À ESPERA DOS BÁRBAROS: A XENOFOBIA COMO EFEITO DA APATIA SOCIAL DAS INSTITUIÇÕES

* E que vem a ser esta repentina inquietação, esta desordem?
(Que caras tão sérias tem hoje o povo.)
Porque é que as ruas e as praças vão ficando vazias
e regressam todos, tão pensativos, a suas casas?
É porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E da fronteira chegou gente
dizendo que os bárbaros já não vêm.
E agora que será de nós sem bárbaros?
De certo modo, essa gente era uma solução.

O preconceito e a discriminação são fruto da privação. Interdição na produção ético-estética, dos modos de existir e se expressar. Interrupção, corte no fluxo produtivo, tem como resultado uma força que não é ativa, mas reativa, cuja tendência na correlação de forças é a imobilidade.

A crise econômica do início do século XX, aliada à forte presença de imigrantes criou na Alemanha as condições necessárias à forças reativas, que emergiram no plano político com a chegada da extrema direita ao poder. Daí ao extermínio de tudo o que carrega o signo da diferença, foi um pulo.

No Amazonas, cuja economia é mantida por força de um truque de prestidigitação – o Pólo Industrial de Manaus – que simula uma produção, quando na realidade o fluxo de capitais passa longe da cidade, a estagnação política e econômica também cria condições para que forças reacionárias possam aparecer.

Fato é que, diante da imigração, principalmente de paraenses e maranhenses, a xenofobia tem crescido. Os imigrantes, ao mesmo tempo em que carregam rastros da semiótica cultural de sua origem, também encontram na cidade em que chegam outras territorialidades, outros possíveis. E em Manaus, essa migração norte-nortista tem se mostrado economicamente frutífera. Um exemplo é a Avenida Grande Circular, na chamada Zona Leste. Enquanto essa zona da cidade povoa o imaginário da classe média xenofóbica como sendo o depositário da chamada ralé, pelas mãos do comércio desta avenida passam, diariamente, milhões de reais. Uma economia pujante que não é totalmente dependente das indústrias do PIM. Igualmente, esses imigrantes carregam uma força cultural, trazida da sua experiência de vida, que não coaduna com a passividade que aqui encontram. Há mais belezas entre o São José e a Cidade de Deus do que sonha a vã classe média manauense.

PIADA DE PARAENSE

Um dos sintomas da reatividade é o humor decadente. Em Manaus, virou senso comum em alguns nichos sociais ridicularizar o paraense através de chistes, atribuindo-lhes valores sociais vexatórios.

O fato, reproduzido largamente inclusive na imprensa – que se arvora formadora de opinião – já criou um estado de coisas socialmente perigoso, no qual agressões, discriminação no trabalho e até mortes já ocorreram.

UFAM VAI VIRAR NICHO DE XENOFOBIA?

Em 2008, o Amazonas já havia ficado na lanterninha entre as médias nacionais de aprovação no ENEM. Embora os dados referentes ao ano de 2009 ainda não tenham sido divulgados, é de se esperar que a educação do orgulhoso governo do estado e do secretário filósofo-e-candidato não tenha tido melhor sorte.

Primeiro porque nada ocorreu de 2008 para 2009 que mostrasse algum tipo de mudança na estrutura ou na fórmula de condução da educação formal. Ela continua anódina, com conteúdo programático desligado da realidade social dos estudantes, com gestão voltada para interesses particulares e corporativos, e com o predomínio de um ensino sem compromisso com a educação.

Segundo porque, das vagas oferecidas pela Universidade Federal do Amazonas para o ano de 2010, e disponibilizadas através do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), que representam 50% do total da instituição, a grande maioria foi preenchida por alunos de outros estados do país.

A UFAM foi a quarta universidade mais procurada pelos estudantes que recorreram ao SISU por uma vaga no ensino superior. A turma de 2010 de medicina da UFAM será 100% de outros estados. A de odontologia, 70% de fora. Engenharia mecânica e agronomia, 50%. Sem ter ainda encerrado o compilamento dos dados, o pro-reitor da PROEG, Adilson Hara, prevê que 45% das vagas totais da UFAM sejam preenchidas por estudantes que não residem ou cursaram o ensino regular no Amazonas.

Em tempo: o ingresso dos novos alunos está suspenso, graças à liminar solicitada pelo MPF, devido a irregularidades no estabelecimento do peso da nota da redação, mudada pela universidade após o certame ter sido realizado.

De qualquer sorte, é intenção da UFAM sair do sistema unificado e deixar de adotar o ENEM como critério para ingresso em 2011. Quanto a questionar o resultado dos estudantes do Amazonas, a entidade que encorpa o saber institucional do estado, a manifestação da inteligência, não se pronunciou.

XENOFOBIA E MISÉRIA SOCIAL

Um dos sintomas de que há a predominância de um estado de coisas propício à violência xenofóbica em uma sociedade é o comportamento de avestruz das instituições. Enquanto a maioria dos professores da UFAM reclamam do quadro educacional, seus filhos frequentam as melhores escolas particulares a peso de ouro. Enquanto intelectuais defendem a meritocracia e atacam as cotas nas universidades, esquecem que mérito não é apenas fruto de esforço, mas de condições materiais e imateriais, que são ofertadas ou não pelos governos e sociedade. Enquanto a frase: “universidade não é para qualquer um…” expressa a adesão a uma estrutura de ensino estatal que privilegia a manutenção das desigualdades sociais e da exploração do trabalho, essa pretensa inteligência social não se manifesta quanto às reais causas da violentação social que leva à miséria e à xenofobia, à violência e à existência de um governo de marketing.

Não é isso também uma forma de discriminação?

———————————————————————————————

* Trecho de À Espera dos Bárbaros, de Konstantin Kavafis.

Anúncios

5 respostas em “À ESPERA DOS BÁRBAROS: A XENOFOBIA COMO EFEITO DA APATIA SOCIAL DAS INSTITUIÇÕES

  1. Puxa,realmente este texto diz tudo o que eu penso sobre a forma como a educação em geral, está sendo conduzida…É frustante saber que existe sim, em um grau elevado xenófobos aqui em Manaus…Todo cidadão tem o direito de ser respeitado. Todo cidadão tem o direito a igualdade social…Isso tem!

    Kátia Patrícia Dos Santos.

  2. Sou manauense, acadêmico de Direito da UFAM. Aprovador no mesmo curso para a UEA e UFF (Rio de Janeiro). Ex-aluno de escola PÚBLICA e amigo de paraenses/maranhenses.
    O descaso com a educação é quase palpável nas escolas públicas (e até particulares) do Estado. Se um dia o governo decretasse estado de “calamidade pública” na educação, eu não me surpreenderia.
    Entretanto salientar de tal forma a xonofobia na capital amazonense é um exagero. Há sim piadas e um “senso geral” de humor em relação aos nossos irmãos, contudo não chega a ser vexatório ou violento.
    Paraenses/Maranhenses podem ser vítimas de violência como qualquer cidadão manauense também está sujeito. Envolvimento com o crime, assaltos, brigas podem vitimar tanto uns como outros. Dificilmente tal violência será aplicada tão somente por xenofobia.
    Falo não apenas como universitário, mas como morador de subúrbio, ex-aluno de escola pública, trabalhador do PIM e cidadão BRASILEIRO.

    • Luan,

      Para perceber a violência simbólica da xenofobia, sugerimos visitar qualquer fábrica do distrito, onde já se é possível verificar que algumas pessoas deixam de ser contratadas por serem oriundas do Pará. Cerca de quatro anos atrás, os jornais noticiaram que um morador do bairro São José foi morto por um vizinho, apenas por tê-lo chamado ‘paraense’. Como universitário, não permita que o saber seja cercado pelo muro do academicismo. Quando a violência chega à ponta da faca ou no gatilho do revólver, é porque a simbólica já não é suficiente para humilhar e destruir.

      Abraços meteóricos!

  3. “sugerimos visitar qualquer fábrica do distrito”.

    Já fui trabalhador do Distrito. Entenda-se PIM como Polo Indrustrial de Manaus. Trabalhei na Honda e Nokia. Em nenhuma delas verifiquei xenofobia. Acredito que esses casos sejam isolados e não representam a realidade da capital.
    Quanto as cotas, sou particularmente contra o seu modo de aplicação. Cota para Pardos e Negros em uma cidade com predominância dos mesmos não é razoável, pois permeiam os mais diversos setores educacionais, públicos ou privados. Não precisei de cota para entrar na Universidade. Esforcei-me mais que os outros alunos para entrar e acredito que cada um pode se esforçar para alcançar seus sonhos e objetivos.

    Por fim, espero que casos de violência e desrespeito, por qualquer motivo, não sejam mais rotina.

    :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s