CRÍTICA DA ‘RAZÃO’ MIDIÁTICA: POR QUE A FOLHA CENSUROU O ARLESOPHIA?

A razão nos engana com mais frequência que a natureza”. (Vauvenargues).

O blogueiro e ativista social Antonio Arles, que edita o Arlesophia, recebeu notificação do escritório advocatício que representa o grupo Folha, para que retirasse de seu blogue duas imagens alusivas a uma campanha de cancelamento de assinaturas do jornal Folha de São Paulo e do site Universo Online. As duas imagens usavam os logotipos dos referidos produtos.

Arles, entrevistado pelo site Vi o Mundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, Arles explicou que recebeu a notificação ao sair de casa, das mãos da advogada, e que considera o ato do grupo Folha cerceamento e atentado à liberdade de expressão. A campanha não foi idealizada por Arles, que apenas a reproduziu. Outras campanhas, como a de boicote à revista Veja, do grupo Abril, também já ocorreram na rede.

Azenha, na sua análise, chama a atenção para o racismo latente no texto advocatício, no uso da palavra denegrimento, que remete ao termo denegrir, tornar negro, sujar.

Gostaríamos aqui de sublinhar alguns entendimentos que saltam a partir da análise deste acontecimento. A questão, a nosso ver, não é de censura, na medida em que é resguardado o direito à pessoa jurídica de resguardar a sua marca. A real censura não é impedir o uso da marca da Folha de São Paulo e do UOL: é a não compreensão, por parte das pessoas que gerenciam o grupo, em perceber que se trata de outros territórios e outras batalhas. Daí uma análise dos equívocos do grupo, que segue abaixo.

Em tempo: optamos por retirar deste blog as imagens, já que tornou-se ponto pacífico entre os blogueiros que, restando à Folha apenas o recurso jurídico da proteção da sua marca, pode-se usar de mil artifícios para fazer a campanha sem dar essa abertura para que eles ataquem os blogues. Entendimento o qual compartilhamos. CANCELE SUA ASSINATURA DA FOLHA E DO UOL.

1o Equívoco: NOVAS DOENÇAS, VELHOS (E INÚTEIS) REMÉDIOS

Recentemente falamos aqui neste blog sobre a querela entre o Google e a WAN, associação mundial dos jornais, sobre os direitos de reprodução de notícias. Subjacente a esta briga, há uma espécie de guerra de linguagens.

Os jornais foram criados dentro de um contexto, uma linguagem. A reprodução de uma notícia de um jornal escrito, através do papel, requer uma operação complexa e dispendiosa: papel, recursos financeiros, sistema de distribuição física, ainda assim limitado e de alcance previsível. Estão ainda nesta ordem. O direito ao controle do uso e reprodução do conteúdo escrito, num jornal, ocorre de uma maneira. Um sistema molar de informação: tempo e espaço são extensivos. As novas teletecnologias mudaram isso.

Com elas, a relação é virótica, virtual, molecular: não há como impedir a curtíssimo prazo que notícias sejam “pescadas” de um portal jornalístico na internet e seja, em questão de segundos, veiculada para um número imprevisível de pessoas. Coisa impossível no modelo molar, onde estão os jornais. A legislação dos direitos autorais, bem como a própria noção de propriedade no sistema capitalista sofreu um abalo a partir do desenvolvimento de novas tecnologias. Se antes, a fita cassete permitia a reprodução de discos e fomentava um mercado paralelo de distribuição que não chegava a incomodar, com os Ipod’s, MP3 players, CD’s, DVD’s, a quantidade de dados e a velocidade de sua reprodução e disseminação tornaram o mercado das gravadoras, tal como o conhecemos, irrelevante, até mesmo prejudicial. O mesmo vale para as notícias. Na internet, são poucos os portais que controlam o acesso ao conteúdo (não coincidentemente, o UOL é um deles). Quem controla, na internet, perde.

Não por acaso, David Drummond, do setor jurídico da Google, conclamou os jornais a criar outras formas de ganhar dinheiro na internet, que não envolva o controle do conteúdo. Se antes a reprodução de um artigo de um jornal exigia um complexo esquema, hoje, basta a uma pessoa interessada ter a senha de um site protegido, entrar, reproduzir num editor de texto a notícia, salvá-la e distribuir por emeio, postar num blog, colocar o link no twitter, e antes que o editor do jornal veja, o mundo já leu aquela notícia. O ‘vírus’ invade o DNA da célula, e o reproduz, para outros interesses que não os da manutenção da própria célula. A célula morre. A analogia vale para os jornais. O fim pode ser o mesmo.

Daí o primeiro equívoco da Folha de São Paulo e do UOL: tratam uma doença nova com velhos remédios. O resultado, provavelmente, será bem diferente do que eles imaginam…

2o Equívoco: A GUERRA PERDIDA DOS VALORES.

A política tem se tornado cada vez mais midiática, e a mídia, mais política. Claro, sabemos que tudo é político. No entanto, o papel social de trazer soluções para os problemas urbanos, a economia, a ecologia, o dia-a-dia das pessoas, tem sido cada vez mais interpretado pela mídia, enquanto a política tradicional (os chamados 3 poderes), aderem a um modus operandi mais próximo do marketing. Um político não vale pelo que ele produz, mas pelo quanto é capaz de carregar em termos de signos telemidiáticos. Ao menos é o que se quer fazer predominar.

Trata-se de uma guerra de valores, que desemboca numa espécie de “Razão Midiática”. No entanTo, no Brasil, a mídia, bem como os políticos voltados para esta vertente, estão perdendo. Enquanto na MTV, a VJ Penélope Nova é colocada como especialista em DST/AIDS na telinha, e tem quem acredite, inclusive ela mesma, a direita, alcunhada de oposição, está atordoada após a Operação Caixa de Pandora. Acredita ter perdido o mote da ética, o seu “diferencial”, como afirmou Agripino Maia (DEM/RN). Ou como estampa a manchete do blog do jornalista Ricardo Noblat: “Ética não poderá subir nos palanques em 2010”. Nem desconfiam eles que ela não subiu em 2002, e em 2006, quando esta direita, com o seu projeto de subserviência aos ditames do capital especulativo e aos governos dos países desenvolvidos levou o Brasil duas vezes à bancarrota, perdeu para o torneiro mecânico. E nem que não houvesse a operação, a ética poderia subir no palanque. Primeiro, porque a palavra é contextualizada dentro de estratégia de guerra de valores da direita, que inclui, evidentemente, a mídia, e nada tem a ver com a ética no seu significado conceitual.

Enquanto o governo federal atua no plano das relações concretas (desenvolvimento econômico, emprego, melhorias sensíveis e palpáveis) – onde os valores são professados para além do vazio do significante, a mídia procura atacar com as mesmas velhas armas, desgastadas há pelo menos dez anos. Daí a Folha de São Paulo permitir entre seus articulistas e noticiosos, acusações diárias e surrealistas ao governo, e efetivamente creia que não será contestada. Esta mídia ainda não entendeu que o seu dedo delator não carrega mais a mágica de antes. A lógica: “deu no jornal, é verdade”, não resistiu à diminuição da fome e à melhoria geral das condições de sobrevivência das pessoas, nem à democratização da informação realizada pela internet, seja na banda larga, seja na lan house com conexão discada. Atacar o governo sem argumentos lógicos e palpáveis (e eles existem!) já não comove mais as massas. A mídia parece ter perdido o rumo da guerra de valores, e tem se agarrado inutilmente à sua “razão midiática”. Ainda que esta mesma “razão” estejam levando a nau a pique. Não é que os valores professados não tenham mais força reacionária: é a mídia que está perdendo (se é que a teve) a propriedade distributiva desses valores. O sonho da razão midiática produz o monstro do autoengano.

3o Equívoco: A PERSISTÊNCIA (E A DEGENERESCÊNCIA) DA IMAGEM

A Folha e o grupo UOL mostram preocupação com a imagem no momento em que crêem-se “denegridas” (o termo usado pela representação jurídica) pelo uso que o blogueiro fez delas.

Uma imagem não se reduz a uma representação de um objeto, tampouco o substitui: fica a meio caminho de uma e outra. Uma imagem traz consigo um rastro, um entendimento, uma sentença. Ao entrar em um bosque, um homem não desconfia, mas está ordenando suas imagens de modo a adequar aquilo que vê ao que ele já conhece. Assim, ao olhar as árvores, ele não as vê, mas tão somente adequa as imagens capturadas àquela que já possui. A não ser que, a partir da sua própria vontade, consiga afastar as imagens que já possui, para poder capturar e processas as novas imagens. Só então ele poderá dizer que viu as árvores do bosque.

Assim sendo, pergunta-se: qual a imagem que a Folha pretende preservar, resguardar da lata de lixo da montagem blogueira?

A do jornal cujo editorial e notícias não se diferenciam? A das imagens trucadas, das manchetes tendenciosas, da escolha criteriosamente parcial das pautas, da ignorância em relação a outros pontos de vista que não os dos patrões da mídia? A da briga incessante com o fato, na produção de versões absolutamente sem relação com estes?

Neste sentido, onde está o “denegrir” do Arlesophia? Senão o de reproduzir fielmente em linguagem visual aquilo que cotidianamente o jornal professa em suas páginas? O mesmo vale para o conteúdo do portal UOL (os dois são do mesmo grupo empresarial).

O que determina a persistência da imagem é o seu utilitarismo. Nesse sentido, qual a razão do incômodo da Folha com o uso de sua imagem tal como o feito pelo blogue, senão o de, inadvertidamente afirmar o sucesso da campanha? Entende-se daí que a maior responsável pelo “denegrir” da imagem-marca do jornal é o próprio jornalismo praticado por ela. A notificação deveria ter sido entregue à residência da família Frias.

A FOLHA, A DIREITA, O BRASIL

Reinaldo Azevedo vocifera no programa do Jô Soares; Mainardi antropomorfiza os animais numa moralidade decadente, na Veja; César Benjamim destila ressentimento na Folha. Tudo isso em conteúdo exclusivo UOL.

Cenas de uma mídia que tenta fazer política a partir de uma “Razão Midiática” que não existe, e que acaba por revelar um infantilismo tragicômico (Paul Virilio): a necessidade de afirmar a força através da força. O que, para qualquer entendedor, é prova de debilidade de quem acredita no vazio do poder. Arles é muitos; a Folha não pode com tantos.

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