PRÁTICAS DE SUBJETIVAÇÃO E A PAZ NA GUERRA DE POLÍCIA DOS EUA

Barack Obama (Foto: Agência Reuters).

Na cerimônia de entrega do prêmio Nobel da Paz, o premiado presidente dos EUA, Barack Obama, em seu discurso, relacionou a guerra a paz, bem como fez menção ao respeito a regras de combate. Eis as frases:

“Ajudamos a manter a paz com o sacrifício de nossos soldados e a força de nossas armas”

“A guerra tem um papel em preservar a paz. Mesmo assim, a guerra traz a tragédia humana. ”

A guerra em si nunca é gloriosa”.

“Devemos ter o interesse moral em seguir regras de combate, mesmo contra adversários malignos. Não podemos obrigar os outros a seguir regras que não seguimos”.

Estas falas de Obama podem nos auxiliar na compreensão da nova forma de Guerra existente na pós-modernidade. O que nos leva a questionar de que paz e necessidade são estas de se manter uma guerra, ainda que ela em si não seja gloriosa.

PRÁTICAS DE SUBJETIVAÇÃO E GUERRA PÓS-MODERNA

O conceito de subjetividade está ligado a constituição do sujeito e a um modo de existência. Nas filosofias modernas do sujeito, este é colocado como uma construção da consciência, isto é, a autonomia do sujeito advém de uma metafísica do espírito. O sujeito é autoconsciente.

Foucault critica esta posição e procura realizar uma análise onde o sujeito é constituído a partir de uma trama histórica. O sujeito, nesta análise foucaultiana, surge como o produto de uma série de práticas organizadas por um regime de verdade próprio a cada época histórica. Deste modo, o sujeito é determinado por elementos estranhos a sua constituição e modulado de acordo com o que passa a existir como realidade. É produto das práticas dos regimes de verdade que delineiam o dispositivo de saber/poder.

O sujeito é, portanto, produzido a partir de tecnologias do conhecimento que dividem para classificar e classificam para identificar um corpo que possa ser disciplinado e controlado. Por exemplo, há uma linguagem (gramática, dialetos, etc.) aceita como verdade e conhecimento científico que permite dividir os mentalmente sadios dos loucos para que haja uma identificação de quem fuja dos padrões estabelecidos e assim possa ser disciplinado e controlado.

O conceito de subjetivação, em uma perspectiva foulcautiana, está ligado então à produção, a técnicas, dispositivos, tecnologias, a criações de regime de verdades, ao desejo, a potências constituidoras de sujeitos e modos de existência através do poder. O poder tem por obrigação produzir as práticas de subjetivação necessárias que possam modular os sujeitos e, por conseguinte as suas ações.

Tratando-se do atual estado de globalização que nos encontramos, estas práticas de subjetivação combinam práticas de economia política com práticas que permitam a disciplina e o controle dos corpos, agora, em uma dimensão temporal e espacial a nível global. Para além do entendimento do mundo como uma “aldeia global”, onde tempo e espaço estariam dissolvidos e aproximariam as pessoas umas das outras em intuito de solidariedade, demarcam novos usos de razão para delimitarem uma realidade e assim um sujeito, tão logo submetido a um regime de verdade demarcador do que é verdadeiro e falso.

Neste sentido a Guerra torna-se um acontecimento de suma importância para este nosso período histórico. Melhor: a transformação na forma da Guerra. A Guerra já não funciona como uma maneira de expandir territórios físicos. Sua função moderna de continuação política por outros meios, hodiernamente, é transformada como um modo de adequado de controle as novas práticas de subjetivação. A Guerra, agora, tem que ser a extensão do modelo de controle e de disciplina próprio de um poder expandido, onde nada está fora dele. Um poder Imperial.

A guerra neste ponto , não é poder puramente destrutivo, é mais poder de ordenamento, constituinte, teleológico, portanto inscrito na duração como atividade processual e, ao mesmo tempo, inscrito no espaço como atividade seletiva, hierarquizante. A guerra é longa, infinita e, por outro lado, seletiva e hierárquica; ela desenha espaços e confins. Eis aqui a qualificação pós-moderna da guerra” (Antonio Negri).

GUERRA DE POLÍCIA E PAZ NOS EUA

A paz na modernidade marcava o objetivo da guerra. Com o fim da guerra vinha a paz. Na fala de Obama isto parece se inverter: “Ajudamos a manter a paz com o sacrifício de nossos soldados e a força de nossas armas”.  “A guerra tem um papel em preservar a paz. Mesmo assim, a guerra traz a tragédia humana”. Isto porque a Guerra, agora na pós-modernidade, já não precisa acabar para estabelecer a ordem e a paz, ao contrário, é na continuação dela, em sua perenidade, que a ordem e a paz podem ser mantidas. Pois, ela já não precisa ser destrutiva (embora possa ser a nível mundial), mas precisa manter o modelo de controle e a disciplina. Sua função agora é mais policial do que propriamente destrutiva. A Guerra tem por obrigação fazer valer as práticas de subjetivação do poder expandido, que fundamentam o controle e a disciplina. Para isso qualquer ameaça a estas práticas tem que ser combatidas. Então quem é o inimigo nesta guerra? Todo e qualquer um que imponha um limite a estas práticas que estabelecem um sujeito, uma democracia e um desenvolvimento determinado/determinante. A democracia, o sujeito e o desenvolvimento têm que obedecer ao controle e a disciplina do poder. E neste ponto os soldados, os exércitos e toda a tecnologia bélica são seres sagrados, uma vez que não lutam somente pelo seu país, por Deus ou pelas suas famílias, mas lutam pela transcendência do sistema (por isso os adversários são malignos?). E como tudo agora é disperso os exércitos são menores como grupos de policiais, mas atentos a obedecerem não somente as ordens, mas a missão de estabelecer a ordem e a paz na terra. A Guerra é mais polícia na pós-modernidade porque agora o seu objetivo é produzir e reproduzir subjetividade.

A guerra pós-moderna é algo menos do que a guerra moderna, mas é também algo mais do que a polícia moderna. A guerra pós-moderna tornou-se — monstruosamente — uma espécie de máquina produtora do social” (Antonio Negri)

Assim, a paz é mantida pelos EUA quando não obedece a ONU e invade o Iraque, quando mantém e manda mais soldados para o Afeganistão junto com outros aliados, quando pretende manter tropas no território boliviano e quando não aceita qualquer outro modo de existência que não seja o modulado pelas práticas de subjetivação impostas pelo poder.

Contudo, estas não são as únicas práticas de subjetivação existente. A resistência é possível quando colocamos como necessário uma ética da existência, onde o sujeito participa ativamente da sociedade sem ser necessariamente um produto seu, quando suas ações não são funções de uma classe e quando suas atividades produtivas não surgem de um processo de alienação, mas de suas próprias potencialidades.

Aí a guerra contra o terror e o próprio prêmio Nobel poderão aparecer como realmente são: eticamente desnecessários.

Anúncios

Uma resposta para “PRÁTICAS DE SUBJETIVAÇÃO E A PAZ NA GUERRA DE POLÍCIA DOS EUA

  1. Pingback: HAITI: EUA TRAZ SUA CULTURA DESTRUTIVA A UM PAÍS QUE PRECISA SER RECONSTRUÍDO «

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s