mais dois. Uma mistura de alívio com necessidade. Fui avisado pelo anjo para sair do Egito e voltar para onde estava. Mas agora quem reinava lá era Arquelau, filho de Herodes, então o anjo avisou de novo para eu ir para a Galiléia. Mais uma vez a parada é não ficar passivo a estas ações. Tinha filho, esposa, mas podia ter ido lutar contra aquele regime autoritário de Herodes e que agora era de seu filho. Todo bairro tem que manter seus moradores unidos por laços de solidariedade que os fazem produzir atos revolucionários, mudando toda a realidade e estrutura das suas ruas e das famílias que ali vivem. Cara sei disso agora. Mas tinha a responsabilidade de cuidar do menino Jesus. Aí…

Poli (aproveitando a oportunidade) — É aí que entra a tua importância como pai?

São José (passando a mão nas longas barbas brancas) — Talvez sim. Mas aí tem um problema. O lance de ser pai, não é apenas cuidar do seu filho. É também compreender que este filho pode e vai, com todo o direito a fazê-lo, produzir uma existência própria. E às vezes ele vai mais além dos pais. Ficam maiores e passam a ser os seus mestres, em uma inversão das funções familiares. Foi o caso do menino Jesus. Menino porreta! Sempre presente e atento a Terra. Com as coisas daqui.

Poli (querendo abafar) — É aí que Jesus nos diz que Deus é imanente?

São José (em um corte, gargalhando gostosamente) — Ora! Deus sempre foi imanente. Ele existe dentro de nós, em nossas ações, em nossa fé. O que ainda não sacaram, como a outra alegria chamada Spinoza já tinha sacado, é que o lance é a materialidade de Deus (e aí, aqui acrescento por conta própria: a materialidade dos ensinamentos do menino Jesus)em comportamentos religiosos como força produtiva principal para uma transformação ética e política do mundo.

Poli — E os santos são então imanentes também?

São José (Pensativo) — Gostei. Não tenho transcendência alguma, mesmo. Nem eu nem nenhum santo. Lembro muito do companheiro São Francisco. Militante, político. Como ele pode ser transcendência? Não há como.

Poli — E a Igreja?

São José (olhando para todos em volta do bar) — Aqui! Somos nós e nossas ações e atitudes. Tudo começa pela Terra e percorre a Terra para modificar a Terra.

Poli (Satisfeito por ter tido a oportunidade de conversar com São José) — para terminar por enquanto, fala sobre o crescimento comercial do teu bairro homólogo aqui em Manaus.

São José (pedindo a conta, que foi dividida) — Olha, o que acontece no São José é a evidência de que os comerciantes sabem onde fica a verdadeira movimentação financeira. Eles não são como economistas mitificados que acreditam que esta movimentação esteja no abstrato, fora do real. É onde existe as pessoas verdadeiras com as suas necessidades verdadeiras, produzindo com os seus desejos, é lá onde tudo se movimenta, até a grana. O São José é um grande mercado, ou seja, um ponto de encontro.

Poli (abraçando e sendo abraçado por São José) — Valeu!

São José (lembrando) — Olha! Como tá lá no Evangelho apócrifo na parte da História de José o carpinteiro, capítulo XXX, n. 3, escrito entre os séculos IV e V no Egito, “Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Sopro de meu Pai, isto é, o Espírito Paráclito, e quando fordes enviados a pregar o evangelho, pregai também a respeito de meu pai José.” Falou Moçada!

Intempestivamente: o encontro com São José não se deu em nenhum lugar da superstição ou de uma consciência mitificada e mistificada. O encontro aconteceu como todos ao outros encontros: nos acasos da existência. E com amor conversamos todos.

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