Jean Baudrillard – Big Brother: Telemorfose e Criação de Poeira (Parte 2/5)

BIG BROTHER: Telemorfose e Criação de Poeira

Jean Baudrillard

(Parte 2/5)

Fotografia de Man Ray Duplo contra-senso:

– Fazer da própria sexualidade a referência última. Recalcada ou manifesta, a sexualidade não é mais do que uma hipótese e, como tal, é falso fazer dela uma verdade e uma referência. A hipótese sexual só pode ser uma fantasia e, de qualquer maneira, foi no recalcamento que a sexualidade obteve essa aura de atrator estranho; manifesta, perde até mesmo essa qualidade potencial.

– Daí o contra-senso e o absurdo da passagem ao ato e de uma “liberação” sistemática do sexo: não se libera uma hipótese. Quanto a fazer a prova do sexo pelo sexo, que tristeza! Como se tudo não estivesse no movimento, no desvio, na transferência, na metáfora – tudo está no filtro da sedução, no desvio, não no sexo e no desejo, mas no jogo com o sexo e com o desejo. É isso que torna impossível a operação do sexo “ao vivo”, assim como da morte ao vivo ou do acontecimento ao vivo no noticiário – tudo isso é incrivelmente naturalista; pretensão de fazer tudo advir ao mundo real, de tudo precipitar numa realidade integral. De algum modo, isso é a própria essência do poder. “A corrupção do poder consiste em fixar no real tudo que era da ordem do sonho…”.

A chave é dada por Jacques Henric na sua concepção da imagem e da fotografia: inútil esconder o rosto, nossa curiosidade em relação às imagens é sempre de ordem sexual – tudo que aí buscamos é, enfim, o sexo, especialmente o sexo feminino. Não é somente a Origem do Mundo (Courbet), mas a origem de todas as imagens. Portanto, vamos a ele sem desvios; fotografemos só isso, obedeçamos, sem entraves, à nossa pulsão scópica. Esse é o princípio de uma “realerotik”, da qual o acting-out copulativo perpétuo de Catherine Millet é o equivalente para o corpo; dado que, no final das contas, todo o mundo sonha com o uso sexual ilimitado do corpo, passemos, sem delongas, à execução do programa.

Nada mais de sedução, nada mais de desejo, nada mais até mesmo de gozo, tudo está aí, numa acumulação em que a quantidade desconfia, acima de tudo, da qualidade. Sedução perdida por decurso de prazo. A única questão a ser posta é a que se murmura no ouvido de uma Man Ray, O Presente, 1921 mulher durante uma orgia: “What are you doing after the orgy?” Mas é inútil pois para ela não existe um além da orgia. Está, em realidade, além do fim, onde todos os processos tomam uma dimensão exponencial e só podem duplicar-se indefinidamente.

Assim, para Jarry, no Supermacho, uma vez atingido o limite crítico no sexo, pode-se praticá-lo indefinidamente; é o estágio automático da máquina sexual. Quando o sexo não passa de um sexprocessing, torna-se transposto e exponencial. Não atinge, porém, o seu objetivo, que seria de esgotar o sexo, de ir ao cabo do seu exercício. É evidentemente impossível. Essa impossibilidade é tudo o que resta de uma vingança da sedução, ou da própria sexualidade, contra os seus operadores sem escrúpulos – sem escrúpulos por eles mesmos, pelo próprio desejo e pelo próprio prazer deles.

“Pensar como uma mulher tira o vestido”, diz Bataille. Sim, mas a ingenuidade de todas as Catherine Millet está em pensar que se tira o vestido para despir-se, para ficar nua e assim ter acesso à verdade nua do sexo ou do mundo. Se alguém tira o vestido é para aparecer – não aparecer nua como a verdade (quem pode acreditar que a verdade continua a ser verdade quando o seu véu é retirado?), mas para nascer no reino das aparências, ou seja, da sedução – o que é justamente o oposto.

Contra-senso total dessa visão moderna e desencantada que considera o corpo como um objeto que só espera ser desvestido e o sexo como um desejo que só espera passar ao ato e gozar. Ora, todas as culturas da máscara, do véu e do ornamento indicam exatamente o contrário: o corpo é uma metáfora e o verdadeiro objeto do desejo e do gozo são os signos, as marcas que o arrancam da sua nudez, da sua naturalidade, da sua “verdade”, da realidade integral de seu ser físico. Por toda a parte, é a sedução que arranca as coisas da verdade delas (inclusive da verdade sexual). Se a reflexão tira o vestido, não é para se mostrar nua nem para desvelar o segredo do que, até então, estaria escondido, mas para mostrar esse corpo como definitivamente enigmático, secreto, como objeto puro, cujo segredo nunca será revelado nem pode ser.

Nessas condições, a mulher afegã de burka, a mulher de olhos cobertos por uma tela, na capa de Elle, apresenta-se como uma figura alternativa brilhante à virgem louca de Catherine Millet. O excesso de segredo contra o excesso de impudor. De resto, esse impudor mesmo, essa obscenidade radical (como a de Big Brother), ainda é um véu, o último dos véus – inultrapassável, o que se interpõe quando pensamos tê-los rasgados todos. Pretendíamos ter chegado ao pior, ao paroxismo da exibição, ao desnudamento total, à realidade absoluta, ao direto e ao esfolado ao vivo – nunca se chega lá. Nada a fazer – o muro doMontagem de Man Ray obsceno é intransponível. Paradoxalmente essa busca perdida faz ainda mais ressurgir a questão fundamental do sublime, do segredo, da sedução, a mesma que se persegue até a morte na sucessão de véus rasgados.

Por que não adotar a hipótese, inversa à do voyeurismo e da estupidez coletiva, de que as pessoas – nós todos – buscam, chocando-se com o muro do obsceno, pressentir que, justamente, não há nada para ver? Como não se conhecerá jamais a última palavra, haveria assim uma verificação, a contrário, do derradeiro poder da sedução? Verificação desesperada, mas o experimental é sempre desesperado. Big Brother pretende demonstrar que o ser humano é um ser social – mas isso não é garantido. Catherine Millet pretende verificar, com suas experimentações, as próprias condições da experimentação, levadas simplesmente ao limite. O sistema decodifica-se melhor pelas suas extravagâncias, mas é o mesmo por toda a parte. A crueldade é a mesma por toda a parte. Tudo isso se resume, finalmente, para retomar Duchamp, a uma “criação de poeira”.

Telemorfose

Big Brother tem três problemas: há o que acontece na casa, totalmente sem interesse; em contradição com essa insignificância, há o imenso fascínio que ela exerce. Mas esse próprio fascínio é objeto de fascinação pelo olhar crítico. Em tudo isso, onde está o acontecimento original? Não há. Só resta esse misterioso contágio, essa cadeia viral que funciona de uma ponta a outra, da qual somos cúmplices na análise. Inútil invocar todos os tipos de dados econômicos, políticos, publicitários – o mercado é o mercado e os próprios comentários fazem todos parte do mercado cultural e ideológico. O efeito de massa está além da manipulação e não se mede pelas causas. Isso o torna fascinante, como tudo o que resiste à inteligência.

Primeira hipótese: se a audiência é tal, não é apesar da debilidade, mas graças à debilidade e à mediocridade do espetáculo. Isso parece indiscutível. Mas aqui se abrem duas possibilidades, talvez não excludentes. Ou os espectadores mergulham na nulidade do espetáculo e gozam com essa imagem, lipoaspirada para a circunstância, ou então eles gozam por sentir-se menos idiotas que o espetáculo – e por isso nunca se cansam de olhá-lo. Talvez seja, de fato, uma estratégia da mídia: oferecer espetáculos cada vez mais medíocres que a realidade – hiper-reais na debilidade -, dando aos espectadores uma possibilidade diferencial de satisfação. Hipótese sedutora, mas que supõe muita imaginação de parte dos programadores.

(Continua…)

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