LITERAMUNDO: Big Brother – Telemorfose e Criação de Poeira

Enuncia:

BIG BROTHER: Telemorfose e Criação de Poeira

Jean Baudrillard

(Parte 1/5).

Monociclo Invertido, de Marcel Duchamp TODA A NOSSA REALIDADE tornou-se experimental. Na ausência de destino, o homem moderno está entregue a uma experimentação sem limites sobre si mesmo.

Dois exemplos recentes disso são Big Brother, ilusão midiática do real ao vivo, e Catherine Millet, ilusão fantasmática do sexo ao vivo (1).

Big Brother tornou-se um conceito uni ver sal, uma síntese de parque humano de atrações, de gueto, de quarto fechado e de Anjo Exterminador. A reclusão voluntária como laboratório de uma convivência sintética, de uma socialidade telegeneticamente modificada.

Quando tudo é mostrado (como no Big Brother e nos realitys shows), percebe-se que não há nada mais para se ver. É o espelho da superficialidade, do grau zero, por meio do qual se prova, em oposição a todos os objetivos, o desaparecimento do outro e talvez até que o ser humano não é essencialmente um ser social. Tem-se o equivalente de um ready-made – transposição literal do everyday life, ele próprio manipulado por todos os modelos dominantes. Banalidade sintética, fabricada em circuito fechado e com painel de controle.

Nisso, o microcosmo artificial do Big Brother parece-se com a Disneyland, que dá a ilusão de um mundo real, de um mundo externo, sendo que os dois correspondem exatamente à imagem um do outro. Os Estados Unidos inteiro são a Disneyland; todos nós estamos no Big Brother. Não é preciso entrar no duplo virtual da realidade, pois já estamos nele – o universal televisivo não passa de um detalhe holográfico da realidade global. Até em nossa existência mais cotidiana já estamos em situação de realidade experimental. É daí que vem o fascínio, por imersão e por interatividade espontânea.

Trata-se de voyeurismo pornô? Não. Há sexo por toda a parte, mas não é isso que as pessoas querem. Profundamente, desejam o espetáculo da banalidade, que é a verdadeira pornografia de hoje, a verdadeira obscenidade – a da mediocridade, da insignificância e da superficialidade. Extremo oposto do Teatro da Crueldade. Mas talvez haja aí uma forma de crueldade, ao menos, virtual. Na hora em que a televisão e a mídia são cada vez menos capazes de dar conta dos acontecimentos (insuportáveis) do mundo, elas descobrem a vida cotidiana, a banalidade existencial como o acontecimento mais mortífero, como a atualidade mais violenta, como o próprio local do crime perfeito. E, de fato, ela o é. As pessoas estão fascinadas, fascinadas e aterrorizadas pela indiferença do Nada a dizer, Nada a fazer; pela indiferença das suas próprias existências. A contemplação do Crime Perfeito, da banalidade como novo rosto da fatalidade, tornou-se uma verdadeira disciplina olímpica ou o último avatar dos esportes radicais.

Tudo isso reforçado com a mobilização do próprio público como juiz, pela sua transformação em Big Brother. Estamos além do panóptico, da visibilidade como fonte de poder e de controle. Não se trata mais de tornar as coisas visíveis a um olho exterior, mas de torná-las transparentes para elas mesmas, através de perfusão do controle na massa, apagando com isso os rastros da operação. Assim, os espectadores são envolvidos numa gigantesca contratransferência negativa sobre eles próprios e, mais uma vez, daí vem a atração vertiginosa desse gênero de espetáculo.

No fundo, tudo isso corresponde ao direito e ao desejo imprescritíveis de não ser Nada e de ser visto como tal. Há duas maneiras de desaparecer: ou se exige não ser visto (problemática atual do direito à imagem) ou se descamba para o exibicionismo delirante da própria mediocridade. O indivíduo faz-se medíocre para ser visto e contemplado como medíocre – última proteção contra a necessidade de existir e contra a obrigação de ser alguém.

Daí a exigência contraditória e simultânea de não ser visto e estarFotografia de Chema Madoz. permanentemente visível. Todo o mundo atua, ao mesmo tempo, em dois campos e nenhuma ética nem legislação pode resolver os dilemas do direito incondicional de ver e de não ser visto. O máximo de informação faz parte dos direitos do homem; logo a visibilidade forçada também, a superexposição às luzes da informação.

A expressão de si como última forma de confissão, da qual falava Foucault, está aí. Não se deve guardar nenhum segredo. Falar, falar, comunicar incansavelmente. Tal é a violência praticada contra o ser singular e contra o seu mistério. É, ao mesmo tempo, uma violência contra a linguagem, pois esta, a partir disso, também perde a originalidade, não sendo mais do que médium, operador da visibilidade, perdendo toda a dimensão irônica ou simbólica – que torna a linguagem mais importante do que sobre o que se fala.

Pior, nessa obscenidade, nesse impudor, é a partilha forçada, essa cumplicidade automática do espectador, efeito de uma verdadeira chantagem. Este é o objetivo mais claro da operação: o servilismo das vítimas, mas a servidão voluntária das vítimas que gozam com o mal que lhes é feito, com a vergonha que lhes é imposta. Toda uma sociedade partilha um mecanismo fundamental: a exclusão interativa – é o cúmulo! -, decidida em comum, consumida com entusiasmo.

Se tudo termina na visibilidade, a forma – como o calor na teoria da energia – mais degradada da existência, o ponto crucial, entretanto, é conseguir fazer dessa parte do todo um espaço simbólico, e dessa parte de desencantamento da vida um objeto de contemplação, de estupefação e de desejo perverso. “A humanidade que, outrora, com Homero, fora objeto de contemplação pelos deuses do Olimpo, o é agora para si mesma. A alienação de si mesma atingiu um grau que lhe faz viver a sua própria destruição como uma sensação estética de primeira ordem”. (Walter Benjamin).

O experimental toma, assim, por toda a parte o lugar do real e do imaginário. Por tudo, os protocolos da ciência e da verificação são-nos inoculados; estamos dissecando, em vivissecção, sob o escalpelo da câmara, a dimensão relacional e social, fora de qualquer linguagem e contexto simbólico. Catherine Millet também é experimental – outro tipo de vivisexão: todo o imaginário da sexualidade é varrido, só restando um protocolo em forma de verificação ilimitada do funcionamento sexual, um mecanismo que, no fundo, nada mais tem de sexual.

(1). Big Brother foi intitulado na França Loft Story. Catherine Millet escreveu o best-seller La Vie sexuelle de Catherine M. (N.T.).

(continua…)

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