LITERAMUNDO: O SACERDOTE DO TEMPLO DE SHIGA E O SEU AMOR – PARTE 4/5

O SACERDOTE DO TEMPLO DE SHIGA E O SEU AMOR

Yukio Mishima

(Parte 4/5).

O Grande Sacerdote encontrou um novo prazer em adornar de varias maneiras a sua visão da senhora, como se estivesse a adornar uma estatua de Buda com diademas e baldaquinos. Ao fazê-lo, transformava o objeto do seu amor num ser cada vez mais resplandecente, distante e impossível; e isso dava-lhe uma especial felicidade. Mas porquê? Seria certamente mais natural para ele olhar a Concubina Imperial como uma vulgar fêmea, próxima de si, e possuidora das comuns fragilidades humanas. Deste modo, poderia mais facilmente voltar-se contra ela em vantagem, ao menos na sua imaginação.

Enquanto ponderava esta questão, a verdade apresentou-se a sua frente. O que ele estava a desenhar na Concubina Imperial não era uma criatura de carne nem uma mera visão, mas um símbolo da realidade, um símbolo da essência das coisas. Era, de fato, estranho perseguir essa essência na figura de uma mulher. Mas a causa disso não era difícil de perceber. Mesmo apaixonado, o Grande Sacerdote de Shiga não se tinha afastado do habito, para o qual se treinara durante os seus longos anos de contemplação, de procurar aproximar-se da essência das coisas pela constante abstração. A Grande Concubina Imperial de Kyogoku tinha-se uniformizado com a sua visão do imenso lótus de duzentos e cinqüenta yojana. Ao reclinar-se na água suportada por todas as flores do lótus, tinha-se tornado mais vasta que o monte Sumeru, mais vasta que um reino inteiro.

Quanto mais o Grande Sacerdote dirigia o seu amor para algo impossível, mais profundamente traía o Buda Pois a impossibilidade desse amor tinha-se ligado impossibilidade de atingir a iluminação. Quanto mais pensava no seu amor como um amor impossível, mai firmemente, crescia a fantasia que o suportava e mais profundamente arraigados se tornavam os seus pensamentos impuros. Enquanto olhasse para o seu amor como sendo, ainda que remotamente, realizável, ainda lhe era paradoxalmente, possível resignar-se; mas agora que a Grande Concubina se tinha tornado uma criatura fabulosa e totalmente inatingível, o amor do sacerdote tornou-se imutável, como um grande lago estagnado que firme e obstinadamente, cobrisse a superfície da terra.

Esperava poder voltar a ver o rosto da senhora, todavia temia que, quando a visse, aquela expressão, que era agora como uma gigante flor de lótus, se desmoronasse completamente. Se isso acontecesse, ele seria, sem qualquer duvida, salvo. Sim, se isso acontecesse, ele haveria de atingir a iluminação. E a própria perspectiva enchia o Grande Sacerdote de angustia e temor.

O solitário amor do sacerdote começava a projetar estranhos e enganadores laços, e quando por fim tomou decisão de ir ver a senhora, teve a impressão de que quase tinha recuperado da doença que lhe secava o corpo. No meio da sua confusão, o sacerdote chegou a tomar alegria que acompanhou a sua decisão pelo alivio de ter finalmente escapado das garras daquele amor.

Nenhuma das pessoas que rodeavam a Grande Concubina achou particularmente estranha a visão de um velho sacerdote, silencioso, de pé, num canto do jardim, apoiado numa bengala e olhando sombriamente para a residência. Os ascetas e os pedintes costumavam parar a porta das casas importantes da Capital, aguardando por esmolas. Uma das empregadas mencionou o caso a sua senhora. A Grande Concubina Imperial olhou casualmente através da persiana que a separava do jardim. Ali, na sombra da fresca folhagem verde, estava um velho sacerdote emurchecido, com um fato preto desbotado e a cabeça inclinada. A senhora olhou para e durante algum tempo. Quando percebeu que ele era, sem sombra de duvida, o sacerdote que avistara ao pé do lago em Shiga, a sua face pálida ficou ainda mais pálida.

Depois de uns momentos de indecisão, deu ordens para que a presença do sacerdote no jardim fosse ignorada. Os seus servos inclinaram a cabeça e retiraram-se.

Pela primeira vez, a senhora sentia-se prisioneira do desassossego. Tinha visto, durante a sua vida, muita pessoas que tinham abandonado o mundo, mas nunca olhara para uma pessoa que tivesse abandonado a vida futura. A visão era sinistra e inexplicavelmente assustadora. Todo o prazer que a sua imaginação tinha retirado da ideia do amor do sacerdote desapareceu de repente. Por muito que tivesse desistido da vida futura por causa dela, essa vida, compreendia-o agora, nunca passaria para as suas mãos.

A Grande Concubina Imperial olhou para as sua roupas elegantes e para as suas finas mãos, e olhou em seguida para o jardim, para as feições deselegantes do velho sacerdote e para as suas roupas andrajosas. O fato de haver uma conexão entre eles gerava um horrível fascínio.

Que diferente tudo isto era da visão esplendorosa! O Grande Sacerdote parecia agora uma pessoa saída, a coxear, do próprio Inferno. Nada restava daquele homem de presença virtuosa que arrastava atrás de si o brilho do Paraíso. Tinha desaparecido completamente o brilho que residia no seu interior e fazia vir ao espírito a gloria do Paraíso. Embora este fosse sem duvida o homem que estava de pé à beira do lago Shiga, era, ao mesmo tempo uma pessoa completamente diferente.

Como a maioria das pessoas da Corte, a Grande Concubina Imperial procurava estar de sobreaviso em relação às suas próprias emoções, especialmente quando era confrontada com alguma coisa que poderia afetá-la profundamente. Ao tomar contato, deste modo, com a evidencia do amor do Grande Sacerdote, sentiu-se desalentada ao pensar que a paixão consumidora com que tinha sonhado durante todos estes anos pudesse assumir uma forma tão descolorida.

Quando o sacerdote entrou, finalmente, a coxear na Capital, apoiado na sua bengala, quase tinha esquecido o seu cansaço Caminhou em segredo para a residência da Grande Concubina Imperial e olhou para o fundo do jardim. Por trás daquelas persianas, estava nada mais nada menos do que a mulher que ele amava.

Agora que a sua adoração tinha assumido uma forma imaculada, a vida futura recomeçava a exercer os seus encantos sobre o Grande Sacerdote. Nunca antes tinha visto o Paraíso de um ponto de vista tão imaculado e pungente. O seu desejo por ele tornou-se quase sensual. Não lhe faltava nada a não ser a formalidade de ver a Grande Concubina, de lhe declarar o seu amor, afastando-se desse modo, de uma vez por todas, dos pensamentos impuros que o tinham prendido a este mundo e que ainda o impediam de atingir o Paraíso. Só lhe faltava fazer isso.

Era penoso para ele estar ali de pé, apoiando o seu velho corpo na bengala. Os raios brilhantes do sol de Maio passavam por entre as folhas das árvores e batiam-lhe em cheio na cabeça calva. Estava constantemente a sentir que ia perder a consciência, e, sem a bengala, já teria certamente caído. Se ao menos a senhora compreendesse a situação e o convidasse a ir à sua presença, para que ele pudesse cumprir a formalidade! O Grande Sacerdote esperou. Esperou e apoiou na bengala a sua fadiga crescente. O sol foi ficando coberto pelas sombras da noite. Começou a escurecer. Contudo, a Grande Concubina Imperial continuava a não dar sinal de si.

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