MARX, OS COMUNISTAS DO AMAZONAS E A FARINHA DO MEU PIRÃO

Em Manaus, terra do jaraqui com farinha, anda faltando os dois na mesa do trabalhador. O primeiro, por estar no defeso. Já o quilo da farinha do uarini, o tipo preferido dos paladares amazônicos, chegou esta semana, em alguns lugares, a R$ 8,50 o quilo (quase alcançando o sul maravilha!). Não se compra o alimento preferido de 110 em 109 manauenses pro menos de sete reais, nem mesmo na banquinha do seu Valdeci, na Branco e Silva, Santa Luzia. E agora, camarada Eron?

Bem, a secretaria estadual de produção rural, decantada em verso eEssa vale ouro! prosa, e auto-homenageada até com peça de teatro (perdão, Dionísio! perdão, Brecht!) tem afirmado que o problema decorre da pouca oferta, causada pelas cheias em toda a região produtora, tanto no Amazonas como no Pará (que é de onde vem a maioria da farinha que você, xenofóbico, come).

Mas como este Poli come jaraqui no escuro e não se engasga, desconfiado que é, foi procurar razões mais materiais e menos metafísicas do que culpar a natureza.

Como o secretário da Sepror, camarada Eron, se diz comunista, o Poli entrou mais uma vez em contato com o limbo infernal, e desta vez nem precisou de Virgílio para encontrar o Sapo Barbudo original, aquele que, séculos depois, ainda mete medo na burguesia, Karl Marx. Karl estava às gargalhadas com alguns amigos, lembrando que Das Kapital tem vendido como água pelas bandas da Europa. Tranquilo, sarcástico como sempre, deu-nos uma entrevista explicando com se dá a determinação do preço de uma mercadoria. 

PolivoCidade – Companheiro Carlos, explica aí pra gente, como é que pinta o preço de uma mercadoria?

Marx – É a concorrência entre compradores e vendedores, a relação entre a procura e aquilo que se fornece, a oferta e a procura.

Poli – Lei da procura e da oferta? Aquela mesma cantada pelo rival do Nunes Filho, o Abílio Farias? Concorrência? Simples assim?

Marx (Dá um sorriso sarcástico) – A concorrência, que determina o preço de uma mercadoria, apresenta três aspectos. Há uma concorrência entre os vendedores, que faz baixar o preço das mercadorias oferecidas por eles. Mas há também uma concorrência entre os compradores que, por seu lado, faz subir o preço das mercadorias oferecidas. E há, finalmente, uma concorrência entre os compradores e vendedores: uns querem comprar o mais barato possível; outros, vender o mais caro possível. O resultado dessa concorrência entre compradores e vendedores dependerá da relação existente entre os dois lados da concorrência que falamos antes, isto é, dependerá de a concorrência ser mais forte no exército dos compradores ou no exército dos vendedores.

Poli – Sacamos. Mas se é a oscilação entre a oferta e a procura que determina o preço das mercadorias, o que é que determina a relação entre a oferta e a procura? Como funciona?

Marx (Coçando a barriga) – Dirijamo-nos ao primeiro burguês que nos apareça. Ele dirá: ‘se a produção da mercadoria que vendo me custou 100 reais e se faço 110 reais com a venda dessa mercadoria – no prazo de um ano, entenda-se – esse lucro é um lucro correto, honesto e legítimo. Mas, se receber, na troca, 120 ou 130 reais, é um lucro elevado; se eu fizer 200 reais, será então um lucro extraordinário, enorme’. Que é que serve, portanto, ao burguês, para medir seu lucro? Os custos de produção de sua mercadoria.

Poli – Deixa agora a gente citar um exemplo: lá em Manaus, o secretário de produção rural disse que a farinha tá cara porque a cheia não deixou o caboco plantar. Isso em pleno século XXI. Os aspectos estruturais (sol, chuva, estradas, condições de armazenamento, tecnologias envolvidas, etc) fazem parte dessa relação que determina o custo de produção da mercadoria. Está certo então o comunista e agrônomo Eron em culpar a cheia pelo fato do caboco tá comendo farinha como se comesse ouro?

Marx (dando uma risada sagaz) – Os economistas dizem que o preço médio das mercadorias é igual aos custos de produção: que isso é a lei. Consideram como obra do acaso o movimento anárquico em que a alta é compensada pela baixa e a baixa pela alta. Com o mesmo direito, poderíamos considerar as oscilações como a lei e a determinação pelos custos de produção como obra do acaso. Mas são precisamente essas oscilações que, consideradas mais de perto, provocam as mais terríveis devastações e, como um terremoto, abalam a sociedade burguesa nos seus alicerces: são exclusivamente essas oscilações que, no seu curso, determinam o preço pelos custos de produção. O movimento global dessa desordem é a sua ordem.

Poli – Há então uma lógica que determina essa subida de preço, para além das costas largas da cheia, e que o secretário não entendeu. Ao observar mais de perto, como tu dizes, essa oscilação do preço da farinha, bem como de outras produções econômicas do Amazonas, percebemos que o problema não é natural, mas humano. Falta de investimentos e de visão empreendedora dos governos anteriores e do atual, do terceiro ciclo ao fantasioso zona franca verde. A economia, a agricultura não são contrárias à natureza. Ao contrário, as primeiras são uma composição laborativa do homem com a segunda. Mas Manaus continua comendo seu arroz, sua farinha, seu cheiro-verde, seu tomate, sua cebola, pimentão e até muitos peixes, tudo produzido fora daqui. A logística para trazer de outros estados funciona, mas para trazer do interior para a capital, não. Mas a responsabilidade dessa oscilação perversa, que pune tanto um como o outro, nunca é dos governantes. Carlos, nosso camarada, esse pessoal não te leu não? É comunista só na carteirinha do PCdoB?

Marx – Como diz meu amigo Engels, nestes casos, adoro citar uma frase de Hine, se referindo a seus imitadores: “Semeei dragões, e colhi pulgas!”.

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As frases de Marx foram psicografadas do artigo Trabalho Assalariado e Capital, em versão da editora Expressão Popular. Recomendadíssimo!

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